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sábado, 18 de agosto de 2007

Segredo

Quis o destino que eu fosse morar na mesma rua do ateliê de Chico Bras. Em maio de 2006 mudamos para uma casa na Rio Grande do Norte, bem próximo ao casarão desocupado que num passado recente viveu a ilusão de ser o grande ateliê de artes de Marataízes(ver crônica Jesus Despedaçado). Casa com um quintal razoável e uma bela varandinha de frente para a rua, de onde podíamos acompanhar todos os acontecimentos de maneira privilegiada, como se estivéssemos em um camarote.

Foi dali, da varandinha, que vi chegar o Segredo naquela tarde de domingo. Vinha no seu passo tranqüilo, trotando como um puro sangue. Não menos tranqüilo vinha o cavaleiro, Seu Antonio, pés descalços, chapéu desgastado, camisa aberta no peito, pernas das calças dobradas até a canela. Não lembravam, nem por um segundo, a figura de um jóquei a desfilar na pista montado em seu alazão voador.

Conheci Seu Antonio logo que mudamos para a nova casa, minha mulher passou a contar com seus serviços para manter o terreno baldio ao lado sempre bem capinado, as pequenas árvores da frente sempre podadas; criou até um sistema de drenagem para a água que se acumulava na rua nos dias de chuva impedindo nossa entrada. O sistema, na realidade, não passava de um buraco cavado no terreno baldio. Buraco que, não fosse pela interferência de minha mulher, por pouco não se transformaria num poço, tal a energia empregada por Seu Antonio. Magro, pele curtida de sol, mãos repletas de calos e pés cobertos de escamas, um verdadeiro filho da roça, preparado para qualquer tipo de trabalho que utilize facão, enxada, ou qualquer outro instrumento cortante.

Segredo fora apresentado alguns meses antes daquele domingo de dezembro. Costumava pastar serenamente no terreno baldio sem se importunar com a presença do casal de corujas e seus filhotes que ali faziam morada. Não chegava a ser um pangaré, mas também não pertencia a nenhuma linhagem puro sangue. Estava um tanto quanto barrigudo, pois passava a maior parte do dia pastando em terrenos abandonados na Vila de Itapemirim.

O motivo da chegada dos dois nobres visitantes era uma promessa feita por Seu Antonio para meu filho. Sempre que se encontravam Seu Antonio prometia-lhe trazer o Segredo para ser montado por ele. Finalmente chegara o dia de cumprir a promessa. Ao ouvir a voz rouca e inconfundível de Seu Antonio e ao sentir o cheiro de suor de Segredo, Henrique disparou do fundo da casa para a rua junto com minha sobrinha adolescente.

Em poucos minutos a festa já estava formada e eu me vi na obrigação de pegar minha câmera para gravar as cenas de equitação que se apresentavam. Primeiro Seu Antonio deu a meu filho instruções detalhadas de como controlar o cavalo e fazê-lo obedecer a todos os seus comandos. Depois, ajudou-o a subir no animal, ajeitar-se na sela e a segurar a cordinha que faz a vez do volante. Como é natural a toda criança, Henrique titubeou um pouco na largada, mas logo dominou a situação. Depois da primeira volta não tinha mais segredo, Segredo mesmo, só o cavalo que obedecia cegamente a todos os comandos do jóquei mirim. E eu ali, só gravando...

Chegou mais gente, Cecília, minha esposa; uma das várias filhas de Seu Antonio e uma neta. Organizaram uma fila. Terminado o passeio do Henrique, foi a vez da minha sobrinha. Acostumada desde pequena na montaria, deu um verdadeiro show, seguida por Cecília que também tinha lá suas habilidades como amazona. Depois delas veio a filha de Seu Antonio que certamente não herdou o talento do pai, mas que não decepcionou porque o Segredo também dela nada exigiu a não ser segurar a cordinha e dar umas batidinhas de pés nas suas costelas cansadas. Finalmente, a neta, que apesar do medo cumpriu a missão com galhardia. E eu ali, só gravando...
Foi então que ouvi a frase infeliz: “agora é o tio Paulo!” Tentei de todas as maneiras me esquivar, mas não houve jeito, o resto da galera já havia comprado a idéia da minha sobrinha, inclusive Seu Antonio e o calhorda do Segredo a me olhar com aquele olhar de cavalo matreiro. Nem a desculpa de que estava gravando adiantou, três cinegrafistas amadores surgiram de imediato. E eu ali, sem saída...

A primeira lembrança que me veio à cabeça depois de entregar os pontos, foi a de que já tinha visto esse filme antes. Mais precisamente, oito anos atrás, num pesque-pague qualquer lá no alto da serra, quando o Henrique estava com um ano e Raíssa, minha sobrinha, com oito. Com certeza a mesma lembrança passou pela cabeça de Raíssa, daí, a infeliz idéia. Na época, ainda morava em São Paulo e o único veículo que tinha conseguido dirigir até o momento tinha quatro rodas. Uns dois anos antes minha tentativa de aprender a andar de bicicleta depois de velho tinha terminado em várias quedas e arranhões espalhados pelas pernas. Com o cavalo não chegou a haver nenhum acidente, só aquela sensação de estar fazendo papel ridículo em cima de um animal cansado sendo puxado por um menino que não tinha mais do que sete anos.

Como diria certa ministra do turismo, se não tem outro jeito, relaxa e goza... Aproximei-me cauteloso do Segredo que me olhava com um olhar cansado. Seu Antonio não cabia em si de contentamento. Alertou-me sobre os segredos do Segredo, orientou-me sobre a melhor forma de conduzi-lo e finalizou a preleção com uma frase de efeito: “não esquece, home, você é que manda nele!” Juntou as duas mãos em concha e com elas me lançou como um foguete nas costas do alazão. Assim que desabei na sela, entregou-me a fatídica cordinha junto com a frase de efeito – “não esquece, hein, você é que manda!”. Será que o Segredo ouviu isso? – pensei, mas a expressão dele quando virou o pescoço para trás e me encarou era a de um cavalo ensimesmado, preocupado apenas com assuntos eqüinos. E minha mulher ali, só gravando...

Os primeiros passos da minha jornada deram-ne a falsa impressão de que tudo estava sob controle. Bastava não descuidar da cordinha. Uma puxadinha na mão esquerda e Segredo virava para esse lado, uma puxadinha na mão direita, lá ia ele para o lado direito. As duas mãos puxadas juntas para trás funcionavam como um freio. Tranqüilo! Fui calmamente seguindo meu percurso até o cruzamento com a Goiás, uma puxadinha pra direita, de leve, e já estávamos voltando numa monotonia extrema. Quem sabe quando chegássemos ao ponto de partida a coisa perdesse a graça e ninguém se incomodasse em terminar ali mesmo minha segunda cavalgada solitária? Quando estávamos passando em frente ao terreno baldio, Segredo revelou o que estava por trás daquele olhar matreiro. Puxei a cordinha pra direita e ele foi pra esquerda, quanto mais puxava pra direita, mais ele ia pra esquerda até abandonar de vez a rua e entrar mato adentro no terreno baldio. E minha mulher ali, só gravando...

Comecei a suar frio ao ouvir as primeiras gargalhadas. Já não sabia mais pra que lado puxar a maldita cordinha porque o tal do Segredo passou a me ignorar por completo. Ouvia o pessoal em coro gritando – “Volta, volta!” Segredo parou, não por ordem minha, é claro, por causa da parede de cimento que anunciava o fim do terreno baldio. Parou e começou a pastar como se não houvesse ninguém em cima dele, pra meu desespero e do casal de corujas que passou a dar vôos rasantes sobre a minha cabeça. Ouvia ao mesmo tempo o som das asas das corujas, do gargalhar da platéia e do ranger de dentes do desgraçado do Segredo. E minha mulher ali, só gravando...

Fui salvo pelo Seu Antonio que tomou a cordinha da minha mão e resgatou cavalo e cavaleiro sob os olhares dos curiosos que, a essas alturas já havia duplicado. Chegamos, finalmente, ao ponto de partida. Eu, com aquele ar sem graça, o rosto queimando, e o safardana do Segredo mastigando um resto de capim, nem aí para a minha vexatória situação. Assim que pisei o chão novamente ainda tive que ouvir a conclusão filosófica do Seu Antonio.

- Interessante, como os animal conhece quem não entende nada de montaria!

E minha mulher ali, só gravando...

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