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sábado, 8 de setembro de 2012

Sem diário e sem paixão


Gente do céu há quanto tempo eu não apareço por aqui pra fazer mais uma crítica de clássicos literários! Pra quem não me conhece sou Caio A. Narfa, crítico literário e instrutor de yoga e artesanato nas horas vagas. Valeu a pena tanta espera porque vocês não acreditam no livro que escolhi para a crítica de hoje. Best-seller, 14 milhões de exemplares vendidos, repleto de comentários de tudo quanto é jornal dos “esteites” como esse famosíssimo Greenville News da Carolina do Sul: “Diário de uma Paixão vai abrir um buraco no seu coração... quem não se debulhar em lágrimas da primeira à última página tem um coração de pedra.” Meu Deus, quanta responsabilidade fazer a crítica desse tesouro! Ainda bem que tenho experiência acumulada depois das minhas duas últimas críticas dos clássicos universais O Pequeno Príncipe e Dicionário do Lula aqui mesmo neste blog.

Depois de ler esse comentário, coloquei um babador no pescoço e um balde do lado da minha poltrona para me precaver, afinal, milhares de pessoas ficaram desidratadas de tanto que choraram ao ler a inextrincável obra do autor americano Nicholas Sparks. E ponha inextrincável nisso! Que romance de difícil compreensão por causa da trama emaranhada, o número excessivo de personagens e o ineditismo do tema! Nem tente adivinhar o que acontecerá na próxima página porque nem a pitonisa do Oráculo de Delfos poderá lhe ajudar. Como já tenho a minha expertise nos labirintos das mais complicadas obras literárias posso ajudá-lo, mas preciso da sua colaboração. Tire os fones de ouvido, desligue o celular e saia do Facebook. Concentração total agora.

Como o livro tem personagens demais, vamos focar apenas dois: o romântico lambuzado em mel Noah Calhoun e a espevitada Alisson Nelson. Como o nome da fulana não tem nenhuma gota de feminino, vamos chamar a lambisgoia pelo apelido, Allie. Não, amorzinho, não é Alien, o 8º. Passageiro, aquilo lá é um filme! Voltando, os adolescentes Noah e Allie se conheceram em 1932, durante uma festa qualquer num lugarzinho country qualquer do país do Bush. Daí, rolou uma transazinha muito da mixuruca debaixo de uma árvore com as estrelas por testemunha. Agora atenção para a sacada genial que jamais nenhum de vocês poderia supor: o pobre do Noah era pobre mesmo e a tal Allie riquíssssima. Aqui eu paro para fazer um apendicite, ou seja, um apêndice bem pequeno – a que ponto chega a criatividade desse consagrado escritor que consegue sempre surpreender-nos com sua saídas imprevisíveis. Papai e mamãe Nelson não permitiram o namoro dos dois (naquela época era assim que eles chamavam esse negócio de um ficar com o outro). Como a peruazinha estava ali de passagem, vinda de outro lugar qualquer do país da Disney, papai e mamãe levaram a travessinha pra casa sem dar satisfação alguma ao descamisado Calhorda, ou melhor, Calhoun.

Estão conseguindo acompanhar? É difícil mesmo, mas não desanime. Depois desse encontro que não deu em nada os jovens carentes ficaram sem se ver durante 14 anos e o mancebo foi combater na 2ª. GM (não, coraçãozinho, não é a fábrica de carros, é a segunda Guerra Mundial). Terminada a guerra o ex-combatente voltou para a merdinha de cidade onde nasceu e como não tinha nada a fazer a não ser se masturbar o dia inteiro, cismou de reformar uma enorme casa de madeira que consumiu metade da Mata Atlântica. Ficou lá serrando madeira, pregando pregos e lendo poemas do livro Folhas da Relva de Walt Whitman para sua cachorrinha de estimação.

Como já diria o nosso filósofo marijuana Cazuza, o tempo não para. Não parou mesmo, tanto que a piriguete da Allie ficou noiva do inexpressivo advogado Lon e às vésperas do casamento viu num também inexpressivo jornal local a notícia de que seu amado estava contrabandeando madeira para tentar acabar de reformar aquela inhaca daquela casa que não terminava nunca. Outra vez o magnífico Nicholas Cervantes Sparks surpreende a todos os desidratados leitores. Imagina só, a abusada da Allie resolve ir sabe pra onde? Como você não vai conseguir adivinhar, deixa eu poupar tempo: pra merdinha de cidade onde o vilão do Greenpeace estava já quase estuprando a  cachorrinha de tão carente.

Chegou lá de surpresa, para alívio da cachorrinha que já estava ficando preocupada. Depois daquelas cenas todas de um casal que não se vê há 14 anos e a única lembrança que guardam é uma sessão coruja debaixo da árvore, Noah cria coragem e convida a insaciável namoradinha a passar um dia inteirinho com ele naquele casarão mal-acabado. Antes vão passear de barco, apesar do prenúncio de uma tempestade, porque o vigoroso Noah quer lhe mostrar um local incrível e ela já imagina outra árvore fazendo papel de motel. No caminho ela admira os músculos dele, o peito suado, as mãos fortes segurando os dois remos e aquelas coisas todas que uma mulher imagina quando está querendo você sabe o quê, né? Finalmente chegam ao excitante local e, para surpresa da dondoca, a única coisa que existe ali são cisnes nadando pra lá e pra e cá e ela querendo mais é afogar o cisne, ou melhor, o ganso. De repente a tempestade cai, interrompe a sessão de versos e apaga o fogo da mocinha.

De volta ao casarão, Noah prepara uma gororoba, empresta uma roupa dele pra moça usar e depois de tudo pronto vão comer à beira da lareira. Romantézimo!!... Aí sim, cai a ficha nas testosteronas esquecidas do herói e os dois passam uma noite como se fosse nove e meia semanas de amor. Porém, e sempre tem um porém, mamãe descobre o paradeiro da filhinha e baixa lá carregando quase uma tonelada de cartas escondidas da filha durante os 14 anos que os pombinhos ficaram separados. Depois daquela chatice toda de mamãe discutindo com filhinha, mamãe resolve entregar a Deus o destino da mimada, dividida entre o amor de Noah e a segurança de Lon que, de tão covarde, mandou mamãe na frente e ficou num hotel esperando a noivinha. Mamãe parte, mas antes dá um dos mais emocionantes conselhos que já ouvi na literatura universal: siga seu coração! Uma longa conversa é travada entre os, agora sim, amantes. Para desespero dos 14 milhões de leitores e das carpideiras do nordeste, ela deixa o abasbacado Noah e parte para o hotel onde o almofadinha do Lon a espera. Até aí 145 páginas foram consumidas pelas lágrimas.

Sem aviso prévio encerra-se a sessão mundo cor de rosa e inicia-se a sessão INSS. Não sei quantos anos se passaram, mas pelo bagaço do velho Noah, calculo que uns cento e poucos. Casaram-se, tiveram filhos pentelhos que passaram a vida se debulhando em lágrimas cada vez que papai e mamãe contavam seu fantástico latinlove. Depois que os pentilhinhos todos se casaram, eles foram viver num sanatório, ela com Alzheimer e ele com tantos problemas que deve ter assustado o leitor próximo da terceira idade. Ele passa o dia lendo pra ela aquela quase tonelada de cartas deixadas por mamãe e tentando fazer a velhinha se lembrar de que já foi fogueteira.

Brilhante! Brilhante! Brilhante! Não tenho como poupar elogios a este sensacional produtor de clones da mesma história Nicholas Sparks que mais parece um pescador do que escritor. Tarrafas à parte, quero destacar as 31 páginas finais da obra utilizadas como perguntas para discussão (necessárias tal a complexidade da obra), Nicholas por Nicholas (biografia do escritor cujo ponto alto é quando mamãe diz pra ele parar de ficar amuado e fazer alguma coisa, escrever um livro por exemplo), os famosos comentários lacrimejantes e, finalmente, um baita merchan do próximo livro, Um amor para Recordar. Realmente, um escritor digno de aparecer na Bienal do Livro numa foto enorme segurando uma rosa, uma versão americana do nosso rei Roberto Carlos.

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