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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Portal do gambá


Esta manhã duas surpresas me aguardavam ao despertar. A primeira, um torcicolo terrível que me obrigou a observar o mundo apenas pelo lado esquerdo, se quisesse mudar meu ponto de visão teria de virar o corpo todo e não só a cabeça. Como não havia solução em curto prazo, me conformei em voltar a ser de esquerda. Tomei café, fui até a farmácia e comprei um emplastro. Tomei banho e apliquei o emplastro no pescoço, logo abaixo da orelha.

Tinha acordado decidido a escrever alguma coisa, mas ainda não tinha a mínima idéia sobre o que falar. Vida de escritor é assim, existe sempre uma vontade latente de escrever mesmo quando não sabemos exatamente sobre o quê. A manhã estava muito bonita e o sol já radiante bem antes das oito horas. Acompanhado pelo meu torcicolo sentei-me numa sombra encostado ao muro do jardim e fiquei observando o vazio, à espera de algum sinal. Foi aí que surgiu a segunda surpresa.

Sobre o teto da casa de Antonio, meu vizinho, sua esposa soltou um grito de susto ao se deparar com um gambá. Antonio também estava em cima do telhado e quis saber onde ela o vira. As duas casas são separadas por um muro não muito alto e, ao ser descoberto, o gambá já havia se retirado do telhado, ganhado o muro e, dali, se deslocado para o meu quintal. Desceu calmamente um pequeno pé de laranja e, mais calmamente ainda, caminhou pela grama recém aparada, em direção ao pé de goiaba. Animado com o novo visitante eu me levantei com cuidado e tentei acompanhar seu trajeto que, felizmente, estava do lado esquerdo do meu corpo. Apesar dos apelos da mulher de Antonio, meu torcicolo fazia de mim um caçador nulo. Limitei-me, portanto a acompanhar o gambá na sua passada tranqüila de quem não deve nada à sociedade. Era um gambazinho nada jeitoso, magro, não muito grande, pelos eriçados espalhados aleatoriamente pelo corpo, rabo comprido e pelado. Subiu o pé de goiaba sem pressa alguma até alcançar o muro bem próximo ao portão de madeira do fundo da casa. Fui me aproximando da melhor maneira que o torcicolo permitia até perdê-lo de vista.

Encontrei-me com Antonio na rua dos fundos logo atrás do portão de madeira. Quase simultaneamente nos demos conta de que ele só poderia ter entrado por uma fresta na base de concreto do portão, logo abaixo daquele telhadinho tão comum nas casas de Marataízes. Deve ter feito ninho ali, deduzimos. Emprestei uma longa mangueira para Antonio que subiu no muro e enfiou a mangueira pelo lado oposto por onde o gambá tinha entrado. Ouvimos um grunhido nervoso. Cutucou mais um pouco e novos grunhidos. Ele estava ali, sem dúvida, onde já devia ter construído seu ninho. As pontas de folhas secas que apareciam nos orifícios do telhado eram a prova definitiva. A única certeza é que ele não sairia dali nem por reza brava. O que fazer agora?

Telefonei para a prefeitura, que me passou o telefone da secretaria de saúde, que me passou o telefone do Ibama, de Cachoeiro, que não resolveu nada. Em seguida liguei para o Batalhão da Polícia, na Barra, que informou ser necessário contatar a Polícia Florestal, mas, infelizmente, neste momento ela estava no Rio de Janeiro. Mesmo que estivesse aqui, provavelmente não enviaria nenhuma viatura pelo simples fato de que gambás já estão se proliferando em Marataízes e não é possível dar conta de todos os chamados. Um policial do batalhão se comprometeu a vir aqui pessoalmente pegar o gambá, só não sabe quando terá tempo. Meu vizinho Antonio conhece um veterinário que pode fazer esse serviço, também só não sabe quando. Minha preocupação é que não matem o pobre gambá porque eu sei que está cheio de gente que adora um gambazinho na panela.

Pelo andar da carruagem, acho que vou ganhar um hóspede. Tá vendo, quem mandou escrever tanto sobre gambás? Já estou até pensando em colocar um nome nele. Pensei em Renan, mas desisti, é muita maldade. Está mais do que provado que ele não é um gambá do mensalão, daqueles que podem vir a sentar no banco dos réus num futuro incerto. Também não vi nenhuma estrelinha nem cueca abarrotada de dólares enquanto ele caminhava tranqüilo pelo gramado. É apenas um gambá, cumpridor dos seus instintos. Pensei até em chamá-lo Demóstenes; melhor não, corre o risco de aparecer algum espião tentando seguir os passos de Demóstenes para depois fazer as mais vis chantagens.
Melhor mesmo é deixar o gambá lá no seu portal enquanto não arrumamos uma saída ecologicamente correta para seu despejo. Se alguém tiver outra sugestão, favor comunique
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