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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Bonezinho Vermelho

Bonezinho Vermelho ganhou este apelido por causa da sua predileção pela cor vermelha e pela verdadeira adoração que sempre teve por bonés. O gosto pela cor vermelha não surgiu na infância tampouco se manifestou na adolescência, foi adquirido um bom tempo depois que ele chegou naquela parte da grande floresta. Nunca foi de levar doces para a vovozinha, aliás, pouco se sabe a respeito dessa senhora. Logo que chegou na floresta, Bonezinho Vermelho tratou de arrumar um emprego, qualquer que fosse, pois estudara pouco e não tinha qualificação suficiente para escolher trabalho. Fez de tudo até encontrar um emprego promissor numa grande empresa localizada numa região famosa por concentrar quase que todas as montadoras de carroças da grande floresta. Naquela época ninguém ainda o conhecia como Bonezinho Vermelho, o que só veio a acontecer alguns anos mais tarde quando ele, para a sua própria surpresa, chegou à presidência do maior sindicato daquela região, justamente quando começaram a estourar várias greves de trabalhadores. O sistema de governo da grande floresta era controlado pela Polícia Florestal que havia assumido o controle graças a uma revolução acontecida há 15 anos, exatamente no dia 1º. de abril, mas que foi alterado para 31 de março para não cair no dia da mentira.

Rapidamente Bonezinho Vermelho foi alçado à categoria de líder da massa trabalhadora daquela grande floresta. Ocorre que a Polícia Florestal, com toda a sutileza característica desse período, mandou baixar o cacete nos trabalhadores enquanto mantinha os olhos bem abertos para os líderes do movimento. O governo policial dividia a sociedade florestal em dois grupos: os que eram a favor do governo e os que eram contra. Naquele tempo costumava-se chamar de direita os que eram partidários do governo e de esquerda os que lhe eram contrários. Influências externas determinaram que os esquerdistas adotassem o vermelho como símbolo das suas lutas, os bonés vieram logo em seguida. Para mostrar que não estava de brincadeira, a Polícia Florestal prendeu Bonezinho Vermelho e acabou com aquele negócio de greve que já estava virando moda.

A estréia movimentada na política florestal deu um novo ânimo na vida de Bonezinho que, juntamente com outros companheiros, fundou um novo partido no ano seguinte. Deu sorte, pois cinco anos mais tarde caía o regime policialesco florestal e começava a fase de abertura política na grande floresta, com direito até a uma nova constituição e novos partidos políticos que surgiram às pencas. Nenhum deles, entretanto, conseguiu segurar a ascensão do partido dos bonezinhos vermelhos que se auto-intitulavam os verdadeiros representantes da massa trabalhadora e guardiões da ética e da moral. Durante um bom tempo aporrinharam todos os partidos oficiais com a sua oposição à flor da pele. Bonezinho Vermelho já era conhecido e reconhecido nacionalmente como o maior representante do povo oprimido da grande floresta, havia feito algumas incursões pela política, fora dos sindicatos e, portanto, sentia-se preparado a alçar vôos maiores.

Começou então uma série de tentativas para conquistar a presidência da grande floresta. E como tentou! Primeiro contra um mauricinho aloprado surgido do nada, caçador de marajás e praticante de esportes radicais. Sua campanha foi bastante agressiva, destacando-se sua voz rouca e irada, atirando farpas contra todas as elites que esmagavam o povo com suas políticas de arrochos salariais e de combate ao dragão inflacionário. Apesar de bem recebido pela população mais carente da grande floresta, o discurso de Bonezinho Vermelho aliado à sua imagem agressiva não colou na classe média e nas elites florestais que preferiram levar seus votos para o engomadinho das gravatas famosas. Bonezinho voltou para a oposição enquanto que o mauricinho aloprado logo no início do governo confiscou a poupança de milhões de florestarianos na tentativa insana de domar o terrível dragão inflacionário. Não chegou a terminar o mandato, envolto numa onda de corrupção, delatada pelo próprio irmão ciumento. Assumiu seu vice, o sempre indeciso topetão mineiro, cuja medida mais ousada foi trazer um sociólogo para ministro da fazenda, o mesmo que havia perdido uma eleição por não confirmar que acreditava em Deus. Antes à toa do que ateu, pensavam os florestarianos. E não é que o sociólogo conseguiu cortar a cabeça do dragão inflacionário com um só golpe e acabar com esse flagelo que castigava a grande floresta há várias décadas? O feito foi tão grande que ele se candidatou a presidente, para azar do Bonezinho Vermelho que já se preparava para nova tentativa de chegar ao poder. O sociólogo, amparado pelo grande feito, precisou apenas do seu sorriso europeu para derrotar o pobre Bonezinho Vermelho que ainda insistia em se agarrar à suas origens esquerdistas, bradando contra tudo e contra todos que não cheirassem a povo. Voltou novamente para a oposição e junto com seu partido tentou fazer de tudo para negar o grande feito do sociólogo que, indiferente aos nhen-nhen-nenhens oposicionistas, abriu a grande floresta para o mundo, privatizou mastodontes que há anos mamavam nas tetas governamentais, sempre com seu sorriso neoliberal estampado no rosto em contraste com a cara enfezada de Bonezinho Vermelho.

A saga do sociólogo durou quase uma década já que foi reeleito ao derrotar novamente o justiceiro enfezado Bonezinho Vermelho que não conseguia transformar em votos o carisma que mantinha sobre a massa florestariana. O sociólogo não conseguiu manter o mesmo brilho em seu segundo governo, a única coisa que ainda lhe dava sustentação era a façanha de ter derrotado o dragão inflacionário e não ter permitido que ele retornasse mais esfomeado do que nunca.

O longo período de tentativas de Bonezinho Vermelho deu-lhe a experiência necessária para transformar-se em uma metamorfose ambulante, a ponto de esquecer seu passado político e lançar-se como o Bonezinho Paz e Amor e assim, finalmente, realizar o sonho da sua vida: ser o presidente da Grande Floresta. Macaco velho, manteve a política econômica vitoriosa do sociólogo e criou uma série de programas tipo “dou o peixe, mas não ensino a pescar” para as classes menos abastadas e politizadas da grande floresta. Entrou para a história. Apesar do festival de escândalos de corrupção praticados por membros daquele seu partido que levantava a bandeira da ética, da moral e da justiça, conseguiu não só manter-se no poder como também ser reeleito. A estratégia para sair imune do lamaçal era bem simples – não sei, não vi, não fiquei sabendo...
Quem olhar para ele hoje pouca lembrança terá de sua origem política e dos vários anos em que encarnou o Bonezinho Vermelho, raivoso e rabugento. Da mesma forma, quem olhar mais atentamente para seu partido depois de quase uma década no poder terá apenas uma vaga lembrança das bandeiras que eles levantavam. Hoje, os bonezinhos vermelhos buscam se agarrar ao poder a todo custo, tentando inclusive inventar um terceiro mandato para seu grande líder que conseguiu sobreviver independente deles com sua política inovadora da conciliação e do agrado político, política esta que transforma inimigos do passado em companheiros do presente. Bonezinho Vermelho não quer mais saber de brigas e desavenças políticas, isso é coisa do passado, o que conta hoje é a conciliação e, em nome dela, tudo é possível, até mesmo aceitar a contragosto a posse de dois Lobões Maus numa tacada só, tudo em nome da conciliação.

Um comentário:

Fabricio disse...

Muito boa essa metáfora sobre nosso ilustrissímo presidente. Adoro ler redações inteligentes com muito bom-humor. Parabéns pelos seus textos, que inclusive já venho acompanhando há um bom tempo pelo site maratimba.