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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O fim do mundo

Acho que foi em 1980 ou 1981, eu estava viajando pelo sertão da Paraíba e naquela época havia um desses falsos profetas que vivem prevendo o fim do mundo. Não me recordo mais o nome dele, sei apenas que ele chamou a atenção de todo o povo do nordeste e chegou até a aparecer no Jornal Nacional. Cabelo e barba compridos, bata longa de algodão cru, ele arrastava uma pequena multidão nas suas andanças, alertando a todos que abandonassem tudo porque o fim estava próximo e com data marcada, justamente o dia em que eu estava em Pocinhos, cidade natal do meu pai, lá no sertão do Cariri. O tal profeta tinha dito que o fim do mundo viria com um dilúvio. Imagine vocês o poder de persuasão necessário para convencer os sertanejos paraibanos, em meio a uma seca que se arrastava por vários meses, de que a destruição final viria das águas. No dia fatídico eu levantei bem cedo para não perder um minuto sequer do apocalipse. Levantar cedo é fácil quando o sol já começa a assar sua cabeça antes das seis da manhã. Aquele dia, no entanto, amanheceu diferente. O sol resolvera não dar o ar da graça, deixando o tempo levemente nublado. Nuvens escuras há muito esquecidas apareceram acanhadamente no céu e foram tomando corpo, junto com elas o temor da maioria dos pobres mortais, a honra e a glória do falso profeta. À medida que as nuvens se encorpavam, um princípio de pânico ia se espalhando pelo sertão. Eu tentava o quanto podia acalmar as pessoas mais próximas, agarradas a seus terços, pedindo perdão ao criador. Quando começaram os primeiros pingos da chuva, o pânico já havia se alastrado. A casa do falso profeta, em Campina Grande, estava cercada dos devotos antigos e dos pecadores de última hora. A chuva caiu e passou tão rápido quanto a honra e a glória do falso profeta. Mal o último pingo tocou o solo, o sol reapareceu mais forte do que nunca. O dilúvio, coitado, não chegou nem a molhar o chão ressequido do Cariri. O mundo não acabou, o falso profeta quase foi linchado pelos pecadores de última hora e, principalmente, pelos antigos devotos que haviam lhe entregue tudo o que tinham como sinal de arrependimento.

Lembrei-me disso por causa da matéria de capa da revista VEJA desta semana: O fim do mundo em 2012. Desde os 14 anos o escritor Patrick Geryl se prepara para o fim do mundo que acontecerá no dia 21 de dezembro de 2012. Com 54 anos, nunca se casou, não tem filhos e está construindo em Sierra Nevada, no sul da Espanha, habitações capazes de resistir ao cataclismo que ele acredita destruirá o planeta. Ele e seu grupo pretendem levar 5.000 pessoas para um local que resistirá aos horrores do apocalipse. Por que 2012? A explicação está numa confluência de achados proféticos: a Terra será destruída com a volta do planeta Nibiru, em 2012; o calendário dos maias acaba em 21 de dezembro de 2012; os eternos intérpretes de Nostradamus; os especialistas em mirabolâncias geológicas e astronômicas com um vasto cardápio de catástrofes como a reversão do campo magnético da Terra, mudanças no eixo de rotação do planeta, devastadora tempestade solar e derradeiro alinhamento planetário em que a Terra ficará no centro da Via Láctea – tudo em 21 de dezembro de 2012. Embalado por essas evidências pouco evidentes, Hollywood, é claro, não perdeu tempo. Dia 13 de novembro ocorrerá a estreia mundial de 2012, uma superprodução que conta a saga dos que tentam desesperadamente sobreviver à catástrofe final. O fim do mundo de uns é o começo do lucro de outros. No site da Amazon constam 275 livros sobre 2012, também já existem lojas, nos Estados Unidos, vendendo produtos para o apocalipse, como pastilhas purificadoras de água e potes de magnésio, bons para acender o fogo.

Talvez não exista profecia mais malsucedida na história da humanidade do que essa do fim do mundo, falhou em 100% das vezes, mas continua a se espalhar. A revista apresenta um quadro com os fins do mundo e seus fins, ao qual eu acrescento o ano de 1980 ou 1981, com o falso profeta paraibano. Por que, então, o fim do mundo é uma ideia que nos aterroriza e, paradoxalmente, a que mais nos consola? São apresentadas teorias científicas para explicar o fenômeno, mas eu não entrarei aqui nessa discussão, quem estiver curioso é só ler a revista. Caso algum de vocês esteja desapontado porque o mundo vai acabar justamente antes da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil, aconselho ler a matéria para não ir acusando Deus de ter deixado de ser brasileiro. Para os que já chegaram a desespero tamanho que não têm nem coragem de abrir a revista, posso tranquilizá-los, pois nenhuma das hipóteses do fim do mundo mencionadas na reportagem faz sentido. O planeta Nibiru nem existe. A civilização maia tinha três calendários: o divino, o civil e o de longa contagem, que termina em 2012 e os maias nunca afirmaram que isso era o fim do mundo. Uma mudança no eixo de rotação da Terra é impossível, garante David Morrison, cientista da Nasa. Reversão do campo magnético da Terra? Acontece de vez em quando, de 400.000 em 400.000 anos, e não causa nenhum mal à vida na Terra. Tempestade solar? Também acontece e em nada nos afeta. Derradeiro alinhamento planetário em que a Terra ficará no centro da galáxia? Não haverá nenhum alinhamento planetário em 2012, muito menos existe alguém que saiba onde fica “o centro” da galáxia.

Mais tranquilo agora? Então pegue a Bíblia Sagrada e leia o último livro do Novo Testamento, Apocalipse, também chamado A revelação de Deus a João. Ao contrário do que muita gente pensa, apocalipse não quer dizer “fim do mundo” e sim “revelação”. Foi escrito durante um tempo em que as autoridades romanas estavam perseguindo os cristãos porque eles não prestavam culto ao imperador romano, que chamava a si mesmo de “Senhor” e “Deus”. João o escreveu quando estava preso na ilha de Patmos por ter anunciado a Boa-Notícia do Evangelho e era direcionado para as sete igrejas da província romana da Ásia, numa região que hoje faz parte da Turquia. Para os cristãos, o livro possui a pré-visão dos últimos acontecimentos antes, durante e após o retorno do Messias. A maior parte do livro é escrita em linguagem simbólica, o que dá margem a diversas interpretações por parte de cristãos, não cristãos, ateus, curiosos e palpiteiros em geral. O autor discorre sobre as consequências do acatamento ou não dos apelos do Novo Testamento (“Voltem-se a Deus”, “arrependam-se dos seus pecados”), dividindo os que se converteram e os que se negaram a viver com ele. Este é um dos livros da Bíblia que mais tem provocado polêmicas e atiçado a curiosidade daqueles que vivem ansiosos para saber quando será o dia do Juízo Final. Eu, como cristão, busco por meio da Palavra, tornar-me a cada dia uma pessoa melhor, sem preocupar-me com previsões de quando esse dia chegará. Está lá em Mateus 13.32-33: “- Quanto ao dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai. Vigiem e fiquem alertas, pois vocês não sabem quando chegará a hora”. Mais não falo porque só este parágrafo já é motivo para discussões intermináveis que podem se arrastar até depois de 21 de dezembro de 2012.

Um comentário:

Anônimo disse...

Assim falou Paulo Araújo!
O que vive no mar é Marujo.
O que vive no ar é Araújo!
Abraços, Manoel Manhães
mcmanhaes@yahoo.com.br