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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O último carnaval do Marreco


Aristides era funcionário público concursado e tinha o maior orgulho disso. Trabalhou durante mais de trinta anos sem perder um único dia de serviço. Sua dedicação espartana era conhecida por todos, tanto colegas de trabalho quanto usuários dos serviços da repartição. Homem simples de poucos prazeres, levava a vida de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Não fumava, não bebia, nunca foi visto correndo atrás de rabo de saia. Também não era chegado a esportes e não nutria amizade com os colegas fora do expediente. Casado há mais de quarenta anos com Dona Candinha, pai de um filho também servidor público, vivia uma vida totalmente previsível. Metódico ao extremo, jamais deixou sobre a mesa um único papel que não dissesse respeito ao seu trabalho. Nunca chegou atrasado, nunca saiu depois do horário.

Marreco tinha uma paixão doentia pelo carnaval, talvez porque tenha nascido numa terça-feira de Momo, lá pelos idos de 1930. A verdade é que desde que conseguiu se sustentar nas próprias pernas já aparecia em blocos, fantasiado, coberto de confetes e serpentinas e com uma seringa de água apontada para todos os transeuntes, como se dizia naquela época. Da infância à adolescência aproveitou o máximo possível da festa mais brasileira de todas. Natural do Leblon, nunca saiu do Rio de Janeiro, principalmente depois de ter passado num concurso e se tornado funcionário público federal. Mais não queria, se amava tanto o carnaval, nada melhor do que morar na cidade mais carnavalesca de todas. A vida de funcionário público começou cedo e consumiu quase toda a sua existência. Residiu aí justamente o maior mistério de Marreco, conhecido assim apenas nas folias carnavalescas, durante o resto do ano voltava a ser o velho e previsível Aristides.


Marreco sempre aproveitava ao máximo sua curta vida anual fazendo tudo o que jamais faria na pele de Aristides. Quando chegavam as sextas-feiras mais aguardadas, Aristides deixava a repartição, virava Marreco e se entregava a todo tipo de folias, orgias e tudo o mais que fosse possível até a quarta-feira de cinzas. Acostumada, Dona Candinha sabia que durante o carnaval não veria a cara nem de um nem de outro, também preferia nem saber o que se passava com o marido, muito menos por onde e com quem ele andava nesses dias. Marreco bebia, pulava, dançava com um fôlego inabalável. Saía em quase todos os blocos e escolas de samba, do primeiro e do segundo grupo. Trocava de fantasias como as modelos trocam de roupas. Uma hora era índio, na seguinte, pirata, árabe, bebê chorão, Nega Fulô, bandido, político, astronauta, baiana, às vezes Adão, às vezes Eva, mas sempre criança, feliz, liberta, curtindo seus instintos primários. Praticamente não dormia, não sentia sono, não sentia cansaço. O mais impressionante era que mesmo passando a noite toda na folia, quando a quarta-feira de cinzas dava seus últimos suspiros, ele chegava pontualmente na repartição, de banho tomado, cabelo engomado, terno impecável e cara de funcionário exemplar. Os colegas imaginando-o o tempo todo em casa, de pijamas, descansando até o dia de voltar ao trabalho.


Oito décadas nessa toada teriam, é claro, de afetar o corpo em transformação do Marreco. Nos últimos anos moderou um pouco seu ritmo sem, contudo, mudar seus hábitos. Uma cirrose traiçoeira cismava em aparecer justamente fora do período carnavalesco, acompanhada por sinais evidentes de reumatismo, lordose e dores variadas nos membros superiores e inferiores do velho Marreco. O espírito, porém, continuava o mesmo, imbatível e incorrigível. Foi com esse espírito que ele pisou na avenida neste último carnaval. Com passos mais lentos, coreografias mais controladas, cervejas e caipirinhas melhor administradas e alegria completamente descontrolada. O velho Marreco foi visto no
Cordão do Bola Preta, nos blocos grandes e pequenos, nos bailes mais badalados, no Gala Gay, no morro da Mangueira, na Marquês de Sapucaí no domingo e também na segunda até o amanhecer da terça-feira gorda. Seguiu seu caminho alegre, disfarçando o cansaço, escondendo as dores até que ao meio dia em ponto seu coração disse um basta. O enfarte certeiro calou o corpo do Marreco, mas não apagou seu sorriso, a felicidade de ter nascido e morrido no dia mais brasileiro de todos.

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