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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O Batman não é mais o mesmo

Sábado passado fui com meu filho ver “Batman – o cavaleiro das trevas”. Sempre que vamos ao cinema, deixo de lado minha veia crítica e passo também a ser um menino de onze anos. Tem sido assim desde “A fuga das galinhas”, quando estávamos com três. Pouco me importa o que diz a crítica especializada, quero mais é me divertir.

Logo que entramos na sala, um grupo de garotos gritou pelo Henricão e lá fui eu fazer parte da galerinha na penúltima fileira de poltronas. Apagadas todas as luzes, eu estava cercado por crianças e já imaginando a impossibilidade de me concentrar na projeção. Agradável engano. A garotada caiu em profundo silêncio e entregou-se completamente ao filme. A partir daí cheguei à conclusão que o Batman não é mais o mesmo, tornou-se um mero coadjuvante do Coringa. Impressionante como a criançada elegeu o vilão como centro de atenção da trama. Henrique, então, vibrava a cada aparição do vil personagem, o que me abalou um pouco como pai. “Pô, esse Coringa é muito esperto!”, repetia ele seguidamente, deixando-me também seguidamente desconfortável, afinal, as cenas iniciais do bandido eram recheadas de violência amenizada pela sua figura bem mais impressionável do que a do herói cavaleiro das trevas. “É pra ele que você torce?” perguntei um tanto quanto ríspido e incomodado. Felizmente ele não entendeu o tom reprovador da minha pergunta e seguiu em frente. Mais adiante compreendi que meu excesso de preocupação moral não poderia se aplicar àquela situação. Afinal, não era eu mesmo que tinha assumido o compromisso de me desarmar das críticas e ver o filme com os olhos de criança? O que os olhos de qualquer criança naquele momento podiam ver era que o Coringa roubava a cena do Batman toda vez que aparecia. Um personagem extremamente mais interessante do que o guardião da justiça, mesmo que “do mal”. Comecei a perceber a diferença da criança que fui para as crianças de hoje, do Batman que via na televisão sem cores para o Batman de hoje, a simplicidade das tramas daquela época em contraste com a complexidade das tramas atuais. Um filme assim seria inconcebível para a criança que fui, para a maioria das crianças da minha geração. Daí, concluir que os pimpolhos de hoje estão bem acima da visão de bem e de mal que tínhamos naquela época, onde apreciar o vilão era uma heresia. Cada história trazia embutida uma lição moral cravada na visão maniqueísta do bem e do mal, os mocinhos nunca levavam a pior e os bandidos eram sempre castigados. O que quer dizer isso, afinal? Que as crianças de hoje correm o risco de bandear-se para o lado do mal? Que apreciam atitudes canalhas em detrimento do comportamento honesto e humanitário? Que são presas fáceis de filmes e videogames violentos? Está aberto o fórum.

Não vejo muita diferença entre esse comportamento nas crianças que consomem aventuras e entre os adultos que consomem novelas ou que ficam fascinados com a esperteza dos “sem-caráter” que povoam os telejornais. Não é preciso ser um sábio para perceber o fascínio que os vilões dos folhetins exercem no público. Cá entre nós, eles são bem mais interessantes do que os heróis. Seria assim também na vida real? É um caso a ser pensado, principalmente ao ver bandidos com status de estrelas de cinema, com suas fotos e declarações estampadas em revistas e jornais. Vivemos em um país repleto de traficantes, sonegadores, corruptos e corruptores; muitos deles agindo fora das cadeias quando deveriam estar presos, boa parte deles presos e, mesmo assim, agindo de dentro das cadeias. Têm aqueles que são capturados lá fora e trazidos para comer lagosta e salmão em presídios daqui e aqueles de fora presos aqui, tendo seus pertences leiloados ao público ávido até por uma cueca usada, enquanto aguardam uma extradição. Têm também os bandidos comuns, presos e soltos, meros seguidores anônimos dos “coringas” famosos. O Brasil não é Gothan City e Batman não é mais o mesmo.

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