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sábado, 24 de novembro de 2007

Estou quase lá!

Escrever um romance em trinta dias pode ou não ser uma tarefa fácil. Jack Kerouac, autor de "On the road" – a bíblia da geração beat – espalhou, quando do seu lançamento em 1957, que havia escrito o livro em apenas três semanas. Entrevistado no programa de Steve Allen, um dos talk-shows mais famosos da TV americana, ele garantiu que havia passado “sete anos na estrada” e levara apenas “três semana para escrever tudo”. O apresentador rebateu afirmando que, se por acaso passasse três semanas na estrada, precisaria de sete anos para escrever o livro.
A versão original de "On the road" de fato havia sido escrita entre 9 e 27 de abril de 1951 num rolo de papel para telex, num total de quarenta metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafo, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzadrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de “febre onívora de observação”. Este é um dos muitos mitos que envolvem o livro.
Mário de Andrade conta que escreveu "Macunaíma" em apenas seis dias, deitado, bem à maneira de seu herói, numa rede na chácara de Sapucaia, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, durante umas férias. Diz ainda: “Gastei muito pouca invenção neste poema fácil de escrever(...) Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro”.
Esses dois exemplos, entretanto, são exceções à regra, o que significa dizer que escrever um romance pode ser um longo e, muitas vezes penoso, trabalho de pesquisa, recheado de anotações e páginas e mais páginas de textos escritos, mas não aproveitados na edição final.
Scott Fitzgerald, escritor americano autor, entre outros de "O grande Gatsby", morreu subitamente, vitimado por um ataque cardíaco, em 21 de dezembro de 1940, um dia após escrever o primeiro episódio do sexto capítulo de "O último magnata". O livro publicado após sua morte era um rascunho feito pelo autor, após consideráveis revisões, não se configurando de modo algum como uma versão final. Uma das edições, com prefácio e edição de Edmund Wilson, foi lançada pela L&PM Pocket em 2006. Era composta pelos seis capítulos escritos ainda como rascunho por Fitzgerald e complementada por notas diversas deixadas pelo autor. Ler este livro é um exercício interessante para que se possa compreender todo o processo anterior à publicação de uma obra literária.
Escrever um livro em tão curto espaço de tempo é algo improvável para a grande maioria dos escritores, sejam eles conhecidos, desconhecidos, talentosos, obscuros, criativos, formais, de vanguarda ou clássicos. Agora, escrever 50.000 palavras em um mês não é improvável, tanto que já estou quase lá, passei a barreira das 45.000. Como restam ainda seis dias para acabar o mês posso dizer que já estou quase lá e não tenho dúvidas de que vencerei o desafio. Depois é continuar trabalhando o texto para poder dizer que daí está saindo um novo livro, quem sabe, meu segundo livro a ser publicado, Ninho de cobras.

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