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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Vai graxa aí?

Já faz algum tempo eu estava na agência dos Correios, no centro de Marataízes. Lá fora, o sol castigava cabeças maratimbas. Lá dentro, o ar condicionado deixava mais tolerável a fila que se espremia toda para não perder o sagrado ventinho refrescante. Apesar disso, havia um incômodo com a demora. Nessas horas cada um fica procurando o que fazer na esperança de o tempo passar mais rápido. Quem tem revista, lê, quem tem celular faz alguma ligação desnecessária, joga algum joguinho sem graça ou fica olhando fotos e recados. O restante, arruma alguma conversa com alguém do lado, lê os folhetinhos de cursos por correspondência dispostos sobre o balcão ou fica olhando para o ar condicionado enfiado na parede.

- Vai graxa aí?

Foi assim que ele apareceu, esgueirando-se com sua caixa de madeira por entre as pessoas e a cada uma oferecendo seus serviços. Olhei para ele e olhei para a fila, alguma coisa não se encaixava na cena. Magro, bem disposto, camisa e calças azul marinho, escova em uma mão e a caixa de engraxate na outra. Olhei de novo para a fila, mais especificamente para os pés de todos os seus ocupantes. Nenhum sapato; no máximo, sandálias havaianas. Pés descalços tinham aos montes. Eu ainda não havia chegado neste estágio, mas sapatos há muito não os calçava. Meus pés estavam até ficando mais ásperos depois de viverem a vida toda acondicionados em meias e sapatos de couro. Isso, porém, parecia não ser problema para o engraxate inesperado. Bem humorado, repetia a pergunta até para pés que já não eram nem mais ásperos, verdadeiras crostas a ignorar pedras e asfalto escaldantes. Tinha, inclusive, a sutileza de levar uma escova de dentes própria para a limpeza de sandálias de qualquer tipo. Apesar do desinteresse geral ele não se abateu, ofereceu graxa aos funcionários com seus pés ocultos pelo balcão. Como última tentativa, prostrou-se ao lado do guarda e seus coturnos surpreendentemente limpos. Deu azar, era segunda-feira, todo domingo à noite o guarda gastava quase uma hora lustrando os coturnos para começar a semana impecável.

Na expressão do engraxate não havia nenhum sinal de fracasso, sinal que já passara muitas situações semelhantes. Foi aí que eu lhe disse que ele escolhera a profissão errada ou com pouca possibilidade de futuro. Engraxar sapatos numa cidade de veraneio é uma ocupação no mínimo ingrata, a não ser que ele se posicionasse em portas de igrejas ou na entrada do fórum, locais mais prováveis para o encontro de pés calçados. Não sei se minha recomendação produziu algum tipo de reflexão na cabeça do engraxate, o que sei é que ele saiu com a mesma disposição que entrou. Seguiu seu caminho sob o sol de janeiro, caixa nas costas, dizendo a todos por quem passava “Vai graxa aí?”

Outro dia encontrei-o dentro de um ônibus da Costa Sul, indo pra Barra. Reconheceu-me e soltou a pergunta costumeira, mas eu estava de tênis. Sorriu. “Da próxima vez, quem sabe?” Sorri também e sorri mais ainda ao vê-lo todo feliz, engraxando com a escovinha de dentes a sandália de uma senhora. Não sei por que me veio à cabeça aquela frase governista – sou brasileiro, não desisto nunca!

Passaram-se outras e mais outras situações de encontro entre eu, o engraxate e meus pés sem sapatos. Ele sempre insistindo – “Vai graxa ai?” Certa noite, voltava de Piúma, na época em que dava aulas de inglês no CCAA. Estava extremamente cansado e o escurinho do ônibus da Planeta que vinha de Vitória caiu como uma luva. Reclinei bem a poltrona e me deixei levar pela estrada deserta rumo a Marataízes. Quando estava à beira de um cochilo, ouvi um burburinho no fundo do ônibus, olhei para trás e lá estava ele, sentado sobre sua caixa como se ela fosse um cavalo, locomovendo-se assim pelo corredor até chegar onde eu estava. Olhou para os meus pés e, de novo, o tênis. Sentou-se ao meu lado, trocamos algumas palavras, estava vindo de Vitória. O dia até que fora bom, ganhara um dinheirinho. Perguntei por que ele não ia pra Cachoeiro, quem sabe lá tivesse mais sorte do que em Marataízes, pelo menos teria muito mais sapatos por lá. “Não, Cachoeiro é muito quente, aqui pelo menos venta.”

Passei um bom tempo sem vê-lo, quase me esqueci do brasileiro que não desiste nunca. Era uma noite de sábado até que meio fria para os padrões capixabas, soprava um vento gelado. Parado no ponto próximo à curva da Barra, desanimado com o ônibus que nunca chegava, em manga de camisa e com os pés incomodados com os sapatos de couro, mal via a hora de voltar pra casa. Algumas pessoas passavam apressadas, pegas de surpresa pelo frio repentino. Foi aí que eu vi do outro lado da rua alguém fazendo sinal com as duas mãos, frenético, como se o mundo fosse acabar em poucos minutos. Era ele, o engraxate. Com olhos de águia vira os sapatos nos meus pés e se preparava para atravessar a rua no mesmo momento em que meu ônibus chegava. Tudo se passou muito rápido e de dentro do ônibus eu ainda o vi acenando um sinal característico de que na próxima eu consigo. Senti um nó na garganta, um remorso, bem que eu poderia ter deixado o ônibus passar e dar a ele o prazer da vitória.

Faz tempo que não o vejo e me pergunto: será que desistiu da profissão? Será que foi pra Cachoeiro? Ou será que continua por aí, incansável com sua caixa nas costas à procura de clientes? Incansável como mais um brasileiro...

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