Translate

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Meninos-soldados




Sempre imaginei que a melhor coisa que uma criança poderia carregar nas mãos seriam livros. Pena que um grande contingente delas, espalhado pelo mundo, carregue armas, isso sem falar nas drogas que é assunto talvez para uma outra crônica. Sim, para espanto de muita gente, crianças na faixa de dez a dezesseis anos, como esta da ilustração, fazem parte de vários exércitos e lutam em diferentes regiões do planeta, notadamente na África. Fiz essa ilustração a partir de uma foto que faz parte da matéria “Meninos-soldados”, da revista Super Interessante deste mês. Enquanto eu desenhava, meu filho e mais dois amigos brincavam de bola no quintal. Deram uma pausa para apreciar o desenho. Acharam “maneiro”. O que mais chamou a atenção deles foi o fuzil AK-47 nas mãos do menino-soldado. Discorreram sobre as características e curiosidades da arma, levados, talvez, pela naturalidade com que elas desfilam pelos games e telinha da TV. Disse a eles que eles tinham muita sorte de viverem uma situação bem diferente daquele menino da foto e expliquei de maneira bem simples o drama daquelas crianças. Eles ficaram penalizados, mas rapidamente voltaram à brincadeira. São crianças também, ainda incapazes de absorver toda a crueldade por trás da foto e, consequentemente, da ilustração. Não poderia ser diferente, dado à banalização da vida e da morte veiculada diariamente na mídia. Terão tempo ainda para compreender e se comover com esse drama que não está assim tão distante da nossa realidade. Crianças brasileiras que convivem com traficantes nas favelas do Rio de Janeiro e em outros pontos do Brasil já devem estar bem mais acostumadas com a presença das armas. Algumas até já andam com elas em punho cometendo seus primeiros delitos.

Segundo estimativa da ONG britânica Human Rights Watch, algo entre 200.000 e 300.000 crianças participam atualmente de guerras em 21 países em todo o mundo. Apenas na África lutam mais de 100.000 crianças, mas elas também podem ser encontradas no Nepal, nas guerrilhas maoístas ou na Colômbia, envolvidas em guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de direita. Em 2004 a Força de Defesa de Israel prendeu um suicida de 12 anos a caminho de uma missão e o Exército russo pôs rapazes de 14 anos para lutar na Chechênia. Não é difícil transformar crianças em máquinas de guerra. Guerras são confusas. Aldeias são invadidas repentinamente, há pânico, as pessoas fogem. Crianças se perdem de seus pais quase sempre, muitas assistem suas mortes. Quando o número de civis mortos é muito alto, isso é um indício de que há mais órfãos prontos para o recrutamento. Atualmente, civis representam cerca de 90% das vítimas, segundo a revista The Economist. Não se iludam, portanto, com as guerras criadas pelos norte-americanos que mais se parecem batalhas de videogames e com a tão propalada guerra cirúrgica onde mísseis caem a poucos metros de civis sem lhes causar danos. Na prática há cada vez mais crianças disponíveis para recrutamento.

Há outro motivo para haver tantas crianças envolvidas em combates armados. Conflitos internos, com o tempo, tendem a exterminar jovens e, graças ao parco controle de natalidade, crianças são muitas em países pobres, ao contrário de homens mais velhos. Crianças tendem a obedecer a adultos sem questioná-los com facilidade, não se preocupam, não têm mulheres ou filhos para quem voltar, por isso, são inconseqüentes em batalha, exatamente o que se busca em guerras civis sanguinárias onde exércitos regulares não lutam. Crianças órfãs ou que se perderam dos pais são bichos acuados. Quando integradas a um grupo armado, sentem-se protegidas. Além de comida, há um ambiente de camaradagem e fidelidade, uma nova família. Crianças envolvem-se emocionalmente. Em Serra Leoa, meninos eram contemplados com uma dieta de pólvora misturada com cocaína para animá-los ao combate e cigarros de maconha para esfriar depois. O tempo de entretenimento era gasto assistindo projeções de Rambo e filmes do gênero. As crianças gostavam de imitar o herói.

Felizmente o movimento internacional para terminar com a prática vem se fortalecendo. Em julho, o Tribunal Especial para Serra Leoa, ligado à ONU, considerou culpados três líderes militares. Foi a primeira vez que uma corte internacional condenou alguém pelo crime de recrutamento infantil. As penas ainda não anunciadas, devem ser de prisão perpétua. O julgamentos de Thomas Lubanga Dyilo, 46 anos, líder da União de Patriotas Congoleses, pelo Tribunal Criminal Internacional (ICC) – que está para começar - e o de Charles Taylor, ex-ditador da Libéria, são outros indícios de que há uma mudança de postura. Ainda este ano, o Congresso dos Estados Unidos deverá votar uma lei que proíbe o país de vender armas para nações que tenham crianças no campo de batalha.

Esta mudança de postura pode ter sido desencadeada por Ishmael Beah. Capturado pelo Exército de Serra Leoa aos 13 anos, Beah lutou até os 16. Seu livro Muito Longe de Casa, lançado neste ano, é o primeiro testemunho para o público geral de como é ser um menino-soldado. Por causa de sua capacidade de expressão, foi escolhido porta-voz das crianças levadas para a guerra. Falou à Assembléia Geral da ONU, a chefes de Estado, a grupos de diplomatas com condições de interferir. Deu visibilidade ao problema.

Nem sempre as crianças estão em batalha. É comum que sirvam para testar campos minados – ou para plantar minas. Também fazem o trabalho doméstico: cozinham, lavam, passam. Pior, prestam serviços sexuais, tanto meninos quanto meninas. Em lugares como o Afeganistão ou certas regiões da África é comum encontrar comandantes militares que iniciaram a carreira na infância. É tudo o que sabem fazer. Desde 1987, de acordo com números da ONU, 2 milhões de crianças morreram em guerras. O número não inclui, por exemplo, o período final da guerra entre Irã e Iraque, quando praticamente todos os soldados envolvidos eram adolescentes.

A readaptação de Ishmael Beah à sociedade durou 7 meses. Ele não sabia mais dormir numa cama e era dependente químico. A sua turma foi uma das primeiras de meninos-soldados com a qual o Unicef lidou. Hoje, aos 27 anos, ele vive no bairro do Village, em Nova York, na casa de Laura Simms, uma contadora de histórias que perdeu a família entre perseguições anti-semitas e o Holocausto. Os dois se conheceram porque Laura presta serviços para a ONU ajudando crianças a contar a história da vida delas para lidarem com traumas.

Talvez muitas pessoas não gostem de ouvir histórias como essas, talvez prefiram acreditar que crianças vivem num mundo cor-de-rosa quando sabemos que, mesmo que não estejam empunhando armas ou usando drogas, as crianças ainda estão muito longe da vida de contos de fadas.

Nenhum comentário: