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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O que o Zé Dirceu quer comigo?


Esta noite tive um sonho muito estranho e acordei com uma dúvida atroz. Sonhei que estava num tipo de encontro de homens engravatados, não sei se empresários políticos ou políticos empresários. Eu estava por ali, sem terno nem gravata, fazendo o quê, não sei. Por uma dessas coisas maravilhosas que só os sonhos são capazes de oferecer, me vi andando pelo pátio de um hotel com um dos engravatados ao meu lado, óculos escuros, falando baixinho ao meu ouvido, fora das salas fechadas talvez para fugir de escutas telefônicas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o engravatado agora meio que abraçado comigo, falando cada vez mais reservadamente, era ninguém mais, ninguém menos do que o Zé Dirceu! Daí, a dúvida: o que o Zé Dirceu quer comigo?

Mesmo antes de acordar já me perguntava no sonho, porque até os sonhos, por mais surrealistas que sejam, pedem um mínimo de coerência. Já nem ouvia direito o que ele dizia, completamente envolvido na tentativa de desvendar o mistério. Primeiro de tudo: não tenho dinheiro, condição básica para evitar qualquer aproximação do ex(bem ex!) guerrilheiro. Minhas cuecas nunca viram um centavo. Não ocupo nenhum cargo importante no governo, muito menos na iniciativa privada. Há muito tempo não faço mais saques em agências bancárias, as quantias são tão irrisórias que qualquer caixa eletrônico resolve. Não tenho nada a ver com laranja, me provoca acidez. Já trabalhei muito com agências de propaganda, mas nunca fui dono. Nunca freqüentei um bingo na vida, muito menos tive qualquer tipo de relacionamento com bingueiros, nunca os vi. Também nunca fui motorista nem carregador de malas. Meu convívio com advogados resume-se a um amigo que conhece tudo de leis, mas nunca estudou direito. Sou santista, não tenho portanto nada a ver com o Corinthians, com o Duailibi, com a MSI nem com mafiosos russos. Escrevi um livro chamado Cartas Marcadas e talvez o título tenha chamado a atenção dele, qualquer desconfiado de plantão sabe o quanto ele gosta de um jogo de cartas marcadas. Também não é por aí, o livro está longe, muito longe de ser um Best Seller. Será que ele viu meu nome no Maratimba e está achando que eu sou algum jornalista influente? Não, acho que não porque o conceito de influência dele está sempre ligado a dinheiro e mesmo que ele não reparasse, sua assessoria teria obrigação de ver logo abaixo dos meus humildes artigos que eles não são remunerados. Será que passando os olhos pelo site ele me confundiu com outro colunista? Pode ser, afinal, sou Paulo, mas não sou coelho e coelho rima com dinheiro. Sai, dúvida cruel!

Quando acordei, fui buscar a resposta em Freud – aquele velhinho austríaco que gostava de divans, não aquele outro, do PT, que andou envolvido com aquela dinheirama toda que foi usada para comprar um dossiê de campanha. Como dizia o velhinho austríaco, se você não acha a resposta no presente, volte ao passado. Aí eu voltei lá para os anos 1960 quando o Zé Dirceu era estudante e fazia discursos inflamados contra a ditadura militar. Voltei demais, fui um pouco mais para frente quando ele participou da luta armada sem pegar em uma arma sequer. Nada a ver porque na época eu era um menino alienado que morava em São Bernardo do Campo e vibrei como nunca com conquista do tricampeonato mundial de 1970. Avancei um pouco mais, ele já tinha sido exilado e vivido a segunda melhor experiência que um militante de esquerda poderia esperar da vida, morou em Cuba. A primeira seria se tivesse ido parar na ex-União Soviética e o nirvana se a luta armada tivesse vencido a ditadura militar sem ele disparar um único tiro. Avançando cada vez mais cheguei ao único período com alguma possibilidade de aproximação entre Zé Dirceu e eu: a época em que fui petista. Atire a primeira pedra quem nunca passou por isso! Acho que também não conta porque, primeiro, eu era estudante de jornalismo, em São Bernardo do Campo, berço do PT e do nosso atual presidente e, segundo, era a época em que o PT era reconhecido como um dos poucos, senão o único, partido ético na política brasileira, guardião da honra e da honestidade. Ressalte-se: era reconhecido pelos outros e não só por eles mesmos! Bem diferente de hoje quando um dos seus fundadores e ícone maior tem de ficar constantemente vomitando nas orelhas do povo que não existe presidente nem partido mais ético do que ele e o PT. Meu pai já dizia que a melhor forma de saber se uma pessoa é honesta é quando os outros dizem isso e não ela mesma.

Desisti de encontrar no passado qualquer resposta para a minha dúvida atroz. Já que não encontrei nem no presente nem no passado algum motivo para explicar o que diabos o Zé Dirceu está querendo comigo, vou avisando logo pra Polícia Federal, pra Receita Federal e pra tudo o mais que é Federal que eu moro de aluguel, não tenho carro, minha mulher nunca foi a uma agência bancária pagar a conta da televisão a cabo e voltou pra casa com cinqüenta mil reais na bolsa, me desfiz até do meu cachorrinho porque dava muita despesa, só vou à praia porque moro a menos de quinhentos metros dela, não em Búzios, mas na praia central de Marataízes que está há quarenta anos esperando por uma grande obra e todos torcem para que a construtora não seja a Gautama, ainda não transferi meu título de eleitor, vivo escrevendo umas coisinhas aqui no Maratimba e no meu blog sem ganhar nenhum tostão por isso, não tenho plano de saúde, não votei no Lula e não recebo Bolsa-Família. Ah! Também não tem nenhum gambá escondido debaixo da minha cama!

2 comentários:

Anônimo disse...

Ex-alienado, ex-petista, ex-morador do Abc... li a crônica e fui dormir preocupado. Mas ufa!, sonhei com a Pamela Anderson.

Marcus.

Silvia Fedorowicz disse...

Amei sua materia, e qt aos ex...bem como vc mesmo disse , quem não erra na vida?
Parabéns, por teu estilo leve e descontraido de falar tão bem do Nosso Presidente e aliados
oxiiiiiiiiii
Beijos