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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Um Neosaldina para o Teco

Uma das coisas que mais estranhei quando cai de pára-quedas em Marataízes foi o ritmo de vida dos maratimbas. Recém chegado de São Paulo, a terra da correria, custei a me acostumar com uma vida sem relógio. Trazia o stress no sangue e a fumaça urbana nos pulmões. O primeiro ano foi difícil, isso lá por meados de 2002. Morávamos no bairro do Juá, depois do Xodó e eu não tinha quase nada a fazer a não ser curtir a praia com a minha família e esperar o tempo passar, coisa bem diferente do que fiz a vida inteira, ou seja, correr atrás do tempo.

Por essa época conheci Teco e Telmo. Estava com a cabeleira já bem avantajada e precisava de um corte decente, pois teria uma entrevista de emprego em Cachoeiro na semana seguinte. Perambulando pelas ruas do centro em busca de uma barbearia, fui atraído pelo nome do estabelecimento, o qual me transportou para minha infância. Lembrei-me, de imediato, daqueles dois esquilinhos espoletas, Tico e Teco. Entrei. Ao me deparar com o Teco, veio-me à lembrança outra figura conhecida das revistas, o Amigo da Onça. Nada a ver com a personalidade de meu futuro barbeiro e sim com o seu aspecto físico. Magro, cabelo preto bem pintado(como o meu, às vezes), bigode avantajado no rosto afilado e avental branco cobrindo o corpo delgado. Enquanto esperava minha vez, sentado na cadeira de pernas finas, lendo folhas esparsas de A Gazeta, observava meus esquilinhos trabalhando. Teco, extremamente calmo, movimentos lentos, voz baixa, quase que cochichando no ouvido do cliente; Telmo, agitado, gestos largos, voz rouca, falando pelos cotovelos bem mais carnudos que os do Teco. O contraste chamou logo minha atenção. Teco mantinha a conversinha de pé de orelha enquanto que Telmo falava para a barbearia toda, até mesmo para quem caminhava na calçada.

O tempo passou e meus conhecimentos a respeito da dupla se ampliaram a ponto de cada ida à barbearia ser um motivo de diversão. Descobri, por exemplo, que apesar do estilo zen do Teco trabalhar, por trás daquela calma toda existe um estressado. Fui descobrindo isso aos poucos, nas conversinhas de pé de orelha que costumamos manter enquanto chumaços de cabelos rolam pelo chão da barbearia. Essas conversinhas muitas vezes são entremeadas por queixas, principalmente no verão quando o movimento aumenta sensivelmente para os padrões Teco e Telmo. É nessas horas que o stress vem à tona e tudo começa a incomodá-lo, causando freqüentes dores de cabeça que só abrandam à base de Neosaldina. Afora os momentos estressantes nos horários de rush da barbearia, Teco já me confidenciou várias vezes o tormento por que passa quando tem de ir a Cachoeiro, especialmente no final do ano. Enfrentar aquele calor, as ruas e lojas cheias de gente só depois de tomar dois comprimidos de Neosaldina logo na partida. Para ele, mesmo Marataízes mudou muito, cresceu, não é mais a cidade calma de tempos atrás.

Certo dia cheguei à barbearia justamente no horário de rush. Um velhinho sentado na cadeira do Teco, um pescador na do Telmo, quase todos os bancos tomados por barbudos e cabeludos, a televisão ligada no último volume, concorrendo apenas com o barulho do ventilador assoprando da porta pra dentro e com a voz do Telmo discutindo com um eletricista sobre a instalação de lâmpadas fluorescentes no teto do salão. No meio de tudo isso a dor de cabeça do Teco. Quando finalmente sentei-me na cadeira e fui coberto do pescoço pra baixo pelo lençol azul, pude avaliar melhor o drama de meu cabeleireiro( que ele não me ouça; se ouvir, que entenda barbeiro!). Enquanto falava de coisas amenas, os tropeços do Vasco, as discussões costumeiras com Dona Encrenca, os problemas de saúde de sua cachorrinha, a festa de Cachoeiro que se aproximava, Teco deixava escapar a insatisfação com aquela confusão toda. A discussão do Telmo com o eletricista já dava sinais de que poderia evoluir para uma briga. Ele culpava o homem pelo serviço mal feito, motivo pelo qual as lâmpadas não se acendiam e o eletricista rebatia dizendo que o problema estava no gerador que não era de partida rápida. O eletricista tinha a voz fina e estridente tal qual um canário belga no êxtase de seu canto; para compensar, Telmo, que naquele dia estava com a voz mais rouca ainda, aumentava o volume. Junto com o volume, aumentava a dor de cabeça do Teco. Já havia engolido três Neosaldina e nada da discussão acabar. Eu sentia a tesoura tremendo na minha cabeça, junto com os desabafos: “Não agüento mais isso, me dá uma dor de cabeça, essa discussão não acaba...”

Na tentativa de acalmá-lo, eu desviava o assunto para casos antigos de infância e ele me falava das aulas que matava para ir ao cinema em Cachoeiro, ou então, do tempo em que trabalhava com os peixeiros, dirigindo o caminhão frigorífico. Naquela época ele gostava de tomar umas e outras e bater papo com o pessoal dos lugarejos por onde passava, se envolvia tanto na conversa e acabava vendendo fiado ou presenteando os amigos com pescadas e peroás, o que resultava em discussões freqüentes com o dono da peixaria. Não adiantava, era só dar uma pausa e voltava a pendenga da partida rápida contra a partida lenta, da voz estridente contra a voz rouca. Teco já chegava até a falar em aposentadoria. Nem Neosaldina melhorava mais a situação que só foi resolvida pela sua intervenção decidida. Partida rápida ou partida lenta, o homem que viesse consertar as luminárias depois do expediente e que acabasse logo aquela discussão antes que a cabeça dele explodisse!

O canário belga se foi, o ventilador e a televisão continuaram disputando pra ver quem torrava mais o saco de todo mundo, o Telmo reduziu o volume, mas sua voz rouca continuou envolvendo o ambiente numa freqüência mais baixa, Teco engoliu mais um Neosaldina e a paz voltou a reinar na barbearia.

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