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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Se fingindo de morto

Foi na última segunda-feira, depois do feriado prolongado. Logo pela manhã, eu e meu filho saímos de casa e estávamos na esquina à espera do Imensidão Azul com o Barriga ao volante. Sabe como é criança, não fica quieta esperando, arrastava a mochila de rodinhas pra lá e pra cá, balançava a lancheira, chutava gravetos no chão, descobria entradas de formigueiros em meio ao calçamento... Num relance avistou o cachorro deitado, ou melhor, estirado no meio da rua, cercado pelos garis que suspenderam um pouco a labuta para confabular sobre o que se passava ali. Meu filho, mais que depressa, supôs que o cachorro estava morto, mesma conclusão, aliás, dos garis.

Confirmei a suspeita dele, baseado no que podia ouvir da conversa dos garis e na posição do cachorro, estirada demais para quem estava apenas dormindo. Meu filho quis logo saber o que seria feito dele, teria que ser retirado logo dali porque senão começaria a feder e também atrapalharia o trânsito. Disse a ele que os garis, como funcionários da prefeitura, deveriam providenciar a retirada do corpo. E, de fato, eles circundavam o cãozinho defunto numa espécie de conferência para saber que procedimentos tomar. Espichado na calçada, outro vira-lata acompanhava a discussão com olhar sonolento, pouco interessado no desfecho do caso. A cena se passava quase na esquina da avenida principal de Marataízes, o corpo do falecido prostrado bem no meio da rua que findava ali na avenida. Enquanto a confabulação dos profissionais da limpeza se desenrolava num clima de excessiva tranqüilidade, surgiu no outro extremo da rua um motoqueiro apressado pilotando sua moto em direção à avenida. Ao se aproximar do cadáver canino, acelerou a moto de tal maneira que o cachorro defunto deu um pulo inesperado e correu para a calçada.

- Ressuscitou! – falaram ao mesmo tempo meu filho e alguns garis.

Alheio ao espanto geral, o cachorrinho se acomodou ao lado do colega vira-lata e voltou a dormir como se nada tivesse acontecido, como se estivesse apenas se fingindo de morto.

Existe um ditado que diz: “estava se fingindo de morto só pra se aproveitar do coveiro.” Esse “se aproveitar” tem um leque muito grande, vai desde se aproveitar sexualmente do desprevenido coveiro em posição de desvantagem causada pelo seu ofício a bater-lhe a carteira, roubar-lhe a picareta, ou outra maldade qualquer.

Vivemos um momento propício a todos aqueles que desejam fingir-se de morto para levar vantagem de qualquer natureza. Quando alguém se finge de morto todos os que estão à sua volta baixam a guarda e facilitam a sua ressurreição e, então, ele volta mais fortalecido ainda. Vejam o caso do nosso digníssimo presidente do Senado. Após a saraivada de denúncias de quebra de decoro parlamentar e o carrossel de desculpas esfarrapadas proferidas sempre de forma truculenta, ficou quietinho, fingiu-se de morto até a votação da sua cassação pelo Conselho de Ética. Fingia-se de morto, mas não dormia inocentemente como o cãozinho maratimba. Sua primeira vitória foi a aprovação do voto secreto, arma usada com o intuito de proteger parlamentares mal intencionados por identificação com o réu ou por intimidação da parte dele. Seguros sobre o manto das trevas puderam votar tranquilamente, ou mesmo, não dar voto nenhum, o que significa dizer votar a favor do réu.

E assim ressuscitou Renan, mais forte do que nunca, e assim podem ressuscitar muitos outros que estão se fingindo de morto, aguardando julgamentos incertos e sentenças mais incertas ainda. O Brasil, porém, parece acordar de um curto sonho no qual imaginava estar começando uma nova era onde gambás suspeitos sentariam no banco dos réus. O Brasil acordou assustado, mas não com o simples ronco de uma moto.

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