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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Imensidão Azul

Barriga ao volante, o Imensidão Azul desloca-se em meio aos solavancos causados pelo calçamento ruim ou pelos buracos das estreitas ruas de terra. Em alguns trechos uma nuvem de poeira acompanha o velho Mercedes Benz na sua incansável tarefa diária. Sobe morro, desce morro, pega o asfalto, passa pelo centro, contorna ruas, pára nas casas, nas esquinas, seguindo religiosamente seu caminho tortuoso em direção às escolas de Marataízes, no sul do Espírito Santo.

O BWS 0786 não é um solitário nesta tarefa. Diariamente, outros ônibus e vans perambulam, carregando a carga mais valiosa que uma cidade, um estado, um país podem ter: os pequenos alunos da rede pública ou particular, a maioria crianças do ensino fundamental. Se tantos ônibus e vans fazem o mesmo serviço por que dar tanta atenção ao Imensidão Azul?

Em primeiro lugar porque somente nele encontraremos Barriga ao volante. Quase sempre calado, às vezes ranzinza, paciente, debochado; outras vezes tão criança quanto a carga preciosa que transporta. Em segundo lugar, não consigo me recordar de alguma vez na vida ter visto um ônibus escolar tão azul, com dois enormes golfinhos pintados nas laterais e, ainda por cima, ostentando o vistoso nome de Imensidão Azul, numa cidade à beira da praia. Em terceiro, e não menos importante, porque nele viaja meu filho e repórter mirim que sempre me traz as últimas do Barriga.

Certa feita, já a caminho do ITA, Barriga parou na padaria Nil Regi para comprar ovos. Não, não era nenhuma recomendação da patroa. O destino dos ovos era a cabeça aniversariante de Moira, irmã do Noah, colega de classe do Henrique, meu filho. De outra feita, quando estavam chegando no Maria da Glória, o Imensidão Azul, com toda sua imensidão, passou por cima de um sapato de salto alto e furou o pneu. E toma Barriga descer do ônibus em meio à algazarra das crianças para consertar o pneu que não estava careca, o salto é que era tão fino que mais parecia uma espada.

É sabido que a vida de muitas pessoas é feita de grandes virtudes e pequenos pecados (para uma boa parte, vale o contrário!). Barriga tem sua cota de virtudes bem preenchida, o que não impossibilita alguns pecadinhos, no mais das vezes tendo suas crianças como cúmplices. Como daquela vez em que estavam atrasados, ele cortou caminho e acabou entrando num trecho interditado por causa da Festa da Canoa. Deu de cara com uma placa de trânsito proibindo a passagem. Dois meninos desceram rapidinho e afastaram a placa, alguém viu a cena, os meninos voltaram correndo para o ônibus e o Imensidão Azul vazou por outro caminho. Outro dia, ele quase comete a façanha de atropelar o mesmo cachorro, na ida e na volta! Noutra manhã qualquer, pifou o motor do Imensidão quando lá dentro a galerinha, toda animada, cantava um funk(Aí irmão! Humildade e disciplina, vida louca, diretamente da chapaaa!...). Estavam perto de Campo Acima. Uma parte dos alunos foi embora em outro ônibus enquanto a outra parte ficou aguardando o Barriga voltar, sob a supervisão do motorista do outro ônibus da Vila. Depois de um bom tempo de espera fizeram a maior festa para receber o Barriga equilibrando-se como podia numa Bis, mas trazendo a peça necessária para o conserto.

O interior do Imensidão Azul é sempre uma festa, brincadeiras rolam soltas, a cantoria é geral. Crianças juntas tornam o silêncio uma utopia para ouvidos pouco tolerantes. Não é o caso do Barriga que segue sereno em meio à balbúrdia, chamando a atenção daqueles mais empolgadinhos que insistem em movimentar-se pelo corredor com o ônibus em movimento.

Assim, todo dia meu repórter mirim traz notícias de bordo que me remetem ao tempo em que eu também era criança e estudante, com a diferença de que, naquela época, era raro ver um ônibus escolar. Fazia o caminho de casa para a escola a pé, com a mesma alegria e irreverência das crianças de hoje, mas sem a mínima desconfiança de que um dia, no futuro, veria um Imensidão Azul cruzando as ruas da cidade carregado de crianças felizes, entre elas, meu filho.

Um comentário:

Marcus Aurelius disse...

Essa eu já tinha lido. Quando sai o "Jesus...". Eu adorei aquele picareta sensível.