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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ídolos


Existe fato mais inusitado do que encontrar um ídolo da infância quando você sai para passear com o seu cachorrinho? Estava lá, despretensiosamente, eu e o Bili, passeando em Marataízes quando, ao passar em frente ao Praia Hotel, percebo um movimento diferente na entrada do prédio. Muitos homens conversando e logo identifico o Paulo Cesar, ex-goleiro do Botafogo e da Seleção Brasileira e atual comentarista da TV Gazeta, de Vitória. Logo reconheci alguns jogadores da seleção brasileira de futebol de praia, Beach Soccer, para os mais globalizados. Junior Negrão, Benjamim, Jorginho... Fui entrando como quem não quer nada, o Bili junto comigo. Sentei numa cadeira da varanda com vista para a praia e fiquei jacarezando com o meu cachorrinho deitado tranquilamente aos meus pés. Passou um jogador perto de mim e perguntei a ele se haveria jogo aqui, respondeu em espanhol que não, seria numa cidade um pouco mais à frente. Perguntei se seria contra a Argentina. “No. Uruguay”.

Achei mais prático conversar diretamente com o Paulo Cesar que, muito gentilmente, esclareceu que o jogo seria no dia seguinte, em Presidente Kennedy, mas eles estavam hospedados em Marataízes porque não havia hotel próximo à arena. Comentávamos o fato de uma cidade hoje tão em evidência aqui no sul do Espírito Santo como Marataízes receber as duas seleções e não ter feito nenhum esforço para promover o jogo na cidade, num dos melhores verões que ela já teve nos últimos anos.

De repente, minha atenção se voltou completamente para uma mesa do restaurante onde estava ninguém mais ninguém menos do que o Claudio Adão, acompanhado por um repórter da TV Gazeta e por outro jogador.

Pausa.

Os mais novos talvez não se lembrem, mas como não sou um deles, fez-se necessário a pausa porque ali na minha frente estava um dos maiores ídolos da minha infância. Tinha que chegar até ele, cumprimentá-lo, falar das alegrias que ele me deu e carimbarmos uma foto juntos. Mas como? Sem câmera e com aquele cachorrinho peludo que, fatalmente, não poderia entrar no restaurante. Fiquei matutando. Enquanto matutava, o Paulo Sergio juntou-se a eles. Tomavam um chopinho descontraído, vez ou outra, falando aos celulares. Foi aí que o garçom trouxe uma bandeja com peixes e, rapidamente, calculei que daria tempo de ir até em casa, deixar o Bili e pegar a câmera. E lá fomos nós!

Claudio Adão começou a carreira aos 17 anos no Santos (meu time do coração, daí a pausa) ao lado de Pelé e mais uma porção de craques. Já naquela época, dirigentes, torcedores, jornalistas, palpiteiros, profetas do futebol e treinadores de mesa de boteco garantiam unanimemente que ele seria o novo Pelé e herdaria a camisa do rei. Era habilidoso, tratava a bola com carinho, sendo ao mesmo tempo atrevido e sabia como ninguém fazer gols, não importando como. Veloz, cheio de reflexo, com a bola rolando na grama ou pelo alto, de direita ou de canhota, na precisão dos chutes e das cabeçadas vencia os goleiros com facilidade e já nascera artilheiro. Jogou no Santos até 1976, quando se transferiu para o Flamengo. Foi campeão paulista em 1973, numa das finais mais bizarras do futebol, contra a Portuguesa. O jogo terminara empatado e fora para os pênaltis. O Santos foi feliz em suas cobranças, mas a Portuguesa perdeu duas e o famoso árbitro Armando Marques, mostrando que era bom de apito, mas ruim de matemática, declarou o Santos campeão antes do final das cobranças, sem perceber que a Portuguesa ainda tinha chance de empatar a série em 3 a 3, caso o Santos perdesse as duas últimas e ela as convertesse. Resultado: declarou os dois como campeões paulistas daquele ano!

Cheguei, sem o Bili, mas com a câmera. Sentei na varanda e fiquei matutando em como dizer ao Claudio que ele, com certeza não sabia, mas tinha dado muitas alegrias a um menino pobre, sem muitos divertimentos na época, mas que vibrava a cada jogada e a cada gol seu, vistos nos video-tapes dos jogos e, quando a sorte sorria, nas arquibancadas, principalmente as do Pacaembu. De repente levantei, pedi licença ao Paulo Sergio por interrompê-los, mas precisava cumprimentar aquele cara que tantas alegrias havia me dado na infância. Apertei sua mão, nos abraçamos, falei que morava em São Bernardo na época e que ele fora um dos motivos para eu me apaixonar logo cedo por futebol. Ele, um menino também, jogando ao lado do rei do futebol mundial. Na sua humildade ele reconheceu que tinham um time muito bom na época. Não jogaria no dia seguinte, pois era técnico, mas seu filho, Felipe Adão, sim. Já ao Paulo Sergio disse que devo tê-lo xingado muito quando ele jogava contra o Santos e fechava o gol. Na emoção, esqueci de dizer que, na fabulosa seleção de 1982 do saudoso Telê Santana, era ele quem deveria ser o goleiro titular, sem nenhum desmerecimento ao Valdir Peres que não fora nada feliz nos jogos contra a Rússia e a Itália. Coisas do futebol.


Coisas do destino, também. Num jogo pelo campeonato paulista, Claudio Adão sofreu uma fratura no pé direito. Começaram aí as desconfianças que o perseguiram durante toda a sua carreira, pois muitos não acreditavam que ele pudesse manter-se em forma, com os habituais talento e oportunismo. Em 1976 ele foi transferido para o Flamengo, cansou de fazer gols ao lado de Zico, foi campeão brasileiro em 1980, mas mesmo assim, a cada contusão, voltavam as perseguições. No mesmo ano foi para o Botofogo, depois para o Áustria Viena, voltou para o Fluminense, iniciando uma peregrinação por vários clubes do Brasil e do exterior, entre eles: Vasco, Al Ain (Arábia), Flamengo, Benfica (Portugal), Bangu, Bahia, Cruzeiro, Portuguesa, Corinthians, Sport Boys, Campo Grande, Ceará, Santa Cruz, Rio Branco, Desportiva e Volta Redonda (cidade natal), em 1996. Jogou pela seleção brasileira de 1975 a 1976. Sua vida de cigano do futebol, porém, nunca apagou em mim a imagem do craque, de uma época quando nós, torcedores, não tínhamos a mínima ideia de quanto faturavam nossos ídolos.

Muitos novos Pelés surgiram depois dele, não só no Santos. Curioso é que justamente quando um deles retorna ao Brasil para buscar a felicidade e o futebol que tinha no mesmo Santos onde começou e a quem nunca vi jogar nos estádios, eu encontre aqui em Marataízes um ídolo à moda antiga, sem montanhas de euros nem patrocinadores disputando um espaço até na sua cueca. Os tempos são outros, é claro, espero que Robinho reencontre a alegria, o futebol, as pedaladas e a seleção. Quanto a mim, estou mais do que satisfeito por aparecer entre esses dois grandes talentos do esporte bretão!






















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