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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Conversa de formigas enquanto devoram a esperança

Existem manhãs em que a gente acorda com a sensação de que nem dormiu. Hoje foi uma delas, pelo menos pra mim. Acordei cedo por causa do barulho da televisão de uma das casas vizinhas. Normalmente isso não acontece por essas bandas centrais de Marataízes, mas como estamos em pleno verão e as casas que costumam passar o ano inteiro vazias e silenciosas de repente se enchem de gente e de sons. Como não quis seguir o conselho de nossa sexóloga e nas horas vagas ministra do turismo, nem pensei em relaxar, muito menos em gozar. Levantei-me, comi uma torrada com manteiga, peguei um pedaço de bolo de chocolate e fui comer no jardim, com a vaga sensação de que a vida ainda valia a pena ser vivida.

Sentado num dos bancos de concreto, sob a sombra da goiabeira, mastigava lentamente meu bolinho enquanto observava um exército de formigas marchando incontinente em direção ao piso de lajota, bem próximo à churrasqueira desativada. Apesar da preguiça natural de quem se levanta quando gostaria de estar dormindo o sono dos justos, fui até lá movido pela simples curiosidade em saber o que as atraía. Sentei-me numa cadeira e dali passei a espiar o trabalho dessas instintivas operárias. O que as atraíra fora o corpo de um grilo verde, também conhecido como esperança, que já se encontrava quase totalmente coberto pelas guerreiras operárias. Lembrei-me, então - e que nenhum eco-chato de plantão esteja me ouvindo agora – que fora eu o responsável pela morte da verdíssima esperança na noite anterior. Causa mortis: um jato prolongado de “Raid Protector Dupla Ação”; motivo: recomendação da esposa quanto à presença de qualquer inseto salteador, com longas pernas e antenas filiformes, uma praga para qualquer jardim.

As incansáveis formigas atiravam-se cada vez mais freneticamente sobre o cadáver, dilacerando-o com suas mandíbulas afiadas, divididas em pequenos grupos, cada qual com suas tarefas específicas. Notei que um deles parecia não fazer nada a não ser conversar em volta do futuro banquete, enquanto a maioria das operárias fazia seu longo caminho até o formigueiro, cada qual carregando um pedaço de esperança. O que estarão confabulando?- pensei eu, não parecia tratar-se de uma rebelião, pois nenhuma delas era advertida por outro grupo que parecia estar alguns graus acima na hierarquia do formigueiro. Sentei-me no chão e – a que ponto chega um cidadão arrancado da cama no melhor dos sonos! – tentei ouvir o que elas diziam. Embora parecesse loucura, aquela série de trinados produzidos por suas antenas faziam algum sentido nos meus ouvidos a ponto de eu chegar mesmo a entender o que elas diziam.

Ouvi algo parecido com CPMF, e aproximei-me ainda mais do pequeno grupo. Era isso mesmo que tinha ouvido, uma delas perguntava às demais como elas achavam que esse governo aí dos humanos ia fazer para tentar cobrir os 40 bilhões de reais perdidos com o término do imposto provisório que por pouco não se tornou permanente. “Terá que conter os gastos”, respondeu o resto do grupo, “ou criar mais impostos” acrescentou a que fizera a pergunta. A discussão ficou mais animada, o que me fez deixar um pouco de lado a razão e acreditar que aquelas formigas estavam até bem mais interessadas que a maioria de nós, brasileiros humanos, no principal assunto da virada de ano.

Qual não foi minha surpresa quando uma delas advertiu as demais que o governo corre o risco de não conseguir aprovar no Congresso o aumento da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido, o imposto dos bancos, uma das maneiras de compensar o fim da CPMF. A formiguinha parecia estar muito bem informada, pois afirmou que um em cada sete parlamentares que votarão sobre o tema teve sua campanha financiada por algum ou vários bancos em 2002 e 2006. Como a maioria deles acredita que é dando que se recebe, e como já receberam, agora chegou a hora de dar, o que será feito, vedando o aumento do imposto. As outras formiguinhas não se mostraram surpresas, prova de que já conhecem melhor nossos parlamentares do que a maioria do povo. Outra até chegou a comentar que viu num pedaço de jornal por onde passou que 24 dos 81 senadores e 64 dos 513 deputados receberam doações do setor bancário. Ao todo, 88 políticos - 48 oposicionistas e 40 aliados do governo – foram ajudados por bancos nas duas últimas campanhas. Entre os parlamentares financiados por bancos, o recordista foi o senador Aloizio Mercadante, do PT, que em 2006 recebeu 1,6 milhão de reais de quatro bancos e sua colega Roseana Sarney, filha do bigodão, que recebeu 500.000 reais, em 2006. Segundo o TSE, em 2006, as contribuições feitas por vinte bancos totalizaram 11,4 milhões de reais e não tiveram preferências partidárias, todos foram beneficiados por Unibanco, Bradesco e Itaú, os principais doadores.

A essas alturas eu mesmo já não sabia mais o que me espantava, se o fato de ouvir formiguinhas conversando no meu quintal, em volta da esperança morta, ou, a esperança viva dos brasileiros que têm a boa-fé de acreditar que o governo manterá a palavra ao dizer que reduzirá os gastos públicos e não aumentará os impostos. Outra formiguinha pareceu ouvir meus pensamentos e foi adiantando que ouviu por aí que não haverá mais cortes radicais de emendas e que, para tapar o buraco que continua aberto, já se discute até a recriação da CPMF, pois é consenso na base aliada a apresentação de um projeto de recriação do imposto do cheque, com alíquota de 0,20% e com toda a arrecadação destinada à saúde. Outra colega sua, bastante irritada, disse que nos bastidores de Brasília desenvolve-se um jogo entre o governo que voltou a sentar-se à mesa de negociação com os aliados para tentar aprovar o pacote de impostos e que o resultado mais visível desses acertos foi a confirmação do senador Edison Lobão, do PMDB do Maranhão, para o Ministério de Minas e Energia, um afago à turma ligada ao senador José Sarney, o bigodão.

O blá-blá-blá formigueiro continuou girando em volta da CPMF, até que uma formiguinha mais afoita apareceu dizendo que a oposição prepara para esta semana uma mobilização para exigir do governo um melhor controle dos gastos com cartões de crédito corporativos que cresceu 129% de 2006 para 2007. Eles querem convocar o ministro do planejamento, Paulo Bernardo, para dar explicações sobre a gastança. Acabara de ler em um jornal enquanto caminhava sobre ele transportando seu pedaço de esperança que esse tipo de despesa somou 75,6 milhões de reais, 4,3 vezes mais do que em 2004, quando o governo Lula iniciou o uso dos tais cartões. O pedaço de esperança caiu das suas mandíbulas quando ela leu a justificativa do governo que não se trata de uma gastança aleatória e desmedida. As despesas teriam subido por causa de ações excepcionais, como os censos agropecuário e populacional de pequenos e médios municípios do IBGE, ou as atividades da Agência Brasileira de Inteligência por ocasião dos Jogos Pan-Americanos, tudo questão de “segurança nacional”. Para um tal senador Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas, essa é uma desculpa esfarrapada, pois onde ficaria a segurança nacional em gastos da Secretaria de Igualdade Racial, da Cultura, da Pesca ou do Esporte? Já para o deputado José Carlos Aleluia, da Bahia, o governo deveria eliminar os cartões corporativos imediatamente e adotar o esquema utilizado na maioria das empresas, ou seja, o reembolso de despesas. Todas as formiguinhas ali reunidas concordaram que o cartão é um estímulo ao gasto desenfreado.

Já estava bastante envolvido com o debate e até pensava em fazer um pronunciamento como único humano presente na assembléia, quando as formigas iniciaram uma rápida dispersão porque já não havia nem mais um pequeno resto de esperança que pudesse ser compartilhado. Assisti calado à retirada da comitiva enquanto em meus ouvidos ainda ecoavam os restos finais da discussão. Existem manhãs em que a gente acorda com a sensação de que nem dormiu
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