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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Alice no país do leite Longa-Morte


Alice era uma menina muito viva, cheia de imaginação. Vivia num país tão tão distante que nem adianta tentar explicar onde fica. Certo dia ela sentia-se assim pouco criativa, com um pequeno déficit de imaginação. Foi até a cozinha e abriu uma caixinha de leite longa-morte – ela adorava o leite longa-morte! Rapidamente, a concentração de água oxigenada com soda cáustica e xixi de vaca a reanimaram e deram um grande impulso em seus neurônios até ali meio cansadinhos. Ainda bem que vivia num país onde facilmente se encontra uma caixinha de leite longa morte, às vezes até sem querer.

Sentiu vontade de assistir um filme 10, daqueles bem arrasa quarteirão. A fita da hora era aquela que antes de estrear já era best-seller pirata. Apesar da pouca idade, Alice mantinha um forte relacionamento com o ministro da justiça daquele país, de quem recebeu um DVD pirata com uma bonita dedicatória. Num primeiro momento sentiu-se constrangida, mas após ouvir a declaração do ministro da cultura, também daquele país, de que a pirataria é uma manifestação da vontade popular, venceu a relutância o colocou o devê pirata pra rodar.

Qual não foi a sua surpresa ao ver surgir na tela não a figura do capitão de polícia a espancar e torturar traficantes e sim as imagens do ministro da defesa daquele país em trajes de camuflagem carregando pra lá e pra cá macacos e sucuris, ou então, em traje de bombeiro vistoriando obras suspeitas em aeroportos mais suspeitos ainda. Alice, é claro, não gostou nada do que viu e deixou até escapar um desabafo: “nem em fita pirata se pode mais confiar neste país!”.

Bola pra frente. Tomou mais um gole do longa-morte e adiantou a fita. Caiu bem na parte em que o presidente daquele país dava mais um passeio de avião, carregando na bagagem várias garrafinhas, a principal delas contendo etanol, um combustível natural fabricado a partir da cana-de-açúcar bastante abundante naquele país. Alice não ia muito com a fachada do histórico presidente, apesar de sentir-se comovida com o fato de ele, tempos atrás, ter perdido nove dedos das mãos e conseguir governar aquele país com apenas um, justamente o mindinho! Deficiências à parte, ela avançou mais ainda, em busca da saga de policiais da elite, na luta inglória contra traficantes favelados, bancados por viciados das elites daquele país. Ainda não foi dessa vez, resvalou em cenas deprimentes de um ex-presidente do Senado daquele país tentando de todas as maneiras escapar da cassação do seu mandato depois de ter se envolvido com uma jornalista até ali vestida, mas que depois tirou a roupa pra vender bastante revista lá dentro mesmo do Senado. Achou um saco aquele assunto de político envolvido com lobistas de construtoras, fábricas de cerveja e laranjas que não davam em árvores. Por isso, avançou mais o devê pirata.

Parou um pouquinho pra ouvir o prefeito do balneário mais famoso daquele país dizer que as favelas, construções bem características do balneário, eram fábricas de marginais porque a população dali tinha o hábito atrasado e próprio dos mais pobres de fazer muitos filhos que se tornariam futuros marginais. A melhor solução para acabar com isso, portanto, seria legalizar o aborto. Não teve paciência, porém, para ouvir suas explicações de que não era bem aquilo que ele queria dizer, tal a vontade que estava de chegar logo no filme mais badalado daquele país. Dois avanços seguidos e parece que finalmente chegou lá ao ver a cena de um famoso com nome de super-herói verde sendo atacado por bandidos que levaram seu Rolex para a alegria de milhares de habitantes daquele país, defensores da lógica de que todo rico e famoso deve ser assaltado e ficar quietinho. Um caldeirão, pensou ela e, rapidamente, avançou mais um pouco.

Já quase sem ânimo de tentar encontrar o filme famoso no que ainda restava do devê pirata, tomou mais um gole do leite longa-morte e fez sua última tentativa. Apertou a tecla de avanço rápido e viu passar como um raio na telinha uma sucessão de cenas deprimentes das mazelas sem-fim daquele país até soltá-la num ponto aleatório, justamente aquele onde a nação em peso comemorava a escolha daquele país para sede, em 2014, do mundial de futebol - um esporte bastante querido naquele país, também conhecido como outra alternativa para frear a fábrica de marginais porque pega uma parte da prole gerada dentro das favelas e exporta para outros países onde ficarão milionários e evitarão retornar àquele país justamente para não serem assaltados pela outra parte da prole que não tinha tanta habilidade nos pés quanto eles.

Desanimada, Alice tomou o último gole do leite longa-morte e ouviu o último click do devê pirata anunciando que tropa nenhuma, de elite nenhuma desfilaria mais por ali. Jogou a caixinha longa-morte no cesto de lixo marcado como seletivo e reciclado, mas que na verdade vai mesmo é para um aterro sanitário, pensou um pouco e decidiu ligar para o ministro da justiça daquele país e pedir um outro devê pirata. Desta vez sem mico, por favor!

Um comentário:

gabriela disse...

adorei o texto quanto ao super herói verde
foi a polemica mais tosca do mundo
ele se sentiu violentado?
imagina a violencia da infancia do "marginal" que o roubou...