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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Jesus despedaçado

Foi em 2004, eu ainda era um paulistano tentando encontrar o que fazer em Marataízes. Tinha acabado de mudar para uma casinha em frente ao Supermercado Navio, depois de ter morado quase dois anos no Bairro do Juá. Comecei o ano mais perto do centro da cidade, num bairro onde as ruas têm nome de estados brasileiros. Morava na junção da Goiás com a Pará.

Por essa época descobri um casarão de dois andares na Rio Grande do Norte, onde, segundo seu idealizador, funcionava um grande ateliê de artes. O idealizador em questão era - também segundo ele - um “grande” artista plástico e escultor “consagrado”. O nome dele não vem ao caso agora, mesmo porque já esqueci. Na falta de um, vamos chamá-lo de Chico Bras. Ao visitar o tal ateliê percebi que ele não era ainda uma obra acabada, estava mais para uma obra mal começada. Na entrada, um amplo espaço aberto, seguido por uma varanda onde aconteciam as aulas de desenho e escultura. Chico Bras fez questão de apresentar todo o complexo arquitetônico, juntamente com suas divagações sobre o grande centro de artes a ser construído num futuro não muito distante. Depois de varar o mundo expondo sua arte e viver aventuras que dariam para encher um catálogo telefônico, resolvera fazer alguma coisa em prol de Marataízes e do seu povo tão carente - sem fins lucrativos, é claro...

Terminada a empolgante apresentação dos sonhos de Bras, resolvi me inscrever para as aulas de desenho, pois estava um tanto quanto enferrujado no ofício. Não foi uma decisão rápida, dada à variada gama de opções: esculturas em gesso, argila e madeira; bijuteria; colagem; marchetaria; tapeçaria; teatro; fotografia e mais uma série de atividades ainda em ebulição na cabeça de Chico Bras. Conheci também a namorada dele e com ela formalizei minha matrícula.

O início do curso prometia tanto que trouxe meu filho para as aulas de desenho e minha mulher para as de tapeçaria. As aulas de desenho e escultura eram dadas pelo próprio Bras que prometia ser um professor dedicado a passar todas as suas técnicas artísticas aos privilegiados alunos. Ledo engano.

Conheci João na primeira semana e logo vi que era um homem de boa fé. Humilde como a maioria dos homens de boa fé, estava disposto a aprimorar seus conhecimentos autodidáticos em desenho e escultura e acreditava venerandamente que Chico Bras lhe propiciaria isso. Simpatizei de imediato com ele ao vê-lo assídua e compenetradamente lutando para absorver os ensinamentos de mestre Bras. Pintor de placas e faixas tinha lá suas habilidades, conseguidas com muita força de vontade e observação; porém, precisava ainda ser lapidado para tornar-se um desenhista ou escultor de verdade. Alguma coisa me dizia que mestre Bras não estava disposto a assumir esse papel. Enquanto essa desconfiança não se confirmava, eu admirava o esforço de João a rabiscar papéis, a recortar pedaços de madeira e a alisar blocos desfigurados de gesso.

Quando os primeiros sinais de que um embuste se pronunciava no horizonte, eu já tinha gasto alguns reais com papel e lápis para mim e para meu filho e muitos, muitos novelos de lã para minha mulher que se entregara de corpo e alma a um tapete que parecia nunca ter fim. Conhecedor da minha cara metade, sabia que ela não se contentaria com um tapetinho básico de entrada de porta. Começou logo com um de dois metros por dois e tanto, Esmirna, a técnica mais complicada. Resultado: consumia novelos e mais novelos de lã e o tapete não andava. Logo não encontrei mais a lã em Marataízes, trazia de São Paulo nas raras vezes em que ia pra lá.

Foi num sábado pela manhã que dei de cara com Jesus. Todo branco, enorme, deitado num cavalete, sob os olhares admirados dos alunos, especialmente os de João. As aulas de sábado eram para repor as ausências de Chico Bras durantes semanas seguidas. E o Cristo? Obra de nosso mestre encomendada por uma igreja de alguma cidade do Espírito Santo. Estava ainda no início, como o tapete de minha mulher que, ao contrário dele, um dia teve fim. A partir daquela manhã o Cristo de gesso passou a ser nossa companhia silenciosa, igualmente esquecido pelo mestre Bras, na sua batalha por patrocinadores para o ateliê, a essas alturas já envolto em dívidas. Na tentativa de saldá-las, nosso mestre viajava muito, principalmente ao Rio de Janeiro. E foi numa dessas idas para a cidade maravilhosa que ele se comprometeu a comprar mais novelos de lã para o tapete de minha mulher - com nosso dinheiro, é claro. Passou-se quase três semanas sem ninguém saber do paradeiro de Chico Bras. Ficamos todos abandonados, os alunos, o tapete e a colossal estátua de Cristo, deitado ao ar livre e sujeito às intempéries.

Enquanto Chico não dava as caras, descobrimos que sua ex-mulher morava no Rio de Janeiro, que ele se hospedava no apartamento dela e passava as tardes dormindo sem dar notícias nem para a namorada que, apavorada com as dívidas vencidas, sem dinheiro em caixa e com o dono do casarão, um padre, cobrando os aluguéis atrasados, tentava heroicamente encobrir suas picaretagens. Resumo da ópera: Chico Bras voltou, sem patrocinadores, sem dinheiro, sem nossa lã e sem saber como pagar as dívidas. Chegou a oferecer o Cristo inacabado para o padre que, apesar das promessas de recebê-lo prontinho para o altar, não aceitou. Mal botou a cara no ateliê, começaram as pressões. Relutou muito, mas devolveu o dinheiro da lã, ou melhor, a namorada pagou o que ele devia, assim como pagou parte dos aluguéis atrasados e outras pequenas dívidas. Quando Said chegou para cobrar o jornal que havia rodado por ordem dele, Chico Bras escondeu-se dentro do ateliê, juntinho do Cristo, enquanto o turco berrava lá fora. Depois disso ele sumiu novamente, levando o dinheiro dos incautos aprendizes do curso de bijuteria. Disse que iria para a França abrir as portas da Europa para os produtos dos alunos. Assim acabou o sonho de Bras. Alunos e professores foram viver suas vidas e o casarão foi entregue ao padre que ficou sem saber o que fazer com aquele enorme Cristo branco deitado no cavalete.

Dia desses encontrei João e relembramos aqueles tempos de ateliê. Homem de boa-fé que é levou muito tempo para entender que seu mestre era, na realidade, um pilantra. Ficou frustrado com as aulas de desenho, especialmente as de perspectiva, desejo antigo de dominá-la. Quanto às esculturas, segue treinando com tocos de madeira e sacos de gesso que sobraram do ateliê. Fiquei sabendo que ele tomou a iniciativa de aliviar a irritação do padre, retirando o Cristo de dentro do casarão. Levou pra casa, não tinha espaço, quase briga com a mulher. Um amigo seu viu o Cristo, gostou, levou-o para decorar seu barzinho na beira da praia. João foi visitá-lo e sentiu-se mal ao ver o Cristo deitado, sereno, ouvindo conversa fiada de bêbados. Levou-o de volta pra casa e foi aí que teve a idéia. Curioso, como todos os autodidatas, quis saber como era a estrutura interna da estátua. Como ele mesmo me disse, fez uma verdadeira autópsia no Cristo para descobrir a ponta de um esqueleto de vergalhão e, já que estava com a mão na massa, correu a serra elétrica pra cima da estátua, decepando-a em vários blocos de gesso. É nesses blocos oriundos do Jesus despedaçado que João esculpe carrancas, cabeças de cavalos e uma eternidade de figuras pagãs e animais mitológicos.


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