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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Secretina virtual

Estava quieto no meu canto, utilizando meu computador e minha internet de 300k, quando tocou o telefone. Era uma mocinha de voz doce, consultora terceirizada da operadora de Telecom local, oferecendo um pacote de serviços com um mega de transmissão, sem limites de utilização. Ela falava muito, falava tanto que tive a impressão de ser uma gravação. Vez em quando eu fazia alguma pergunta só para ter certeza que a voz doce era real. Por somente R$ 209,00 mensais fixos, o pacote incluía um limite de 200 minutos para ligações interurbanas, o que passasse seria pago como ligação adicional. Fiz umas rápidas continhas mentais e vi que valia a pena, pois a minha conta média mensal era bem próximo disso e eu teria 1 MEGA. Caramba! Perguntei ainda se 1 MEGA seria 1 MEGA mesmo e não os meus 300k atuais que, na realidade, eram 100 k. O plano tinha validade de um ano, mas eu poderia cancelá-lo a qualquer momento e voltar à forma antiga de cobrança. Tudo acertado, ela falou que no próximo sábado viria uma consultora em minha casa com o contrato para ser assinado.

O sábado chegou, mas a consultora não. Tivera um problema, no próximo viria, com certeza. Na quarta-feira, ligou um homem, com voz nada doce, e marcou para trazer o contrato no dia seguinte. Chegou com o contrato e mais dois chips que seriam instalados em dois celulares de minha propriedade para que os dois pudessem conversar completamente “de grátis”. Estranhei, não tinha pedido nada disso, nem mesmo aquela conta de celular para a minha mulher. Eu poderia colocar os chips nos aparelhos que estivessem desbloqueados e tudo bem. Tudo bem, disse eu depois que assinei o contrato e o rapaz da voz nada doce me garantiu que em 72 horas o plano estaria ativado e em quatro ou cinco dias minha internet já estaria turbinada com 1 MEGA!

Passaram-se as 72 horas, oito dias além dos três ou quatro, e eu continuava com os meus humildes 300 k que, na prática, não passava de 100 k. Cansei, resolvi cancelar o plano. Liguei para o número da primeira mocinha, aquela de voz doce. Não estava, hora de almoço. Poderia falar com outra pessoa? Não, só com ela mesma. Sete tentativas mais tarde a voz doce já não soou tão doce quando eu disse que queria cancelar o plano. “Não é comigo, ligue para o 1257!” Ainda paciente liguei para o 1257.

- Oi!
- Por favor, eu gostaria...
- Bem-vindo, eu sou a sua secretária virtual. Fale ou disque pausadamente o número do telefone que deseja atendimento...

Preferi discar, tenho a impressão de ser algo idiota ficar conversando com uma gravação.

- Tem certeza que o número está correto? – perguntou a secretina virtual.

Não estava, havia esquecido o DDD. Disquei de novo, pausadamente. Ela não reconheceu o número, pediu o CPF. Comecei a discar, mas ela disse que havia alguma coisa errada com o número, pediu para digitar 4. Eu digitei 4 e ela repetiu: “3” e me mandou para outro lugar. Esperava uma atendente de carne e osso, mas apareceu outra gravação e pediu para eu falar pausadamente o que desejava. Pausadamente eu falei: cancelamento de plano. “Ah, entendi – disque 5.” Disquei 5 e ela repetiu: “4” e me mandou para outro lugar. Mandei-a para aquele lugar e desliguei. Troquei de telefone e disquei novamente 1257 e lá estava ela de novo, a secretina eletrônica! Desta vez preferi falar pausadamente o número do meu telefone. “Ah, entendi, mas esse número é de telefone fixo e este serviço só atende telefones móveis, ligue para 1359”. Voltei a ligar para a mocinha de voz doce, novamente ela não estava, atendeu outra, de voz apática. Contei a história toda de novo e disse que queria cancelar o maldito plano.

- O senhor tem de ligar para o 1257.
- Eu já liguei, não tem ser humano nenhum lá, não suporto mais falar com uma máquina cretina.
- Sinto muito, mas o cancelamento só pode ser feito por esse número.

Adiantou reclamar? Lá estava eu novamente frente a frente com a secretina virtual. Vinte e sete ou vinte e oito teclas depois, consegui esbarrar com uma voz de homem “on-line”. Contei mais uma vez a mesma história e implorei para ser atendido por um ser humano de carne, osso, varizes, laringite, seja lá o que for, mas humano. Com toda delicadeza ele me explicou que eu deveria ligar para o 1257 novamente e falar o número do chip que eu havia recebido, um numerozinho de 44 algarismos. Quando cheguei ao décimo, a secretina disse “não entendi”, a ligação caiu. Desisti, tomei dois Neosaldinas e deitei num quarto escuro.

Três dias seguidos na mesma rotina e finalmente consegui encontrar a mocinha de voz doce que havia começado tudo. Com a voz mais doce ainda ela teve a coragem de dizer que já havia cancelado o plano na primeira vez que eu havia solicitado, apenas esquecera-se de avisar-me. Porém, em todo o caso, era melhor eu ligar no 1257 para confirmar. Segurei o palavrão raspando na garganta.

No dia seguinte peguei a cópia do contrato mais os dois chips e fui direto para Cachoeiro na captura da mocinha de voz doce. Procurei por ela na recepção do prédio da operadora e fui informado que ela ficava num pequeno posto mais adiante, era só descer e ver a placa no portão, não tinha erro. Fui e voltei duas vezes e nada de achar a tal placa. Perguntei numa barbearia e me indicaram o portão da casa, a placa mais parecia um “bottom”, de tão pequena. Aguardei uns cinco minutinhos até aparecer a mocinha de voz doce, que não era tão mocinha e nem sequer tinha a voz doce. Devolvi os chips e sai com a cópia do contrato com um enorme “CANCELADO” escrito à mão. Só então entendi o que significava o tal 1 MEGA! Uma megapaciência! Infelizmente eu só tinha uma paciência de 300k, na prática, 100k.

Um comentário:

lwmaurano disse...

É por essas e mais outras que não me atrevo a ser assinante de mais nada. Nem de revista, nem de jornal, de Nada! Porque na hora de assinar, é tudo cor de rosa. Mas depois, haja paciência se as coisas não sairem como eles prometem. E o pior é que quase nunca saem...
Adorei esse seu artigo-desabafo. Lí um outro depoimento, nessa mesma linha, num blog de Portugal. Era sobre uma reclamação à companhia telefônica de lá. As desventuras desse português deixavam as suas no chinelo! O artigo era realmente hilário. Da gente rolar de rir! Se não fosse tão trágico (para que passa por isso), poderia ser usado como texto de comédia. E das boas!...
Abraços,
Léa (São Paulo)