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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Um gambá pra chamar de seu


Olhem bem para o cidadão da foto. Feio, né? Feiúra à parte, observe atentamente a postura de nosso fotografado, típica de quem foi flagrado cometendo algum ato ilícito, ou, no mínimo vergonhoso. Patas agarradas firmemente ao muro, pelos eriçados, olhos esbugalhados, rabo enrolado, dentes à mostra. Seria um foragido da polícia finalmente encurralado e exposto aos olhos da sociedade? Não, apesar de sugerir tudo isso, é um simples gambá, cumpridor de seus instintos e que nada deve à sociedade. Seu erro foi tentar entrar na casa alheia sem perceber que o vigilante Duque estava a postos e, como todo bom vira-lata caçador, farejo-o e partiu para o ataque latindo e rosnando feito uma Drag Queen escandalosa na passarela do Gala Gay. Acordou todo mundo, é claro. Nessa época eu morava no segundo pavimento do sobradinho do seu Cláudio, em frente ao Supermercado Navio. O fato aconteceu por volta da meia-noite e botou as duas famílias pra fora da cama, ávidas para acompanhar o desfecho do cerco do Duque. Ao ver o gambá ali encurralado, peguei minha câmera e tirei o flagrante. Fiquei um bom tempo com a foto guardada, imaginando alguma utilidade para ela. O gambá acabou fugindo pelo telhado das casas, graças à incompetência dos chefes das duas famílias, promovidos instantaneamente a delegados de polícia que dariam a voz de prisão ao assustado marsupial. Fugiu - é bom que se diga - sem nada dever à sociedade. O que fazer com essa foto?

Esta semana começa o julgamento dos quarenta ladrões do mensalão, excluindo-se o Ali Babá, é lógico. O STF já começou a montar o cenário para o grande show. Não que eu seja um cara pessimista ou que não confie na justiça, mas sinto que vai ter muito gambá fugindo, não pelo telhado e sim pela porta da frente como cidadãos que nada devem à sociedade. Eu, sou muito mais o gambá da foto! Fugiu, sim, mas com dignidade. Ao ver a cara lavada da cúpula dos quarenta na televisão, lembrei do gambá e achei uma utilidade para a foto.

Sou de um tempo em que homens e mulheres tinham vergonha simplesmente por ser considerados suspeitos da prática de algum ato imoral. Se já era uma vergonha tremenda ser apontado na rua como suspeito de alguma sacanagem, imagina ter a foto publicada no jornal ou, pior ainda, aparecer na televisão! Se alguma coisa desse tipo acontecesse, o sujeito ficaria com a expressão e a postura do nosso gambá da foto. Pobre gambá, ficou fora de moda! Não acredita? Basta observar melhor a reação de certas pessoas pegas em flagrante delito nas operações da Polícia Federal ou acossadas pela imprensa. Não vi nenhuma ainda que remotamente lembrasse nosso gambá. São presidentes do Senado que se agarram à cadeira mesmo com todas as evidências de ter quebrado o decoro parlamentar e ajudado a jogar no lixo a palavra ética, empresários corruptores que construíram um patrimônio à custa de maracutaias, juízes flagrados vendendo sentenças judiciais, filhinhos de papai que espancam mulheres na rua, cirurgiões plásticos que causaram deformações físicas irreversíveis em mulheres que se submeteram aos seus bisturis de açougueiros, pastores de igrejas evangélicas presos fora do país com dólares ilegais e por aí vai. Não estou nem levando em consideração o julgamento que terão e sim me atendo ao exato momento em que entram na mídia, ou durante todo o tempo em que se mantém nela. Quino, o cartunista argentino criador da Mafalda, fez uma charge há muito tempo que ficou marcada na minha memória. Ela mostrava um corrupto em frente a um armário imenso, indeciso sobre qual roupa usar no caminho para a prisão que, certamente, estaria repleto de fotógrafos.

O fato que causou forte impressão e acendeu a fagulha para achar uma utilidade para a foto do gambá não foi estrelado por nenhum político, pois esses estão mais para camaleões do que para gambás. Foi um médico, mais precisamente um cirurgião plástico, responsável por uma quantidade razoável de mulheres vítimas das suas barbeiragens cirúrgicas. Mulheres que, envergonhadas, tiveram a coragem de expor fotos de seus corpos deformados, em pleno Jornal Nacional. Não fizeram isso para aparecerem no horário nobre da maior emissora de televisão, mas por que se sentem totalmente impotentes, sem nenhuma esperança de que os erros sejam reparados. Erros que não foram apenas estéticos, há o caso de uma mulher que depois de se submeter aos perigosos bisturis do charlatão imponente, amarga uma vida quase vegetativa em cima de uma cama. São cenas chocantes, entremeadas pelas declarações cínicas do cirurgião. Para ele é normal ocorrer tais problemas com dez pessoas a cada mil cirurgias. Simples estatística! Pelas contas dele já deve ter feito umas quinze mil intervenções cirúrgicas. Estatisticamente podemos calcular que pelo menos 150 mulheres devem estar com seios deformados, cinturas destroçadas, coxas carcomidas ou quadris dilacerados. Fazer o quê? É a ciência da estatística, elas têm mais é que se conformar com isso e parar de reclamar, faz parte do negócio. Assim como, estatisticamente podemos calcular que pela idade dele e o número de cirurgias que diz ter realizado podemos concluir que ele é um grande adepto da linha de montagem, ou seja, o importante é a quantidade, não a qualidade. Curioso é que no mesmo dia foi mostrado um médico de idade já avançada derramando lágrimas por ter conseguido fazer com sucesso o parto de um bebê que conviveu um bom tempo com uma bala de revólver alojada no corpo da mãe. A menina nasceu saudável, sem nem imaginar que aquela bala assassina passou a poucos milímetros dela. Belo contraste, vocês não acham?

Aí eu pergunto: o que faz uma corporação médica manter em seus quadros um médico frio que considera seus erros simples estatísticas? Aí, eu mesmo respondo: o corporativismo, esse mal anacrônico que teima em ficar introjetado na sociedade. O mesmo corporativismo que protege políticos corruptos, médicos insensíveis, engenheiros que evitam passar nas pontes que construíram, juízes que se escondem atrás das togas, policiais que mais parecem bandidos e todos aqueles que além de uma profissão têm uma responsabilidade social e humanitária É esse corporativismo que tem sempre um gambá pra chamar de seu.

Gambás são animais de hábitos noturnos que permanecem a maior parte do tempo escondidos, porém, sem nada dever à sociedade. O que dizer desses outros gambás que se mostram às claras, sob as luzes dos holofotes, carregados de atos ilícitos e nocivos e ainda posam de celebridades?

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