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terça-feira, 28 de agosto de 2007

O caos não é só aéreo


O caos aéreo tem tomado bastante espaço na mídia, principalmente na televisão. Não é pra menos, afinal não se trata apenas de aeroportos superlotados e pessoas amargando esperas prolongadas, dormindo em cadeiras desconfortáveis. Em meio a isso aconteceram duas tragédias em menos de um ano com um total de quase quatrocentas vítimas fatais. Pior, não estamos seguros de que a próxima não está a caminho.

Nas últimas semanas o assunto arrefeceu um pouco, o que nos permite ver que o caos no Brasil não é só aéreo e vem se arrastando a várias décadas. Basta observar mais atentamente a crise na saúde pública. Praticamente todos os telejornais têm dado cobertura às greves de médicos em hospitais do Nordeste, mas elas são apenas parte do problema, a ponta de um iceberg muito maior.

O Globo do último domingo, 26 de agosto, dedicou duas páginas ao tema. Com dificuldades em todo o país, o Sistema Único de Saúde (SUS) vive dias de caos no Nordeste, principalmente em Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Pelo menos um bebê em Pernambuco e duas mulheres na Paraíba morreram por falta de atendimento médico. Essas mortes chocaram e revoltaram muitas pessoas que classificaram os médicos grevistas de insensíveis e desumanos. Acho que as greves nos serviços essenciais deveriam ser extintas. O Secretário Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, Paul Singer, um dos ideólogos do PT, ex-sindicalista e estudioso do assunto, propõe que categorias como médicos, professores e motoristas de ônibus ganhem um tribunal especial formado por trabalhadores, governo e pela sociedade para decidir suas reivindicações, o que resultaria na eliminação das greves. É uma proposta a ser discutida.

Importante lembrar que a crise na saúde pública não foi causada pelas greves e sim o contrário. Além das reivindicações salariais, as greves deixam à mostra a superlotação dos hospitais, a falta de leitos e verbas, os descasos, o mau aproveitamento e o desvio do dinheiro que deveria ser aplicado na melhoria do sistema de saúde. Falta tudo nos hospitais, nos corredores sobram pacientes, mesmo em estado grave, aguardando vagas nas UTIs. De acordo com o Sindicato dos Médicos de Pernambuco existem 560 leitos desativados nos quatro principais hospitais públicos da região metropolitana de Recife, enquanto corredores de hospitais como o da Restauração e Getúlio Vargas vivem superlotados. O problema ocorre até em centros de referência como o Procape (Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco) onde, na última quinta-feira, pacientes como João Ferreira da Silva, de 70 anos, portador de insuficiência cardíaca, aguardava sentado há 48 horas uma vaga na UTI.

Vejam só a que ponto chegamos: o Procape tem duas máquinas sofisticadas de hemodinâmica, avaliadas cada uma em US$ 1 milhão, que não funcionam porque faltam simples catéteres. Elas estão instaladas há um ano e há seis meses esperam licitação para a compra do material. Segundo a diretora da Procape, Deuseny Tenório, o hospital possui 23 leitos de UTI, sendo doze pós-operatórios, mas só dois funcionam por falta de médicos, enfermeiros e remédios. Na quarta-feira, havia nos corredores 17 doentes em estado grave, com infarto, angina, dispnéia, dores cardíacas, aguardando vaga na UTI. Aí eu pergunto: e a CPMF, onde é que entra nisso? Dizem que memória de brasileiro é curta, mas acho que nem tanto para esquecer que o criador da tal contribuição provisória/permanente, o cirurgião Adib Jatene, justificou-a como um imposto necessário para resolver os problemas crônicos da saúde pública. O tributo foi criado em 1993, então como Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF). Seu objetivo declarado era ajustar as contas públicas e permitir o lançamento do Real. Em 1996, a taxa renasceu, já com o nome de Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), desta vez para reforçar o Fundo Nacional de Saúde. Ela deveria durar pouco e arrecadar recursos para gastos emergenciais da área. Como se sabe, nada disso ocorreu. Atualmente, o chamado "imposto do cheque" ajuda a honrar desde o Bolsa Família até as pensões do INSS e a folha de pagamentos do governo.Você viu alguma melhoria na saúde, de lá pra cá? Nem eu, nem o primo do Abreu!

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), decretou estado de emergência na saúde desde o mês de julho. O Conselho Regional de Medicina aponta o déficit de mil médicos. Para o Sindicato dos Médicos, o número seria maior: 1.200. O presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas, Wellington Moura, afirma que, no seu estado, o déficit também é grande, pois muitos profissionais migram para Sergipe e Bahia, onde os salários são maiores. Na Secretaria de Saúde de Pernambuco continuam abertas as inscrições para médicos que estão sendo contratados sem concurso. Durante a greve, 131 pediram demissão e o estado apelou a profissionais das Forças Armadas e fez contratações temporárias. Foram abertas 120 inscrições e 56 haviam sido preenchidas até a última sexta-feira.

Para o presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, Mário Fernando Lins, a greve serviu também para denunciar o caos na saúde.

- O médico sempre é culpado, assassino, vilão. Não é que não sejamos solidários com a dor, mas não nos é dado o mínimo necessário para dar bom atendimento à população.

O presidente do Conselho Regional de Medicina, Carlos Vital Tavares, afirma que a crise não é de ética dos médicos, é orçamentária(as verbas só são liberadas nos últimos três meses do ano), de gestão e da falta de vontade política. A crise não se instalou de modo abrupto nem repentino, vem se agravando e chegou a um ponto de ruptura.

Há 33 anos no serviço público, a diretora clínica do Procape, Deuseny Tenório, perdeu as contas das vezes em que foi obrigada a desmarcar cirurgias para ceder a vez a outros pacientes em estado mais grave. Ela elogia os doentes pela compreensão que têm para com a necessidade de urgência de quem chegou depois. Afirma que se não fosse ela, a pressão contra os governos seria insuportável.

- O governo não sabe a importância da nossa função como amortecedor social – diz ela. Acha ainda que a situação dos hospitais públicos vai se agravar com o envelhecimento da população – as doenças crônicas vão começar a aparecer em maior intensidade, e não temos trabalhos preventivos à altura. Muitas vezes, fazemos cotas entre os médicos para enviar os pacientes que receberam alta de volta para casa porque as famílias não têm dinheiro para o transporte.

Pesquisa encomendada pelo sindicato da categoria mostrou que 33% dos médicos entrevistados não fazem exames preventivos, que 65% têm dois ou mais vínculos trabalhistas e que, embora trabalhem em média 46,8 horas semanais, acham que a carga ideal não deveria exceder 40 horas. Dos médicos entrevistados, 18% conhecem outros que são usuários de drogas, lícitas ou ilícitas. Os que já presenciaram o consumo de drogas no meio relatam o uso de morfina (34%), maconha (21%), álcool (16%) e cocaína (5%). Entre os especialistas, o maior consumo foi observado entre os anestesiologistas (46%), na clínica médica e cirurgia (10%), na ginecologia (8%) e na cardiologia (4%). Dos entrevistados, 16% relataram doenças. Cerca de 70% afirmam que trabalham demais e não são devidamente remunerados.

Para o médico Thiago Moura Lins Acioli, um dos demissionários do Hospital da Restauração, é difícil suportar a “bandalheira geral” que se tornou a saúde pública.

- As pessoas morrem na sua frente, outros agonizam e não se pode fazer nada. Falta o básico do básico: gaze, máscaras, remédios, manutenção de equipamentos. Tenho amigos com tuberculose, a nova epidemia entre os médicos – afirma.

Thiago divulgou uma carta confessando sofrer de depressão, por trabalhar naquilo que chama de “franquia do inferno”. Confidenciou que tem se submetido a sessões de terapia para suportar o estresse provocado pelo caos do hospital, que o obriga muitas vezes a escolher, entre dois doentes, qual deve ser enviado para a unidade de terapia intensiva, por ter mais chances de sobreviver. Já houve o caso de um tapuru (larva de mosca, no linguajar pernambucano) ser encontrado pelo médico buco-maxilar Martinho Medeiros Júnior no alimento servido aos profissionais no refeitório. A direção do hospital informou que o incidente está sendo investigado e disse que as refeições são terceirizadas. Caso fique constatada a responsabilidade da empresa de alimentação, o contrato será suspenso. A comida, no entanto, não é o único problema do Hospital Restauração. Este ano foram interditados vários cômodos devido à presença de escorpiões, inseto associado à falta de higiene e presente em locais onde há muitas baratas.

Tudo isso justifica a morte e o abandono de pacientes durante as greves? Penso que não, porém, é muito difícil julgar os médicos estando distante do seu dia-a-dia. A única conclusão que chego no momento é a de que investimento em projetos sociais é muito mais do que Bolsa Família.

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