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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Tem gambá no banco dos réus


Na crônica Um gambá pra chamar de seu, postada no último dia 22, comparei a expressão de um gambá pego em flagrante às de pessoas expostas na mídia como suspeitas dos mais variados delitos. A crônica foi escrita na semana em que começou o julgamento dos quarenta gambás do mensalão. Cheguei a profetizar que haveria muito gambá fugindo, não pelo telhado e sim pela porta da frente como cidadãos que nada devem à sociedade. Enganei-me, felizmente, pelo menos por enquanto.

Numa decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal colocou todos os quarenta gambás no banco dos réus. O STF levou apenas cinco dias, ou 36 horas, para julgar um processo com 11.200 páginas, 140 apensos, 41 testemunhas e quarenta réus defendidos por 29 advogados. Duas figuras destacaram-se durante esse incomum desempenho, a ministra Ellen Gracie, presidente do tribunal, e o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo. Ela comandou os trabalhos, limitando-se a votar sempre com a maioria, esteve atenta a todas as questões de ordem e manteve a formalidade. Ele foi implacável na denúncia do mensalão. Das 112 votações que o tribunal fez durante o julgamento o voto de Barbosa foi seguido pelos demais ministros em todas as ocasiões, em 96 delas por unanimidade. Com o processo criminal instalado, caberá ao Ministério Público recorrer às provas necessárias para as condenações.

Tudo resolvido? Gambazinhos enjaulados? Ainda não, e tudo pode acontecer daqui para frente. O Ministério Público terá um trabalho duro, pois o julgamento final não deve ocorrer antes de três anos, na melhor das hipóteses. Se isso ocorrer, os gambás deverão estar sendo julgados justamente quando um novo governo estiver tomando posse. Qual governo? Do PT, do PSDB, do PMDB, do DEM? Façam suas apostas!

Como sempre tem alguém querendo um gambá pra chamar de seu, o presidente Lula, no último dia do julgamento, fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito e ainda mandou um recado torto aos gambás que estarão sentadinhos no banco dos réus: - vocês não têm do que se envergonhar! Na última quinta-feira, 30 de agosto, os petistas fizeram um jantar em São Paulo em homenagem aos seus gambás-réus, dando assim, continuidade à estratégia de negação do mensalão, para eles uma ficção “dazelite” com o objetivo de desestabilizar o partido e o governo.

Quem será que não tem do que se envergonhar? Com certeza nenhum dos gambás-réus, muito menos seus protetores. Eu, pessoalmente, acredito que o ministro Joaquim Barbosa não só não tem do que se envergonhar como muito do que se orgulhar. Não só ele, todos nós, brasileiros, devemos nos orgulhar de tê-lo como ministro.

Apesar de sempre tentarem tapar o sol com a peneira, o Brasil é sim um país preconceituoso e seu povo julga sim as pessoas pela aparência. Basta lembrar do gambá que ilustrava a minha crônica do dia 22. Atire a primeira pedra quem não teve um sentimento negativo ao olhar para aquela foto. No entanto, ele não passava de um simples gambá, cumpridor dos seus instintos. Esta semana o ministro Joaquim Barbosa foi capa de algumas das maiores revistas do Brasil. Quantos de nós deve ter pensado “o que esse negão tá fazendo aí?” Sejamos sinceros, pelo menos lá no fundo do nosso inconsciente. Pois esse homem deve servir de exemplo pra muita gente. Primeiro dos oito filhos de um pedreiro e uma dona-de-casa da cidade de Paracatu, no interior de Minas, nunca ficou desabrigado ou passou fome, mas enfrentou dificuldades. Seu maior trauma foi ter perdido um ano de estudo quando era criança porque a diretora da escola pública que ele freqüentava resolveu cobrar mensalidade e a família não tinha como pagar. Para vencer as dificuldades o que ele mais fez foi estudar. E estudou muito. Fez direito e pós-graduação em Brasília, virou doutor pela Sorbonne, em Paris, foi professor visitante nas faculdades de direito da Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Fala fluentemente francês, inglês e alemão. Cumpriu toda essa trajetória numa época em que não havia cota para as minorias. Joaquim Barbosa não é militante da negritude, tem consciência racial, mas não faz disso uma causa. Apesar de ter votado em Lula, fez um trabalho impecável porque se convenceu de que uma quadrilha liderada pelo ex-ministro José Dirceu movimentara dezenas de milhões de reais para corromper parlamentares em troca de apoio político. Seu voto de 430 páginas, numa linguagem simples e objetiva, desnudou as tenebrosas conexões do esquema e o papel de cada comparsa.

Taí uma boa diferença entre gambás(no mal sentido) e homens(no bom sentido)!




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