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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Conto de Natal

Bonezinho Vermelho, também conhecido como Nove Dedos, costuma ser muito emotivo no último mês do ano, época em que o espírito natalino pede passagem ao espírito de porco e invade seu coração. Este final de ano, porém, ele encontra-se extremamente revoltado com aqueles que tentam manchar o seu reino praticando livremente a corrupção bem pertinho do seu quintal. Num passado recente teve muito trabalho para sair-se limpo de um mar de lama que, mensalmente, ameaçava atingir sua fortaleza. Bonezinho tem ainda a mania de chamar o país que governa de seu reino e o local onde despacha de sua fortaleza. Chegou a propor que a corrupção fosse tratada como crime hediondo e que os corruptos fossem definitivamente encarcerados.

Nem sempre Bonezinho foi assim tão radical com as propinas que corriam soltas reino afora, muito menos contra aqueles que delas se beneficiavam. Num passado recente, integrantes do Partido do Boné usaram e abusaram do dinheiro sujo, transportado em malas e até mesmo em cuecas. Bonezinho, entretanto, nada viu, nada ouviu, nada fez para condenar seus correlegionários boneleiros. Agora, a situação é bem diferente porque ele está de olho na sua sucessão (pena não viver eu numa monarquia, ou ter poderes absolutos – queixou-se a seu colega bolivariano – senão, poderia como você, desfrutar o poder perpétuo!).

Como não poderá contar com um terceiro mandato, empenha-se ferrenhamente na eleição de sua colega de boné, uma mulher tão simpática quanto um pé de chuchu pendurado numa parede de cimento cru. Seu cirurgião plástico eleitoral tem feito de tudo para transformar essa dama de ferro enferrujado na melhor opção de continuidade da era Bonezinho Vermelho. Depois de uma maratona de mais de seis meses acompanhando Bonezinho em tudo quanto é evento, inauguração de obras não terminadas, comícios disfarçados de fiscalização de outras obras, finalmente ela conseguiu dar um sorriso amarelo, bem distante do sorriso vermelho característico dos companheiros boneleiros.

Bonezinho sabe que sua popularidade será capaz de trasnformar esse mico eleitoral em fenômeno das urnas, tanto que, após assistir a pré-estreia do filme encomendado a um cineasta chapa branca e bancado por empresas interessadas na continuidade do seu governo, foi às lágrimas. “O filho do B...”, que bem poderia ser “O filho da P...”, mostra a trajetória santificada de Bonezinho no tempo em que ele era pedra e não vidraça. Tudo corria bem até aparecer um ramo de arruda no meio do caminho.

Zé Roberto sempre teve um fraco por aparelhinhos eletrônicos. Essa idéia fixa quase foi a causa de sua ruína política alguns anos atrás quando, de tanto apertar botõezinhos, acabou fraudando o painel de votações do Senado e, por isso, foi cassado. Passado o período de ostracismo, reapareceu como governador da província próxima à fortaleza de Bonezinho. Conviviam muito bem, pois o Bonezinho atual era bem diferente do que fora no passado. Sob nova roupagem, Zé Roberto chegou até a ter sua popularidade em alta naquela província. Pena que a mania de adoração de aparelhinhos eletrônicos continuava latente, deixando-o ser flagrado pelas lentes inocentes da empresa Delação Premiada, escarapichado num sofá, recebendo um simplório pacotinho de dinheiro. Outras cenas surgiram, num efeito cascata, mostrando correlegionários recebendo e guardando quantidades absurdas de dinheiro em bolsos de calças, paletós, bolsas e até meias. O mundo desabou para Zé Roberto que, justiça seja feita, tinha a melhor das intenções. Amante do cinema e dos pobres, ficara entusiasmado com o filme “A Fantástica Fábrica de Chocolotates”. Seu sonho era montar “A Fantástica Fábrica de Panettones”, com a única intenção de distribuir toda a produção aos pobres da sua província.

Esta, portanto, a principal razão da ira de Bonezinho Vermelho. Tudo corria bem no seu reino, popularidade nas alturas, podia dedicar-se ao que mais gosta: viagens pelo mundo afora com resultados pífios para a política externa do seu governo. Conseguira que o presidente-índio de um país vizinho confiscasse uma empresa nacional de energia ali instalada, que o presidente-padre de outro aumentasse o valor do pagamento pelo uso de eletricidade de uma usina que não construíra, que outro presidente, amigo do bolivariano-mor, fizesse uma construtora nacional pagar uma pesada multa e quase fosse expulsa do país e, no ápice de atuação de seus boneleiros responsáveis pela política externa, dessem abrigo na embaixada de seu país, a um chapeleiro maluco, ex-presidente deportado de uma república das bananas. Justo agora, quando ele se dedica a alinhavar a candidatura do seu pé de chuchu, enquanto decide que destino dar ao assassino italiano recebido como herói pelo seu ministro da injustiça, esse ramo de arruda aparece no seu caminho.

Moral da história: “Nossos corruptos são perseguidos políticos e merecem proteção, os corruptos dos outros são abomináveis e merecem ser castigados pelos crimes hediondos que praticam”.

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