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terça-feira, 24 de junho de 2008

Jacarés e tuiuiús na sala de aula


Tenho estado bastante envolvido com literatura infantil e juvenil, não só escrevendo, mas lendo também. Cada livro que compro para meu filho, ou que ele traz da biblioteca da escola, passa pelas minhas mãos e olhos. Embarco com ele nas aventuras e fantasias de crianças, o que é maravilhoso e essencial como estímulo para criar as minhas próprias aventuras. Este mês recebi um convite da Ester, professora do meu filho no ITA, para participar da Semana de Literatura na escola pública onde ela também dá aulas. Aceitei de imediato.

A Escola de Ensino Fundamental Municipal Anácia Queiroz da Silva fica no Bairro Jacarandá, aqui em Marataízes, uma região onde predomina a plantação de abacaxi. Como muitos dizem, é uma escola da roça, a maioria dos pais dos alunos deve seu sustento aos famosos abacaxis de Marataízes. Os alunos têm muitas carências, às quais os professores procuram suprir da melhor maneira que podem. Apesar de estarem promovendo uma atividade relacionada à leitura, grande parte desses alunos nunca chegou a ler sequer um livro. A escola não possui biblioteca porque ainda não conseguiu um espaço físico para montá-la. Era essa minha missão: falar sobre livro para crianças que praticamente nunca leram.

Na sexta-feira, dia 20 de junho, fui para lá levando material de um livro que ainda estou desenvolvendo. Fora reservada uma sala só para nós, sem cadeiras, apenas uma mesa, quadro negro e material para desenho. Durante a tarde foram realizadas quatro sessões, acompanhadas pelas professoras responsáveis. Eu havia traçado um roteiro mental do que faria, ressaltando o processo criativo e as etapas para o desenvolvimento da história e das ilustrações que acompanham o texto. Minha intenção era não só falar, mas, principalmente interagir com eles. Todas as vezes que programamos alguma coisa desse tipo ficamos na expectativa, sem saber ao certo se conseguiremos realizar aquilo a que nos propusemos. Digo nós, porque incluo a Ester, a Jaqueline, a Margarete, a Michele e o Alexon, professores e organizadores da atividade, além da Claudia, diretora da escola. Felizmente tudo ocorreu bem, pois a receptividade e a cooperação dos alunos foi nota dez.

Eles sentaram-se em círculo em volta da sala e eu fiquei completamente à vontade para a minha apresentação. Vale à pena lembrar que a situação em que me sinto sempre à vontade é quando estou cercado por crianças e jovens interessados naquilo que vou apresentar. Comecei dizendo que escrever e desenhar não são o bicho de sete cabeças que todos pensam; são atividades criativas que necessitam de certos estímulos para se concretizarem. No meu caso, o estímulo foi um concurso de ilustração infantil promovido por uma entidade espanhola. O objetivo era escrever e ilustrar uma história para crianças de seis a oito anos. Como já sabia qual era o público, faltava escolher o tema. Deixei a coisa um pouco de lado até o dia que me deu o estalo: amizade! Quem já foi criança sabe o quanto os amigos são importantes na infância. A forma como contaria a história acabou me fazendo optar por não colocar humanos como personagens; se não vou utilizar humanos, com toda a certeza usarei animais. Mas quais animais? - perguntei-lhes. Qual animal lembra amizade? O cachorro foi a resposta unânime de todas as turmas. Expliquei-lhes, então, que não haveria cachorro na história; era preciso diferenciar-se e não seria com cachorros nem com outros animais domésticos que conseguiria isso. Primeiramente, escolhi o Pantanal do Mato Grosso como cenário. Daí, chegamos ao jacaré, animal que normalmente não tem nenhuma associação com amizade, ainda mais com tuiuiús. Estava decidido, seria a história da amizade de um jacaré e um tuiuiú!

Narrei a história e, em seguida, propus a todos desenhar junto comigo alguns dos personagens, apostando que todos seriam capazes, pois mostraria a eles os truques dos desenhistas. Distribuímos folhas de papel, canetas, lápis, giz de cera para que eles me acompanhassem num passo a passo, mostrando que o grande segredo é trabalhar com figuras geométricas. Da combinação de circunferências, quadrados, triângulos, retângulos saíram dezenas de tuiuiús, sacis, jacarés e cobras sucuris. Saíram também algumas coisas bem criativas, como um Saci com roupa de Superman e outro usando bermudão e touca estampados, com um jeitão de Saci surfista. Pena que o tempo não era tão longo, pois tenho certeza que todos se soltariam mais e ganhariam mais confiança nos seus traços. Depois disso, distribui pelo chão, aleatoriamente, doze ilustrações xerocadas para que eles colocassem na ordem em que eu havia narrado a história. Todas as turmas realizaram a tarefa rapidamente. Por último, oito voluntários leram o texto de forma teatral, cada um representando um personagem.


Saí de lá satisfeitíssimo, com a certeza de que todos tiveram a mesma impressão e que a experiência foi gratificante não só para os alunos, como para todos que dela participaram (incluindo eu, é claro!). O que me leva a pensar cada vez mais a sério em dedicar-me à literatura infanto-juvenil. A história que serviu de base chama-se “Uma incrível amizade” e está em fase de acabamento. Espero que eu consiga uma editora para publicá-la. Se conseguir, voltarei à escola para apresentar o livro aos alunos e, quem sabe, distribuí-los por lá. “Que Deus o ajude!” foi o que eles me desejaram. “Que Deus ouça as crianças!” é o que eu desejo.

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