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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vôos e quedas

Alberto Santos Dumont, o pai da aviação, foi um dos brasileiros mais ilustres da história universal. Qualquer criança hoje sabe que ele se consagrou ao pilotar pelos céus de Paris, no começo do século passado, o seu 14 Bis e, mais tarde, o Demoiselle. Também é do conhecimento geral que ele se matou, mas o que poucos sabem é que ele tirou a própria vida aos 59 anos num banheiro de hotel no litoral paulista em 1932. Se for perguntado a qualquer criança ou adulto qual o motivo que o levou à atitude extrema, quase todos dirão que ela foi motivada pela angústia do inventor ao ver o uso militar do avião nas guerras daquele período. Você já parou pra pensar na simplicidade desta versão? Muito provavelmente não, eu também nunca pensei de maneira mais aprofundada no assunto. Na era das informações supersônicas está cada vez mais difícil aprofundar-se em seja lá o que for que ocupe a mídia.

Pois bem, o que quase ninguém sabe é que a morte deste ilustre brasileiro foi o último ato de uma doença controversa que o acompanhou durante 22 anos. Entre 1910 e 1932 ele internou-se em clínicas de repouso européias, procurou os principais psiquiatras do Brasil, tomou calmantes, apelou para massagens terapêuticas e até banhos medicinais para tentar, sem sucesso, livrar-se do mal que o perseguia.

Mas por que estou falando disso agora, quase às vésperas de mais um ano novo? O assunto não brotou ao acaso na minha mente, foi provocado por uma matéria publicada na revista Veja desta semana. Segundo a matéria, Santos Dumont padeceu de uma doença psíquica mal conhecida pela medicina da época. Pois é, Freud não explicava tudo! Alguns biógrafos dizem tratar-se de neurastenia, outros de esclerose múltipla ou depressão profunda. A revista teve acesso a documentos relativos à doença de Santos Dumont e os submeteu a seis médicos da Academia Nacional de Medicina, da Federação Brasileira de Psicanálise e da Associação Brasileira de Psiquiatria. Para os especialistas consultados, o que levou o inventor à morte foi o transtorno bipolar, hoje diagnosticável e tratável com medicamentos. Devido á doença, Santos Dumont alternava momentos de depressão com outros de euforia. “Ele buscou tratamento em diversas ocasiões, o que não é comum em pessoas depressivas, que tendem a justificar os sintomas como produto de causas externas”, diz um de seus biógrafos.

Hoje, doenças desse tipo são bastante comuns e já não causam mais surpresas, a ponto de muitas pessoas acreditarem que são doenças dos tempos modernos. Se Santos Dumont vivesse hoje, com toda a fortuna que tinha e com o estágio atual da medicina, seu problema seria facilmente resolvido com medicamentos modernos. Certo? Em termos... A vida é cheia de paradoxos e vamos encontrar um deles a apenas algumas páginas antes da matéria do Pai da Aviação.

Ryan Gracie, um brasileiro não tão famoso quanto Santos Dumont, lutador de jiu-jitsu e vale-tudo, morreu aos 33 anos, na manhã de sábado 15, numa delegacia de São Paulo. Ele havia sido preso na tarde anterior pelo roubo de um carro e pela tentativa de roubo de uma motocicleta. Sob efeito de cocaína, maconha e tranqüilizante, ao ser detido, ele estava muito agitado e apresentando delírios persecutórios. Por volta das 2 horas da madrugada, o médico chamado pela família começou a administrar a Ryan um coquetel composto de dois antipsicóticos, um tranqüilizante, um anticonvulsivante e um antialérgico. Ás 8 horas Ryan estava morto. Segundo a farmacêutica especialista em interações medicamentosas entrevistada pela revista, todos os remédios prescritos a Ryan reduzem, direta ou indiretamente, a atividade cerebral. A combinação entre eles potencializa os efeitos depressores do sistema nervoso central, o que pode levar a um quadro de parada cardiorrespiratória. A cocaína e a maconha reforçam a ação dos medicamentos, ou seja, baixam ainda mais a atividade do sistema nervoso central, o que pode levar o organismo ao colapso cardiorrespiratório. Negligência médica? Bastante provável, tanto que o médico devolveu à família os 5.000 reais cobrados pelo atendimento de emergência.

Santos Dumont lutou durante 22 anos contra uma doença ainda pouca conhecida pela medicina da época. Sem acesso a medicamentos eficazes no combate à doença, acabou entregando os pontos e cometendo suicídio aos 59 anos. Aos 33, ao que tudo indica, Ryan Gracie “foi suicidado” justamente pelo excesso de medicamentos.

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