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domingo, 22 de junho de 2008

Soneto em prosa


Vinicius apaixonou-se. Justo ele que sempre teve o dom de apaixonar-se. Isso foi lá pelos idos de 1939 e o que pouco sei perdeu-se na memória, vez em quando volta tal qual onda do mar despercebida. O fato é que, tendo alma e coração de poeta, deixou para a posteridade um dos mais belos sonetos que tratam de amor e de paixão. Creio que foi uma paixão tão arrebatadora a ponto de ele só ter olhos e pensamentos para o ser amado. Mesmo diante do maior encanto do mundo, era com esse amor que se encantava mais seu pensamento. Parece-me que estava em Portugal por essa época, ao que tudo indica distante de sua paixão e fisicamente livre para buscar outras, coisa natural na sua vida boêmia. Porém, ele queria viver esse amor em cada momento de vazio ou futilidade. Queria mais! Em louvor a ele prometia espalhar seu canto, sorrir seu riso e derramar seu pranto em momentos de pesar ou de alegria. Indo mais além, fez um vaticínio, prevendo quando mais tarde lhe chegasse a morte - angústia de quem vive, ou mesmo a solidão - fim de quem ama, ele pudesse falar desse amor, não um amor imortal porque poderia ser breve como uma chama, mas que, mesmo não sendo eterno, seria infinito enquanto durasse.

Pode parecer estranho nos dias de hoje falar assim de amor e de paixão, ainda mais quando se trata de um soneto da fidelidade. Qualquer jovem atual que por acaso cruzar com este soneto pelo caminho talvez pense que Vinícius era um careta e, pensando assim, estará enganado justamente porque muito antes de ele nascer o Vinícius já conjugava e muito o verbo “ficar”. Era um boêmio, como falei, adorava a noite e as mulheres, não gostava de sentir-se preso. Quando a chama apagava-se ele batia as asas, mas antes que isso acontecesse vivia intensamente cada amor e cada paixão. Nesses momentos, que poderiam ser fugazes ou prolongados, era fiel. Para quem não sabe “boêmia” era a “balada” da época. Caretão esse Vinícius!

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