Translate

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Custo-malefício


Você, assim como eu, deve achar que os chefes do narcotráfico são poderosos e riquíssimos e que a indústria do tráfico de drogas vive atolada em dinheiro e vendendo glamour. Pois bem, a revista Superinteressante deste mês apresenta um infográfico que mostra como, na prática, a coisa não é bem assim. Um estudo feito pela Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro calculou em detalhes, pela primeira vez, a contabilidade do tráfico carioca. Conclusão: mesmo impondo preços, tendo clientes cativos e empregando um exército de 16.000 funcionários, o equivalente a uma montadora de automóveis, a indústria do tráfico de drogas alcança um resultado modesto, equivalente ao faturamento de uma rede de lojas de pneus

Acompanhe agora esse pequeno demonstrativo do balanço anual da indústria de drogas no Rio de Janeiro. Repare que o narcotráfico, como qualquer outra empresa, pode ter seu demonstrativo de desempenho anual resumido numa simples página para que seus “acionistas” fiquem sabendo as quantas anda o negócio.


1 - compra da droga – é o investimento inicial dos traficantes – quanto a droga custa no atacado.

Crack – 4.254 kg/ano a US$ 2,00 o grama.

Cocaína – 8.817 kg/ano a US$ 3,00 o grama.

Maconha – 90.053 kg/ano a US$ 0,15 o grama.

Despesa total com compra: R$ 96,94 milhões/ano.


2- Mão-de-obra – a folha de pagamento da indústria do tráfico é gigantesca, comparável à de grandes empresas. São 213 gerentes de boca sênior. (8 a 10 salários mínimos), 492 gerentes de boca júnior. (5 a 7 salários mínimos), 3064 olheiros (3 a 5 salários mínimos), 9341 olheiros soldados e vapores júnior. (1 a 3 salários mínimos), 279 sem informações (2,4 salários mínimos), 1573 “aviões” (1 salário mínimo) e 1426 embaladores (1 salário mínimo).

Despesa com pessoal – R$ 158,73 milhões/ano.


3- Armas – quando a polícia apreende armas dos traficantes, eles têm de repor o que foi perdido. Assim, é possível calcular quanto gastam anualmente para manter seu arsenal (sem contar despesas com munição e eventuais melhorias nos equipamentos). Metralhadoras - 73/ano a R$ 4.500 cada; fuzis - 214/ano a R$ 22.000 cada; espingardas - 1522/ano a R$ 1.310 cada e pistolas – 8.067/ano a R$ 2.200 cada.

Despesa com armamento – R$ 24,78 milhões/ano.


4- Apreensão – 10% de toda a droga traficada no Rio acaba sendo apreendida pela polícia antes da venda. Essa droga tem de ser reposta, o que gera um custo para os traficantes. (Também há a propina paga aos policiais, que é impossível de estimar – e por isso não consta do estudo).

Despesas com apreensão – R$ 9,69 milhões/ano.


5- Venda – os traficantes revendem seus produtos cobrando até 400% a mais do que pagaram. Por isso, seu faturamento é alto – equivalente ao de um grande laboratório farmacêutico. Crack – 4.254 kg/ano a R$ 12,00 o grama; cocaína – 8.817 kg/ano a R$ 24,00 o grama e maconha – 90.053 kg/ano a R$ 0,60 o grama.

Faturamento – R$ 316, 68 milhões/ano.


Projetos especiais – a indústria do tráfico não é só droga. Os traficantes aproveitam seu poder para controlar operações como a distribuição de gás e a instalação de pontos clandestinos de TV a cabo em favelas. Ninguém sabe ao certo o faturamento desses negócios.


6- Resultado – sobram apenas R$ 26 milhões/ano, o mesmo que uma rede de lojas de pneus. A rentabilidade é de 8,38% do faturamento, um desempenho modesto (os traficantes ganhariam mais deixando o dinheiro no banco). Mas o pior é que o dinheiro ainda tem de ser repartido entre as várias “empresas” do setor (Comando Vermelho, Terceiro Comando, ADA etc.) e as 630 favelas onde atuam.


Faturamento = R$ 316,68 milhões/ano - Custo total = R$ 290,14 milhões/ano. Lucro = R$ 26,54 milhões/ano.


Quer dizer, esse negócio monstruoso que tanto sofrimento traz a milhares de famílias e tantas vidas ceifa a cada ano não consegue arrecadar mais do que uma simples rede de lojas de pneus. Isso é o que podemos chamar de custo-malefício de um negócio que está por trás da maioria das mazelas deste Brasil varonil. E, pelo jeito, tende a aumentar seus tentáculos de norte a sul do país porque nada nos faz crer que seus executivos pretendam se dedicar a outro tipo de atividade, que as drogas deixem de ser um atrativo de peso para a população, em todas as camadas sociais, que cessem as propinas pagas àqueles que deveriam nos defender ou mesmo que sejam criados programas efetivos e eficientes de combate ao tráfico pelas autoridades competentes.

Nenhum comentário: