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domingo, 19 de abril de 2009

Detalhes tão pequenos



Foi em 1972 ou 1973, em São Bernardo do Campo. Eu devia ter dezesseis anos, por aí. Passada a Jovem Guarda, a conquista do tri-campeonato mundial de futebol, essas coisas que marcam a vida de qualquer garoto sonhador que pensa que um dia vai conquistar o mundo. Enquanto esse dia não chegava, eu tentava levar a vida com o pouco que meus pais podiam me dar. Era ainda a época dos bailes, das músicas românticas, de dançar de rostinho colado ou amargar a companhia de uma vassoura, caso nenhuma garota aceitasse dançar conosco. Época de entrar de penetra nas festas, tomar caipirinha de vodka, dar rolê com carango emprestado, encarar batida da polícia em busca de documentos, tremer que nem vara verde na zona, suar frio ao pegar nas mãos de uma moça, ou seja, tudo aquilo que representava grandes desafios para a ala mais “adulta” da garotada, mero sonho para um rapaz tímido, magrelo e pobre que nem eu.


Lembro que em casa não havia o que podíamos chamar de um som descente, um aparelho “hi-fi”, de alta fidelidade, para tocar os long-plays e compactos duplos e simples das melhores músicas nacionais e estrangeiras. Havia um rádio grande do meu pai e alguns radinhos de pilhas que o meu irmão do meio gostava de colecionar. A vizinhança, porém, curtia mesmo era colocar nas calçadas aquelas vitrolinhas portáteis, as famosas pick-ups, para ouvir os nossos roqueiros e os roqueiros de fora, durante o tempo que permitiam as pilhas RAY-O-VAC, as amarelinhas.


Um dia, meu irmão mais velho apareceu com uma tremenda parafernália, disposto a montar um estúdio fonográfico na sala/cozinha lá de casa. A parafernália resumia-se a uma radiola – outro nome da vitrolinha - um gravador de fita K7 e uma pilha de discos do Roberto Carlos, emprestados pelos vizinhos. Meu irmão sempre foi o pioneiro da família, aquele que volta e meia aparecia com as novidades tecnológicas. Fora ele quem introduzira na nossa sala/cozinha o projetor de slides, o gravador de rolo, a máquina fotográfica Polaroid, que revelava a foto na hora, ali na sua frente!


Acompanhei atentamente os preparativos na qualidade de irmão caçula dos homens, sem emitir opinião ou qualquer sinal de desagravo. A óbvia intenção do meu irmão era gravar o máximo possível de músicas nas inúmeras caixinhas de fitas K7, com a melhor qualidade de reprodução. Isso só era possível utilizando-se a gravação direta, sem interferência do som ambiente. Era só acoplar o cabo na saída da radiola e na entrada do gravador. Qual cabo? Justamente aquele que ele se esquecera de comprar. Mas nada disso era capaz de abalar o Professor Pardal da família. Uma rápida fuçada na caixa de bugigangas e pronto, estava ali o “jacaré”, um cabo com duas cabeças em formato de boca de jacaré numa das extremidades e uma entrada para o gravador na outra. Jeitosamente meu irmão descascou dois pequenos pedaços de fio da radiola e ali cravou os dois jacarés. Pronto, a radiolinha já estava grampeada!


Embalada pelas melodias do Rei, escorrendo pacientemente para dentro do gravador, a tarde passava tranquila. Uma verdadeira trajetória artística, entremeando músicas românticas com hits de sucesso da Jovem Guarda. Meu pai, observava atentamente num canto da sala/cozinha, tragando seus cigarros sucessivos, soltando fumaças entre comentários, aprovações e desaprovações. Católico extremado, perdeu a paciência quando o Rei berrou “quero que você me aqueça nesse inverno, e que tudo mais vá pro inferno!...” Meu velho saiu da sala/cozinha indignado e só voltou para seu cantinho ao ouvir a retratação do Rei que bradava: “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui...” Mais calmo, sentou-se, acendeu um cigarro e reparou que tudo aquilo eram “detalhes tão pequenos pra esquecer”. Minha mãe cantarolava as canções românticas enquanto lavava louças, limpava o chão ou preparava a janta. Minhas irmãs, sentadas, sonhavam sonhos românticos ao som do Rei.


Encantado com as novidades tecnológicas eu prestava a máxima atenção em tudo. Roberto não era novidade para mim, já vira e ouvira muitas coisas dele, na TV e na revista Intervalo, já vestira a calça Tremendão – uma calça superjusta feita de um tecido preto e branco parecido com uma camisa do Bragantino quando foi campeão paulista. Ganhei a calça de uma vizinha que sempre me dava roupas que não serviam mais para os filhos dela. Eu olhava para aquela pilha de discos de vinil, fascinado com as capas, principalmente as que tinham o rosto do Rei desenhado com traços imprecisos.


Foi nesse dia que ouvi pela primeira vez “Meu pequeno Cachoeiro”. Eu pensava que era “Meu pequeno Cajueiro”, nem sabia que existia essa cidade chamada Cachoeiro de Itapemirim. Depois fiquei sabendo que a música era de Raul Sampaio, compositor capixaba que hoje mora aqui em Marataízes e que vim a conhecer ano passado numa cerimônia na Academia Cachoeirense de Letras. Naquela época jamais imaginava que viria a me casar com uma conterrânea do Rei, vizinha do Zunguinha, do mesmo Bairro Recanto. Nunca imaginava que viria morar no Espírito Santo e aqui ficar tanto tempo como se fosse um paulistano ausente.


Hoje é aniversário dele, sessenta e oito anos de vida, cinquenta de carreira. Depois de catorze anos o cachoeirense ausente volta a fazer um show em Cachoeiro de Itapemirim. Minha sogra, amiga de longa data de Dona Laura e quase “tia” de Zunguinha está lá ouvindo, emocionada, as canções que embalaram o Brasil. Cinquenta anos são quase toda a minha vida. Roberto Carlos, portanto, esteve presente durante toda a minha vida, não diretamente, afinal não posso dizer que tenho sido seu fã ardoroso; mas é inegável a importância dele não só para Cachoeiro como para o Brasil e o mundo. Já não sou mais aquele garoto sonhador que pensava um dia iria conquistar o mundo, o mundo sim é que me conquistou. Por isso, desejo a você Roberto, mesmo que você não me conheça, muitos mais anos de sucesso e de emoções!

2 comentários:

Célia disse...

Adorei!!!! É bom voltar ao tempo e lembrar dos momentos onde ficavamos atentos, curiosos as novidades trazidas pelo nosso irmão....
lembro tbém que me arrumava para ir a escola ouvindo " Uma hora com o rei", na rádio América...boas lembranças!!!!

Anônimo disse...

Paulo,

Hoje visitei seu blog e fiquei muito envolvida pelo seu texto: Detalhes tão pequenos. É de uma sensisibilidade muito grande e de uma volta extremamente saudosa de um tempo que nos faz bem melhores hoje do que ontem.