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sábado, 5 de junho de 2010

Saudoso trovador


Estava eu na Heliograf, já quase de saída, quando apareceu por lá o Evandro Moreira, escritor cachoeirense dos mais produtivos do Brasil. Veio fazer uns acertos para a publicação de mais um de seus incontáveis livros. Já havíamos trocado alguns e-mails, mas não nos conhecíamos pessoalmente. Por isso, fiz questão de apresentar-me, o que bastou para iniciarmos um gostoso bate-papo. Evandro Moreira é assim, não só um exímio escritor como um grande falador, contador de histórias, prosador dos mais interessantes. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ele acredita que existem muitos jovens talentosos tentando heroicamente elevar a vida cultural de Cachoeiro de Itapemirim, a outrora “Atenas Capixaba”. Presenteou-me com algumas edições da revista “Cachoeiro Cult” e ainda me deu uma carona bastante animada pela sua conversa calma, cheia de memórias de sua cidade natal, a capital secreta do mundo.

Já em casa, peguei uma das revistas e passei a devorá-la aos pouquinhos como quem se senta à mesa e come sem pressa a refeição preparada com carinho por quem ama o que faz. O que tanto chamou minha atenção foi Nelson Sylvan, o decano dos trovadores, merecedor dessa edição especial, de novembro de 2008, mês em que completara 98 anos. Esse senhor simpático, autor de belas trovas, como “Meu quentinho Cachoeiro / Eu vou-me embora daqui. / Este calor eu não aguento, / Estou sedento / Eu vou pra Guarapari”, foi eleito para a Academia Cachoeirense de Letras, em 1989; presidiu o Centro Operário e de Proteção Mútua durante mais de 30 anos; filiou-se ao Integralismo em 1932; nos anos 90 tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico, que ajudou a fundar e, em 2006, recebeu o título de Decano dos Trovadores, pelo Instituto Histórico e Geográfico de Cachoeiro de Itapemirim. Bom, mas para falar dele, nada melhor do que aqueles que o homenagearam. Cito abaixo as impressões de alguns deles, pois o espaço não me permite citar a todos.

Cláudia Sabadini – “...um poeta que, aos 98 anos, busca nos fragmentos de suas memórias inspiração para continuar escrevendo e criando. Nelson me conta que não tem medo de morrer e, na sua opinião, quem não tem medo da morte vive mais; pelo menos não morre de medo. ‘Não tenho medo não, mas pode ser que na hora me borre todo’. Nelson é um homem do seu tempo, atento a tudo, ocupado com suas tarefas diárias, dentre elas a presidência do Centro Operário.”

Higner Mansur - “Aí a fotografia de corpo inteiro do homem que completou 97 anos e ainda olha o movimento; aprecia a algazarra das crianças, em vez de se entediar com elas; que vê o sol brilhante e o céu azul; que cuida da casa; que observa a chuva e que trabalha; que trata dos passarinhos e que vê a vida repleta de alegrias e de coisas doces. É na história formidável desse homem, homem que ainda se constrói e sonha, que muitos de nós se fortalecem e acreditam que ainda haverá futuro com homens públicos melhores.”

Renata Mofatti – “Político militante, hoje observador mordaz, se identifica com o integralismo: movimento político de que participou tempos atrás. Foi contemporâneo e companheiro de Rubem e Newton Braga. Quando adulto, no Centro Operário, suas pernas na incansável lida, subiam e desciam as escadas. Eternamente modelo de vida e exemplo de um homem de verdade!”

Marília Mignoni – “Sempre admirei aquele homem culto, educado, gentil, que me recebia com tanta distinção e simpatia, sempre acompanhado da dona Lucila, nas festas do Centro Operário. O que me impressiona no comportamento dele é sempre a delicadeza, a cultura e a capacidade de fazer trovas apimentadas. Ele se transformou em memória viva de Cachoeiro porque é portador de lembranças incríveis da nossa cidade.”

Evandro Moreira – “Nelson é um exemplo de trabalho, de amigo e de amor às coisas de Cachoeiro. Que viva mais duzentos anos!”

Pois é, Evandro, mas quis Deus levá-lo mais cedo, um ano antes de completar um século de vida. Como ele mesmo dizia, a vida é para ser vivida. Viveu-a longa e intensamente e deixou saudades.

De 7 a 13 de junho, acontecerá a III Bienal Rubem Braga, na Praça Jerônimo Monteiro, em Cachoeiro de Itapemirim. Um bom momento para o povo cachoeirense lembrar-se daquele que nunca se esqueceu da sua terra, um bom momento também para ser lembrado pelos organizadores do evento. Vamos conferir!

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