Translate

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Começou

Pronto, abrimos os olhos e o novo ano começou. Mais um. O que representa um ano para os 14 bilhões do Universo? Precisa multiplicar muito para ser nada. Só no calendário cristão já se passaram 2007 e a humanidade começou a dar seus passos bem antes disso. Quantos foram, neste momento não importa, o que importa é apenas este que está começando agora.

2008. Ano de Olimpíadas, na China! É, vamos ouvir falar muito nessa tal de China, muito mais do que ouvimos em 2007, para desgosto do Tio Sam, cada vez mais enrascado com seus problemas imobiliários. Para desespero do velho Sam, cada dia fica mais patente que esses incontáveis chineses estão marchando resolutos para transformar seu país-continente no próximo império mundial. Já neste ano a China deverá superar os Estados Unidos como o maior emissor mundial de gases do efeito estufa, sinal claro de crescimento acelerado, para desespero do Greenpeace e dos nossos narizes estufados.

Determinados esses chineses, aderiram até ao nosso calendário e na última virada de ano lá estavam eles jorrando fogos de artifício das suas modernas torres de concreto e aço. Entretanto, nem só de chineses é feito o mundo.

2007 passou carregando coisas boas e desagradáveis, deixando para trás não só a CPMF mas também figuras ilustres que ajudaram a vida a não ser um simples suceder monótono de anos. Sidney Sheldon, 89, escritor americano que só começou a escrever best-sellers aos 50; Maurice Béjart, 80, dançarino e coreógrafo francês que começou a dançar graças ao conselho de seu pediatra, pois ele era franzino demais e precisava fortalecer a musculatura; Paulo Autran, 85, ator paulista que brilhou na meia-idade, ao interpretar clássicos do teatro e na velhice, tirando partido das rugas que lhe tomaram a face para aumentar ainda mais sua expressividade; Nair Bello, 75, atriz que desde menina tinha duas obsessões: ser atriz e ter uma penca de filhos – teve quatro, dois homens e duas mulheres; Antonio Carlos Magalhães, 79, político baiano que influenciou quase todos os presidentes, civis ou militares, de Juscelino Kubitschek a Lula; Boris Ieltsin, 76, político russo que, em 1991, saiu às ruas, subiu em tanques de guerra e barrou os comunistas radicais que tentaram derrubar o liberal Mikhail Gorbachev da Presidência da União Soviética; Luciano Pavarotti, 71, tenor italiano que foi a imagem da ópera em nossos dias; Debora Kerr, 86, atriz americana que foi protagonista de um dos beijos mais ardentes da história do cinema, ela e Burt Lancaster à beira-mar e em trajes de banho em A um Passo da Eternidade, em 1953; Octavio Frias, 94 anos, editor que em 1962, aos 50 anos, farejou a oportunidade da sua vida e comprou a “Folha de São Paulo”, um jornal quebrado que, sob seu comando, se transformaria no maior diário do país; Enéas Carneiro, 68, político de calva brilhante, barba longa, óculos fundo de garrafa e fala estridente que, em 2002, foi eleito deputado com 1,6 milhão de votos, sem ninguém entender o que ele pretendia, apenas que “seu nome era Enéas!”; Aloísio Lorscheider, 83, cardeal gaúcho que aos 9 anos disse aos pais que queria ser padre e que durante o papado de João XXIII e o de Paulo VI, conquistou influência no vaticano; Oscar Peterson, 82, pianista canadense de 1,91 metro de altura e 113 quilos que hipnotizava as platéias pela leveza com que suas mãos deslizavam pelo piano; Ingmar Bergman, 89, cineasta sueco que fez do cinema uma forma de reflexão sobre temas como a dúvida, a solidão e a morte; Michelangelo Antonioni, 94, cineasta italiano que nos anos 50 migrou para um cinema de cunho existencialista, caracterizado pelo silêncio e pela busca de identidade; Gianfranco Ferré, 62, estilista italiano, arquiteto que nunca exerceu a profissão, mas usou o que aprendeu para criar trajes sóbrios, estruturados, de acabamento impecável que lhe valeram o apelido de “arquiteto da moda”; Norman Mailer, 84, escritor americano que foi boxeador e soldado na II Guerra Mundial e que como escritor foi um polemista compulsivo que encerrava muitas discussões cobrindo o interlocutor de socos e que, mesmo assim, foi um dos expoentes do new journalism, estilo que alia técnicas de ficção com reportagem; finalmente, o famoso anônimo, aquela pessoa comum, homem ou mulher, adulto ou criança que muito provavelmente cada um de nós viu-se privado da sua companhia em 2007.

Todos esses homens e mulheres apesar de não conseguirem ver a chegada de 2008 deixaram suas marcas e influências na história da humanidade. Das pessoas famosas citadas acima, o que chama atenção é a média das idades – 81 anos, sendo que algumas delas encontraram seu caminho na vida após os 40. Notem que Oscar Niemayer e tantos outros centenários comemoram mais um ano novo com a alegria que alguns jovens teimam em achar que só irão encontrar na bebida, nas drogas, no mito da eterna juventude. Quando eu era criança imaginava que uma pessoa com 50 anos era por demais de velha. A realidade hoje é bem outra, o que é bom e preocupante ao mesmo tempo. O mundo está envelhecendo porque a expectativa de vida tem aumentado tremendamente. Pense nisso. Não importa a idade que você tenha, prepare-se para o futuro. Quando disserem a você que o futuro do mundo está nos jovens e nas crianças, não acredite nisso. O futuro do mundo, o nosso futuro, está nas mãos de todos nós, não importa qual a idade. O que fazemos hoje é o que vai repercutir lá na frente. Se você tem filhos, netos, bisnetos não viva apenas em função deles, viva para você porque só assim você poderá dar o melhor de si para as gerações futuras. Lembre-se que o futuro pode ser apenas um dia. O que é um dia para uma vida? O que são cem anos para os 14 bilhões do Universo?

Nenhum comentário: