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domingo, 17 de agosto de 2008

Conversa de padaria

Chego à padaria por volta das quatro da tarde. Está bastante movimentada para um sábado de agosto. Procuro a fila do pão, mas no caminho encontro o candidato.

- E aí, tudo bem?

- Legal. E a campanha, como vai?

- Estou correndo atrás. Isso é uma dor de cabeça, você nem imagina, mas estou otimista. Trabalhando bem dá pra garantir a vaga de vereador. O problema é que nós, intelectuais, temos uma dificuldade muito grande pra fazer campanha. Pra falar a verdade eu não gosto muito desse negócio de campanha. Gosto de política naquela fase bem mais adiante, fora de eleição. Estamos com um programa legal, nossos candidatos estão bem alinhados, sabem o que querem. O problema é que o que eu quero fazer não dá voto. O eleitor não se interessa por cultura, ecologia, educação. Ele quer é saúde, emprego, alguma coisa que melhore a vida dele. Aí, a gente tem que levar pra ele o que ele quer e eu ainda nem comecei a fazer isso, tenho que andar muito, ouvir cada eleitor, é um negócio cansativo, não tenho disposição pra fazer.

- Marataízes não é só a orla, a maioria dos eleitores está aí pra dentro, tem que rodar muito.

- Ai é que está, isso cansa. Meu eleitorado está na orla, quando fui vereador a primeira vez foi a orla que me elegeu. O problema é que a cidade cresceu e eu não posso mais ficar contando com esses gatos pingados, tenho que ir onde o povo está. Esse é o grande saco, não gosto de campanha, gosto de juntar gente em casa pra falar de política, mas ir atrás de eleitor é um porre! Tenho que levar solução pra eles, entregar os paliativos de sempre, dar o peixe sem ensinar a pescar, uma chatice! Pra complicar eu sou tímido, não gosto de ficar me mostrando muito no meio do povo, não falo a língua deles e eles não querem saber das minhas conversas. Morro de vergonha de entrar na casa de alguém pra pedir voto. Você vota aqui?

- Não, em São Paulo. Ainda não transferi meu título. Vim pra cá achando que ia voltar logo.

- Ta vendo como é intelectual? Pobre quando muda de cidade transfere logo o título pra garantir os paliativos de sempre. Puxa, que pena que você não vota aqui, mas de qualquer modo você pode falar de mim aí pros amigos. Ia deixar um santinho com você, mas não fiz nenhum. Não gosto desse negócio de santinho, achei melhor não fazer, meu número é fácil de decorar, tem um monte de três...

- Quantos candidatos tem o partido?

- Quatro. Tem uma pescadora lá do Pontal. Intelectual só eu. Uma merda, porque tenho que abrir mão de muita coisa que pretendo fazer porque não dá voto. Cá entre nós, os três são muito fraquinhos, quase não sabem falar, mas puxam votos, fazer o quê?

- E como você está divulgando suas propostas?

- Estou pensando, não queria fazer o tradicional, queria uma coisa nova, ainda não sei o quê, tudo o que me interessa não interessa ao eleitorado. Estou com um grupo de teatro, gente daqui, estão apresentando uma peça minha. Pensei em fazer alguma coisa com o grupo na campanha. O problema é que o povo não gosta disso. Ah! Criei um site na internet, coisa simples, as propostas básicas, não me dou muito bem com esse negócio de site. Ficou bom, a merda é que o povão não lê! Poxa, a campanha nem começou e eu já estou entediado! Como eu te falei, eu gosto de política, não gosto é de campanha. Se pudesse ser eleito sem fazer campanha seria o paraíso pra mim. Bom, tenho que ir embora, está chegando muita gente e se eu ficar parado aqui vão querer saber das minhas propostas, eu vou ter que ficar prometendo coisas que eu sei que não vou cumprir porque não me sinto bem fazendo o que não quero. Estou pedindo a Deus pra chegar logo outubro e isso tudo acabar. Não se esqueça de falar de mim pra todo mundo. Anotei meu número aqui nesse papelzinho, pode levar. Conto com você, hein!

Sai devagarzinho pra não ser notado, entra no carro, liga o motor e, antes de dar a partida, aponta a mão com o “V” da vitória. Só pra mim, pra não chamar atenção...

Um comentário:

SOCIEDADE SUL disse...

Prezado Pauli
Foi um grande prazer conhecê-lo e gostaria de conversar mais, principalmente sobre trabalho e possibilidades de parceira.
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Ramon Barros