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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama nas alturas


Passei o dia inteiro em casa, sozinho, vendo a posse de Barak Obama como 44º. Presidente dos Estados Unidos da América, primeiro presidente negro - ou afroamericano, como eles preferem dizer. Um dia histórico sem dúvida. Confesso que fiquei impressionado com a sua aparente tranquilidade, como se estivesse diante de um evento corriqueiro e não tornando-se o homem mais poderoso do planeta ou, se pensarmos de outra forma, o homem que está herdando um dos maiores abacaxis do mundo para descascar. Estou escrevendo agora, no dia da posse, e sei que amanhã ele tem um encontro marcado com a realidade e fico imaginando como estará a cabeça dele quando finalmente colocá-la no travesseiro após a maratona de atividades que terá enfrentado.

Terminada a euforia coletiva, o que vem pela frente são eles, os problemas, os conflitos, as crises. Pelo tom do seu discurso podemos sentir que, apesar de estar nas alturas, Obama tem os pés no chão. Torço muito por ele, pelo seu governo, pelo nosso planeta. Os desafios são enormes, as responsabilidades também, quase do tamanho das críticas que virão, fundadas ou infundadas, justas ou injustas como sempre acontece na política. O que o espera, afinal?

Primeiramente, a crise financeira mundial iniciada no seu país e espalhada para o resto do mundo. A prioridade é aprovar no Congresso um novo pacote econômico de uns 775 bilhões de dólares para aquecer a economia. O objetivo é criar cerca de 3,5 milhões de postos de trabalho nos próximos dois anos, além de cortar impostos, ampliar a duração e os benefícios do seguro-desemprego e ajudar estados e municípios com graves problemas de caixa para pagar funcionários públicos e manter serviços essenciais. O risco é as novas medidas de estímulo econômico inchar ainda mais o déficit orçamentário do governo (algo como 1 trilhão de dólares em 2009). O Partido Democrata já está dividido, uma das alas acha que o novo presidente terá de dizer aos eleitores que algumas das promessas de campanha serão adiadas para não agravar a situação fiscal. Outra defende o contrário, que o crime mais grave no momento seria esfriar o ânimo dos americanos. Obama pretende reescrever as regras que comandam os pregões, de olho nos vilões da crise atual: hedge funds, corretores imobiliários, corretores derivativos e agências de classificação de risco.

Se ele já tem poucos problemas internos, que dirá os externos. Bush sempre foi taxativo em não manter diálogo com o governo iraniano, principalmente sobre o programa nuclear daquele país, o qual, segundo Obama, “poderia desencadear uma corrida nuclear no Oriente Médio”. No início ele tentará o diálogo com Teerã, mas as conversas podem nem sempre ser pacíficas porque ele já revelou que pretende cobrar do Irã sua atitude de exportar o terrorismo por meio do movimento islâmico palestino Hamas e do grupo radical xiita libanês Hezbollah. Outra promessa de campanha que exigirá muito dele é a da retirada das tropas americanas do Iraque. A retirada deverá ocorrer ao ritmo de uma a duas brigadas por mês para dar tempo ao governo iraquiano de organizar suas próprias forças armadas. Mesmo assim, um pequeno contingente americano deverá ser mantido no Iraque.

Outro osso duro no caminho do novo presidente encontra-se em alguma caverna do Afeganistão. Ele mesmo, Osama Bin Laden. Ele prometeu atacar a Al Qaeda, especialmente Bin Laden, com ou sem a ajuda do Paquistão. Será Obama X Osama, aguardem! Mas ele não pretende se concentrar apenas na luta armada. Quer melhorar o desempenho do novo governo afegão para aumentar a qualidade de vida da sua população. De quebra, quer entrar em acordo com o Paquistão para garantir que terroristas não estabeleçam acampamentos de treinamentos na fronteira entre os dois países.

Por falar em terroristas, Obama apoia o desejo de Israel de se defender dos disparos de foguetes do Hamas, mas se incomoda com os trágicos custos humanitários trazidos pelo conflito no Oriente Médio e com a dor e o sofrimento de civis palestinos e israelenses. Bush alertou-o sobre a possibilidade dos ataques se reverterem em atentados contra os Estados Unidos, a Al Qaeda até já publicou uma mensagem em que acusa Obama de ser cúmplice da ofensiva israelense. Mesmo assim, sua equipe já declarou que ele está disposto a fazer de tudo pela paz no Oriente Médio.

No que depender de Obama, a boa imagem que ele cultiva no exterior poderá ter influência positiva no seu governo. Para especialistas, o novo presidente será capaz de melhorar a imagem dos Estados Unidos nos outros países, como os europeus. Um dos principais trunfos para promover a imagem do país é fechar a prisão de Guantánamo. Mesmo que não possa ser feito com a rapidez prometida, o fim da prisão e das torturas durante os interrogatórios servirão como ponto-chave para diferenciar a imagem de Obama da de Bush, que deixa o governo sob a rejeição de boa parte do mundo.

Os Estados Unidos deverão se engajar nas negociações para liderar o mundo em uma nova era de cooperação mundial para combater o aquecimento global. O atual presidente deseja investir 15 bilhões de dólares por ano para promover energia limpa, como a solar, a eólica e também uma nova geração de biocombustíveis. As montadoras à beira do colapso deverão investir o dinheiro do socorro governamental em novas tecnologias, como a de carros flex e de baixo consumo de gasolina.

E quanto à promessa de mudança que foi tema da sua campanha presidencial? Quem espera mudanças radicais pode se decepcionar. Ele montou sua equipe com profissionais experientes e respeitados, mas que não expressam nada de novo para a política americana. Para não correr o risco de fracassar logo na largada, ele se apóia na experiência, na estabilidade e no realismo. Não corresponder às expectativas criadas em torno de sua posse pode fazer com que ele perca prestígio junto à comunidade internacional e à população. Dele se espera quase tudo: que promova a paz no Oriente Médio, controle os ímpetos imperiais da Rússia, dê atenção especial à América Latina, contribua para evitar o aquecimento global, supere a crise financeira mundial e evite uma recessão dolorosa. Dentro dos Estados Unidos, dele se espera que adote um sistema universal de saúde, rompa com a dependência do petróleo, produza energia limpa e renovável, promova a paz, apanhe Bin Laden e revalorize o dólar. É muita coisa para um homem só!

O dia histórico aconteceu de verdade e promoveu comemorações em quase todo o mundo, criou expectativas enormes, sonhos e ilusões. E amanhã, como será? Faço minhas as palavras do jornalista Reinaldo Azevedo: “Mas o mundo é aquele com que nos deparamos ao acordar, não o com que sonhamos ao dormir... O OBAMA QUE HÁ encarna todos os nossos anseios de um mundo mais justo e equilibrado – é, portanto, uma ilusão. O VERDADEIO OBAMA É AQUELE A HAVER, está no futuro. E não o conhecemos porque ainda não nos é dado viajar ao tempo... o candidato Obama já fez história. Mas a história ainda fará o presidente Obama”.

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