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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Caixa-preta e Cuba Libre

Caixa-preta todo mundo conhece, é aquela caixinha (que não é preta) sobrevivente em meio aos destroços dos aviões acidentados e que contém a gravação das últimas conversas e procedimentos dos pilotos; Cuba Libre, nem todos. Para quem não conhece, é uma bebida à base de rum claro e refrigerante de cola mais o suco de meio limão, sucesso dos anos 60. E o que tem a ver caixa-preta com Cuba Libre? Aparentemente nada, é apenas a forma que eu encontrei de relacionar duas entrevistas muito interessantes que foram publicadas nas edições 2134 e 2133 da revista Veja, de outubro. São elas: Caixa-preta da cirurgia, com o Dr. Ben-Hur Ferraz Neto, chefe do Programa de Transplantes do Hospital Albert Einstein, e As três mentiras de Cuba, com Yoani Sánchez, a blogueira cubana que diz que as chamadas “conquistas da revolução” são um mito.

Ben-Hur, 22 anos de carreira e 2 000 operações no currículo, tem propostas revolucionárias para melhorar a prática da medicina no Brasil. A principal delas é a de os grandes hospitais instalarem "caixas-pretas" nas salas de cirurgia, pois elas têm muitas similaridades com o cockpit de um jato comercial. Além de elucidar erros médicos, um banco de informações de imagens, sons e dados de milhares de cirurgias seria de incomensurável valor para os profissionais médicos, para os pesquisadores e estudiosos. Ele reconhece, porém, que essa ideia assusta os médicos e precisa de um tempo de maturação para ser aceita. O grande beneficiado seria o paciente, muitos prefeririam ser operados em um hospital com caixa-preta na sala cirúrgica do que em outro que não possua esse item adicional de segurança. Submeter-se a uma cirurgia é a maior demonstração de confiança que um ser humano pode dar e é justo que em um momento desses tenha a segurança de saber que tudo está sendo gravado. Bela ideia, é a tecnologia de ponta mais uma vez ajudando a medicina a evoluir.

Já Yoani, 34 anos, foi convidada a falar no Senado brasileiro e a comparecer ao lançamento do seu livro De Cuba com carinho, uma coletânea de textos publicados por ela no blog Generación Y(desdecuba.com/generaciony), o primeiro a ser criado em Cuba, mas que só pode ser acessado fora da ilha. Sua vinda, entretanto, depende da improvável permissão do governo cubano. Em discurso a respeito do seu pedido de visto, o senador Eduardo Suplicy citou o que considera três conquistas da revolução cubana: a alfabetização, o aumento da expectativa de vida e a medicina de qualidade. Pois bem, na entrevista ela joga por terra essas três conquistadas apontadas, classificando-as como as três mentiras de Cuba. Antes da revolução Cuba já ostentava um dos menores índices de analfabetismo da América Latina, uma das primeiras ações do governo autoritário de Fidel Castro foi ensinar o restante da população a ler e escrever. Para ela, a questão principal hoje não é a taxa de alfabetização e sim o que se lê depois que se aprende. As cartilhas usadas na alfabetização só falam da guerrilha em Sierra Maestra ou do assalto ao quartel de Moncada pelos guerrilheiros barbudos. Tudo o que se ensina nas escolas é o marxismo, o leninismo, essas coisas. Não se sabe o que acontece no resto do mundo. A primeira vez que ela viu imagens da queda do Muro de Berlim foi em 1999, dez anos depois do fato ocorrido. Afirma também que o aumento da expectativa de vida, é uma estatística oficial, sem comprovação, que não resistiria a um questionamento mínimo feito por uma imprensa livre. Pelo que ela vê nas ruas, é difícil acreditar que os cubanos possam sobreviver tantos anos. Finalmente, quanto à medicina avançada, ela diz que o país construiu hospitais e formou médicos de boa qualidade na época em que recebia petróleo e subsídios soviéticos. Com o fim da União Soviética, tudo isso acabou. O salário mensal de um cirurgião não passa de 60 reais. A profissão de médico é hoje a que menos pode garantir uma vida decente e cômoda. A carência nos hospitais é trágica. Quando um doente é internado, todos os seus familiares migram para o hospital. Precisam levar tudo: roupa de cama, ventilador, balde para dar banho no paciente e descarregar a privada, travesseiro, toalha, desinfetante para limpar o banheiro e inseticida para as baratas, sem esquecer também os remédios, a gaze, o algodão e, dependendo do caso, a agulha e o fio de sutura. Para quem vê Cuba como um exemplo, ela convida a ir para lá, sentir na pele como eles vivem. Fico imaginando convidados ilustres como Chico Buarque, Oscar Niemeyer, José Saramago, José Dirceu e o próprio Eduardo Suplicy, vivendo não na parte turística da ilha, com todo conforto, mas no lado pobre e real, submetendo-se a uma cirurgia nos hospitais citados por ela.

Yoani Sánchez abriu a caixa-preta de Cuba, graças à tecnologia da internet, tecnologia essa negada à maioria do povo, e desfez um dos maiores mitos cubanos: a medicina avançada. Em situação bem diferente, o Dr. Ben-Hur, cercado de tecnologia, tem a coragem de propor uma caixa-preta nas salas de cirurgia dos melhores hospitais brasileiros. Pena que, mesmo que ele consiga levar adiante sua proposta, a porcentagem de beneficiados será bastante pequena em relação à grande maioria de pacientes dos hospitais brasileiros espalhados por esses rincões do país. Neste ponto, caixa-preta e Cuba Libre se equivalem, basta ver a situação dos nossos hospitais públicos e mesmo privados, não tão diferente dos hospitais cubanos.

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