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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O PAC da Copa


O domingo do dia 25 de novembro tinha tudo para ser um domingo de festa. O Esporte Clube Bahia, uma das maiores torcidas do Nordeste, tinha finalmente a chance de subir para a segunda divisão. Precisava apenas de um empate contra o Vila Nova de Goiás e o jogo era em Salvador. Não precisa nem dizer que os baianos lotaram o arcaico estádio da Fonte Nova para empurrar seu time e subir junto com ele para o segundo escalão da elite do futebol brasileiro. O Bahia subiu, mas 12 torcedores caíram. Caíram sem que árbitros, jogadores, jornalistas e nem sequer a maior parte da torcida percebessem. Caíram de uma altura de 25 metros por causa de um buraco de 4 metros de comprimento por 70 centímetros de largura que se abriu no anel superior do estádio. O Bahia subiu e, ao final do jogo, torcedores invadiram o campo para comemorar sem nada saber da tragédia que meia hora depois seria anunciada. Depois disso, a festa transformou-se em luto. Dos doze que caíram, seis morreram na hora, um não resistiu aos ferimentos e sucumbiu enquanto era atendido e cinco escaparam milagrosamente.

O que aconteceu afinal? Infelizmente mais um descaso na história desse país que será sede da Copa do Mundo de Futebol, lá adiante, em 2014. O Estádio da Fonte Nova, como tantos outros espalhados por esse país, estava em petição de miséria. A medição de sua estrutura é vergonhosa. Entre 2002 e 2003, medições feitas com sismógrafos descobriram que quando a torcida pulava, abalava o concreto das arquibancadas. O público passou a ser limitado a 60.000 pessoas, pouco mais da metade da capacidade original. Isso não bastava, para garantir a segurança dos torcedores era preciso gastar 50.000 reais por mês na manutenção estrutural da “Fonte Velha”. O Estádio pertence ao governo estadual, daí começa a ficar mais fácil entender os porquês do buraco fatal. Em 2006, por exemplo, o governo gastou apenas 10% desse valor. No começo deste ano, a Fonte Velha estava tão deteriorada que o governo interditou 75% dos lugares, porque pedaços de cimento da arquibancada superior caíam sobre os torcedores das cadeiras inferiores. Toda a armação de concreto precisava ser reparada, mas foram feitos somente uns remendos, algo parecido assim com o “tapa-buraco” das nossas estradas. Uma mão de tinta depois, o estádio foi inteiramente liberado. O governo baiano não tomou nenhuma providência, pois não queria interditar o estádio para não prejudicar a campanha do Bahia e irritar seus torcedores. Jaques Wagner, governador da Bahia, simplesmente não sabia o que fazer com o estádio. Salvador é candidata a ser uma das sedes da Copa de 2014 e precisa ter um estádio decente para ser confirmada. Na cruel dúvida entre implodi-lo e construir um novo em seu lugar ou apenas reformá-lo e erguer um campo novo para a Copa em uma área afastada, o governador nada fez até o momento em que a arquibancada ruiu.

Vejam só a que ponto chegamos na história desse país: a tragédia pode até ter sido um alívio para a grande dúvida do governador. Agora ficou fácil, é só demolir aquele trambolho e construir um novo com todas as modernidades impostas pela FIFA. Sem punição nenhuma para os responsáveis pelo descaso; aliás, demolir parece que virou moda. No Pará uma moça menor foi presa numa cela repleta de homens e depois de ser estuprada a bel prazer pelos marmanjos até o momento em que saiu na imprensa, a única decisão concreta até agora foi a de demolir a cadeia. Simples, não é? Ao invés de punir os culpados, demole-se as construções. Um PAC ao inverso, ou, se preferirem, um PAD, Plano de Aceleração da Demolição.

Enganam-se os que pensam que esse tipo de tragédia é exclusividade dos baianos. Além da Fonte Nova, o Sinaenco – Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva avaliou a situação de outros 26 estádios situados nas capitais candidatas a sediar jogos da Copa. Nenhum deles coloca os torcedores em risco, mas a maior parte precisa ser reformada para que possa ser usada em 2014, mesmo que seja só para treinos das seleções. Vejamos a situação de apenas três. O Serra Dourada, em Goiânia, inaugurado em 1975 e com capacidade para 50.000 torcedores apresenta seis pilares e vigas de sustentação com muitos pontos de corrosão e diversas áreas da estrutura de concreto danificadas por infiltrações. Já o Mineirão, em Belo Horizonte, inaugurado em 1965, com capacidade para 75.000 pessoas, apresenta pontos de corrosão em fase inicial na estrutura do anel superior e também sofre com infiltrações. Quanto ao Morumbi, em São Paulo, inaugurado em 1960, com capacidade para 73.000 pessoas, embora bem conservado, também apresenta corrosão na laje superior do anel superior, com exposição do aço do concreto armado que sustenta as arquibancadas.

Nada disso, no entanto, deve ser problema porque, embora o presidente da CBF esteja garantindo que não será usado dinheiro público para reformas e construção de estádios, podemos prever o lançamento de um PAC para a Copa. Assim, chegaremos em 2014 com estádios confortáveis, seguros e modernos nas cidades onde serão disputados os jogos enquanto que no resto do país os torcedores terão que conviver com a incerteza se devem ou não pular para comemorar um gol sem correr o risco de o estádio desmoronar.

O PAC da Copa tem tudo para dar certo, o que nos faz pensar como seria bom também ter um PAC para os hospitais públicos, para as escolas e até para os esgotos. Sim, porque no dia em que saiu a notícia de que o Brasil ingressara no pelotão dos países desenvolvidos e, segundo o nosso presidente, virara um país “chique”, saiu também a notícia de que todos os brasileiros terão esgoto só daqui a 115 anos. É fácil entender por que, aconselho até a leitura da crônica “Vala negra, mãe gentil”, de André Petry, na revista VEJA desta semana. Como ele diz, “as vítimas preferenciais da falta de esgoto são mulheres grávidas e crianças de 1 a 6 anos. Mulheres não comandam o voto em casa. Crianças não votam. Esgoto é obra que, correndo por baixo da terra, não se vê. Político não gosta de obra invisível que atende gente que não vota. A faixa etária mais atendida por esgoto no país é a que vai dos 50 aos 54 anos. Eleitores em plena forma. A menos atendida é a de zero a 4 anos. Eleitores longínquos”.

Só para finalizar, existe um outro PAC que também vem fazendo muito sucesso. O Plano para Ajeitar um Companheiro, o famoso trem da alegria de cargos de confiança e empregos afins no serviço público.

“¿Por qué no te callas?”

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