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sábado, 29 de agosto de 2009

Dicionário Paz e Amor


Olá amigos internautas, aqui é o famoso crítico literário Caio A. Narfa. Lembram da última crítica que fiz sobre o enigmático livro O Pequeno Príncipe, em fevereiro deste ano? Pois bem, assim que terminei aquela crítica tão pesada, me debrucei sobre outro livro igualmente enigmático. Adivinhem! O Dicionário Lula! Pois é, quem diria, aquele que mais precisava consultar um dicionário, ganhou um só pra ele. Confesso a vocês que estou um pouquinho nervoso porque nunca na minha vida fiz crítica literária sobre dicionários, pra falar a verdade, ainda não consegui entender essa proposta de fazer um dicionário sobre uma pessoa humana. Já que falamos em proposta, vou tentar primeiro explicar da melhor forma que eu conseguir a “nhaca” da proposta desse catatau de 672 páginas! Meu Deus, será que o Luiz Inácio vai conseguir ler esse negócio? Não é fofoca não, tá escritinho lá na Veja: “Eu não consigo ler muitas páginas por dia, dá sono. E vejo televisão, quanto mais bobagem, melhor”.

Para uma tarefa tão monumental, fui buscar uma ajudinha com o meu colega Mario Sabino, crítico da Veja. O autor dessa gororoba literária é o diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, um jornalista de paciência espartana porque ficou cinco anos quebrando o coco pra escrever um livro que já estava todo escrito pelo próprio Lula. Explicar isso é mais difícil do que comentar o livro. Quase engulo a revista de tanto ler e reler as explicações do Mario Sabido (Sabino deve ter alguma coisa a ver com saber e com sabido) sobre o processo do Ali (deve ter alguma coisa a ver com Alá) pra transformar 847 discursos, 503 entrevistas e 204 programas de rádio neste livraço que estou equilibrando aqui na foto. O tal Kamel (deve ter alguma coisa a ver com camelo) começou a trabalheira toda em 2004 quando leu um estudo de um acadêmico gringo que analisava a cobertura das eleições americanas, quando o Bush deu o ar da graça. Esse gringo que devia ter um saco de Kamel, quer dizer, de camelo, usou um programa de computador que contava quantas vezes as palavras mais associadas ao ideário republicano ou democrata apareciam nas reportagens de cada veículo nos meses que antecederam o pleito, seja lá que diabo for isso. Quem quiser saber, por favor, leia a crítica do Sabido na Veja de 19 de agosto. O que interessa pra mim é dizer que esse Ali ficou tão fascinado com as possibilidades abertas pelo uso do computador para fazer levantamentos de conteúdo que resolveu usar essa trapizonga tecnológica nos pronunciamentos do presidente com mais conteúdo da história desse país.

Três anos depois o Kamel resolveu enfrentar o desafio de montar um “léxico Lula”, por favor não me perguntem que geringonça é essa com nome de laxante. O fato é que ele chamou o historiador Rodrigo Elias para dar uma força, e depois de cinco meses eles conseguiram juntar num único arquivo de computador tudo o que o Lula falou entre janeiro de 2003 a março deste ano, deviam estar meio sem o que fazer nessa época porque tudo já estava no site da Presidência da República. A lulamania já estava tão impregnada na cabeça do diretor da Globo que ele trouxe mais um infeliz pra patota, o analista de sistemas Wilson Pacheco de Albuquerque. Tarefa do nerd: desenvolver um programa que permitia não apenas contar palavras, mas localizá-las e relacioná-las. Depois de um mês de trabalho o autor chegou a um vocabulário básico das 540 palavras mais usadas pelo presidente (gostaria de saber quantas vezes ele falou “menas”). Por incrível que pareça, o Ali aí ainda não estava satisfeito e amealhou mais uma obstinada, a pesquisadora Ana Frias, para separar os momentos em que Lula “enunciava frases relevantes sobre um assunto de outros instantes em que só citava o vocábulo ou um derivado em contextos desprovidos de importância” - palavras do Mario Sabino, não tenho nada a ver com isso! Não acaba aí não, “foi preciso expurgar termos que Lula mencionou de forma recorrente, mas que o contexto revelou serem irrelevantes – e, na direção inversa, incluir na seleção palavras que, embora menos utilizadas, fossem significativas. Entre elas, “mensalão”, proferida 35 vezes, mas que, por quarenta motivos de uma obviedade ululante, não poderia ficar de fora” – outra vez palavras do Sabino, me incluam fora dessa! Passada toda essa via crucis, o autor chegou aos 345 verbetes que compõem o Dicionário Lula. Alguém, por gentileza, informe ao homenageado que verbete não quer dizer verbo pequeno. Aleluia, o trabalho a partir daí entrou na fase final, que consistiu em mergulhar nas falas do presidente para extrair o que o autor chama de “unidade de sentido” – uma espécie de súmula do que o presidente diz pensar sobre determinado assunto (que coisa mais sem sentido!). Ufa!

Finalmente, amigos da Comunidade de Jó, vale ressaltar que o autor “não opina se Lula está certo ou errado, não aponta se mente ou se atém à verdade. Também não se dedica a coligir os erros de português, as falhas de lógica e as metáforas pedestres do presidente. A intenção é registrar, com o máximo de objetividade e, não menos essencial, organização, o que o presidente diz pensar a respeito de uma série de assuntos, inclusive ele próprio e sua trajetória”. Moral da história: “Lula acaba exposto, por suas próprias palavras, como um brasileiro médio mais ou menos crente em Deus, defensor do modelo tradicional de família e que se vê como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre pobres e ricos”. Lindo!


Bem, amigos internautas, na minha humilde opinião, não consigo ver um resultado prático nessa empreitada de quatro anos trabalhando como um kamelo, para concluir que o nosso presidente é um homem simples do povo, mas que chegou lá. Eu, se tivesse esse saco todo, escolheria um Cartola, um Adonirã Barbosa, um Luiz Gonzaga, um Patativa do Assaré, ou qualquer outro homem simples do povo com muito mais conteúdo disperso por aí (ou por Ali), à espera de alguém para criar um dicionário. Já pensou se a moda pega e ele resolve escrever o Dicionário Sarney?

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