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domingo, 16 de dezembro de 2007

O velho mundo novo


Você já parou pra pensar como era o mundo há quarenta anos? Com onze anos, eu jamais imaginava como seria o mundo dali a quarenta; aliás, um dos grandes enigmas era justamente a chegada do ano 2000. Parecia coisa de ficção científica e era muito pra minha cabeça me imaginar lá.

Em 1967, o mundo estava dividido entre capitalistas e socialistas, em plena Guerra Fria. A China era uma das mais atrasadas e fechadas economias do mundo. O homem ainda se preparava para pisar pela primeira vez na Lua. Ao chegar lá, dois anos depois, a Apolo 11 tinha a capacidade de armazenamento de informações equivalente a um chip hoje usado em cartões de crédito. As cartas manuscritas ainda eram um meio de expressão importante, os empregos podiam ser vitalícios, o chefe sempre mandava e do funcionário esperava-se apenas obediência e fidelidade. Havia o Terceiro Mundo, um bloco marginal no qual estávamos incluídos, a porcentagem de pobres no planeta ultrapassava 60% da população e a expectativa de vida era de 56 anos. A Índia era só um país exótico, com seus gurus e uma espiritualidade que começava a encantar o Ocidente. A internet – pasmem! – ainda não existia.

Nesses 40 anos a população mundial duplicou e a maior parte dela migrou para super cidades, algumas delas mais poderosas e influentes que países. A internet, hoje, é a grande praça de encontro. O avanço da ciência aumentou a expectativa de vida e hoje lidamos com o desafio de viver numa sociedade de idosos. O socialismo evaporou-se e o gigante adormecido chinês – com seu 1,3 bilhão de habitantes – despontou como candidato à potência do futuro graças, veja só, ao apogeu do capitalismo. A exótica Índia tornou-se uma espécie de éden da tecnologia da informação. O Terceiro Mundo virou uma expressão em desuso. No mundo de 2007, só se fala nos emergentes que ajudam a segurar as finanças mundiais num momento em que os Estados Unidos – ainda a maior potência do planeta – balançam. O PIB global saiu de 2 trilhões de dólares em 1967 para quase 50 trilhões no ano passado. Nunca fomos tão ricos.

Tudo isso não significa um mundo mais estável, ao contrário. Os ganhos materiais não parecem ter reduzido o grau de incerteza reinante. Das muitas crises financeiras que assolaram a economia na última década às dúvidas quanto à capacidade de sustentar de forma ambientalmente responsável o crescimento, vê-se que vivemos num planeta mais rico, sim, mas extremamente turbulento e desafiador. Educamos nossas crianças para empregos que ainda não existem. Muitos de nós trabalhamos em funções que desaparecerão. Buscamos mercados que não conhecemos. O sucesso depende, cada vez mais, de nossa capacidade de criar ou inovar.

Bom, todas essas informações fazem parte da edição especial de aniversário da revista EXAME, a qual pretende mostrar como o mundo realmente funciona. Sentado no quintal da minha casa, em Marataízes, apreciando o canto e a confusão de vários pássaros e contemplando o meu abacateiro tão carregado de pequenos frutos, tento também entender esse novo mundo. Como compreender o momento atual da humanidade? O que os primeiros momentos do novo milênio indicam sobre os caminhos à frente? Como, afinal, o mundo de hoje realmente funciona? São essas questões desafiantes que a revista tenta responder. Se consegue ou não, você está convidado a descobrir lendo-a no papel ou pela internet.

O que me interessa mesmo saber é o que tudo isso mudou em nós, seres humanos. Como não posso responder pelos mais de seis bilhões dessa espécie que se aglomeram sobre um planeta ameaçado por eles próprios, procuro tentar entender o que tudo isso mudou em mim. É justamente aí que as surpresas e as contradições marcam encontro.

Estou literalmente a alguns passos do mundo dos meus doze onze anos e desse apresentado logo acima. Depois de muitos anos voltei a morar numa casa que tem um jardim, um jardim que tem plantas, árvores, flores, pássaros, insetos, vez em quando um gambá pra chamar de meu. Isso, depois do ano 2000, justamente aquele que eu achava inalcançável e que seria povoado por seres futuristas, vestindo trajes com design espacial, talvez pilotando carros que voam e morando em torres fantásticas, bem próximas do céu. Delírios de um menino de onze anos, mas não só dele, a própria humanidade da época com seus visionários imaginava algo parecido. No entanto, apesar de todos os avanços da ciência e da tecnologia, o homem pouco mudou, continua sofrendo as mesmas angústias, praticando os mesmos atos lícitos ou ilícitos, tendo a mesma sede de poder e a ganância pelo dinheiro, como também, as mesmas preocupações humanitárias, a mesma vontade de ajudar o próximo, as mesmas dúvidas existenciais, as mesmas preocupações humanas, demasiadamente humanas. Normas sociais de comportamento e de relacionamento mudaram sim, e muito, mas na essência o ser humano continua o mesmo – o pobre ser racional perseguido por dúvidas e incertezas, sem ter ainda definido seu verdadeiro papel no universo e a sua real grandeza, se é inferior, igual ou maior que Deus – seja qual for esse Deus. A única verdade continua após milênios: somos o único animal que tem certeza da própria morte.

Quando digo que estou a alguns passos desse mundo novo, quero dizer que é só deixar o jardim e caminhar até o quarto onde fiz meu escritório e onde se encontra a máquina mágica que me conecta a esse mundo. Com os dedos no teclado, os fones nos ouvidos, os olhos no monitor e os lábios próximos ao microfone, estou integrado a esse admirável mundo novo que nem sequer Aldous Huxley havia sonhado. Mundo novo que nada mais é do que nosso velho e conhecido mundo, cada vez mais difícil de ser interpretado e compreendido, isso por que ele é feito por pessoas e não por bugigangas high tech que entram no mercado em ritmo cada vez mais acelerado. Conhece-te a ti mesmo foi a frase-chave dita por um filósofo grego a mais ou menos trezentos anos antes de Cristo e não por um craque de futebol que jogou no Corinthians, era médico e gostava de uma cervejinha.

Esta é a minha grande busca, conhecer a mim mesmo. Tenho tido avanços, justamente quando achava que eram retrocessos. Sair de São Paulo, a décima quarta cidade mais influente do mundo e vir parar em Marataízes, uma cidade pequena e desconhecida parecia o fim. Pois o fim se tornou o começo. Hoje estou muito mais seguro do que desejo na vida e perfeitamente ambientado com o meu pé de abacate e com a influência das novas tecnologias sobre o futuro da humanidade.

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