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domingo, 2 de setembro de 2012

O pesadelo do Zelão da Gaviões



De tanta ansiedade, Zelão nem dormiu na véspera do grande evento. Finalmente não ouviria mais ninguém dizer que seu time não tem estádio. Graças a São Jorge, à Copa do Mundo, às forças ocultas ou seja lá ao que for, o Itaquerão ia ser inaugurado. Mandou e-mails, usou tudo que é rede social , falou e disparou centenas de torpedos pelo celular e fez o máximo possível de contatos pessoais por toda a Zona Leste. Para os mais chegados reservou um cantinho na sua incansável perua. Acordou com um pressentimento de que alguma coisa estragaria a epopeia alvinegra. No café da manhã a mulher simplesmente disse que não iriam, nem ela nem o filho. Pior foi o motivo da recusa: de manha fariam yoga e à tarde visitariam o MASP! 

Saiu de casa direto para a oficina do Tião Catraca, corintiano daqueles de bater na mãe pra não perder um jogo do timão. Tinha de acabar de vez com aquele pressentimento depois da zebra criada dentro da própria casa. Chegou cantando o hino do clube e já no primeiro “Salve o Corinthians!” estranhou a cara do Tião, toda limpa sem nenhuma mancha de graxa. Não conteve a decepção ao ouvir seu amigo de fé, seu irmão camarada, dizer que aproveitaria o domingo para reforçar a campanha “Vamos ao teatro”. Saiu de lá quase às lágrimas, pegou o celular e ligou para o Alaor Tatuagem, corintiano roxo, estilo punk, nervos à flor da pele e instigador de arruaças com as torcidas adversárias, principalmente a palmeirense. Alívio geral, Alaor não só confirmou presença como também levaria um chegado.

Mais tranquilo, voou para o bar do Pipoca, ponto de encontro da torcida alvinegra mais fanática de toda a Zona Leste.  Comeu a tradicional feijoada light, tomou umas caipirinhas e muita cerveja. Estranhou apenas o fato de o bar estar quase vazio a não ser por quatro componentes da torcida jovem que conversavam brandamente enquanto degustavam suco de maracujá, sorvete de morango e dois copos de leite. Cumprimentou-os da forma rotineira. “E aí, negada?” Foi logo admoestado por um deles: “negada não, companheiros afro-descendentes!” Sentou-se e tentou desfazer o constrangimento da melhor maneira que lhe veio à cabeça.

    – E aí, vamo comê porco hoje?

    – Porco? – perguntou o que tomava leite desnatado – de jeito nenhum, imagina só quantas calorias deve ter um suíno! Deus me livre, me guarde e proteja a macrobiótica!
Tentou, então, participar do papo furado. O problema é que não entendia patavina do que eles falavam. Como não tinha o que dizer, ficou quieto, só orelhando. Foi aí que ouviu um deles, justamente aquele que sempre foi o mais casca grossa, declarar que acima do Corinthians apenas a antropologia.

    – Antro o quê? – perguntou, assustado.

    – Antropologia, ou seja, o estudo do homem, como unidade bem definida, no quadro do reino animal.

    – Caraca! – sussurrou, pensando lá no seu íntimo que isso parecia coisa de boiola. – Mas e aí, vamo ou não vamo vê o Curingão?

    – Bem que a gente gostaria – respondeu o do sorvete de morango – mas é que a nossa discussão está tão animada, não tem como deixar pra depois. Olha só, estamos justamente falando sobre o início das grandes civilizações na Mesopotâmia, Egito, Índia e China, grandes povos como os persas, sumérios, fenícios, pensadores como Confúcio, até mesmo o próprio Buda...

Sem dizer mais nada, Zelão botou o boné na cabeça e saiu sem se despedir. “Sabia que era coisa de boiola, até bunda apareceu na conversa, ainda se você bunda de mulher, mas pelo jeito era de homem”. Tratou de ir logo pra casa e cuidar dos preparativos para o jogão. Estranhou a falta de fogos, normalmente a moçada começa a soltar rojão logo pela manhã. Chegou em casa, ajuntou toda a tralha, botou na perua e partiu a mil para o local onde costuma pegar a galera.

Estacionou a perua na frente de um boteco, acendeu um cigarro e ficou esperando na calçada. Já passava das duas e meia e nada de fogos, ainda bem que ele estava garantido com seus habituais morteiros. Um a um foram chegando os torcedores e ele começou a se animar. Avistou o Alaor Tatuagem caminhando lentamente com o tal do chegado. Não pôde acreditar no que viu e continuou não acreditando até que ficaram frente a frente. Zelão chamou Alaor até o boteco e lascou:

    – Não é possível, Alaor, assim já é demais, como você me aparece aqui com um palmeirense a tiracolo?

    – Calma aí, mano, na boa... aquele ali é o Rodrigão, gente fina...

    – E você acha que eu não conheço o figura? Pô, o cara é açougueiro na minha rua, já trocamos uns tabefes por causa de futebol, como é que tu quer que eu leve o cara com a gente, se liga!



Alaor apelou para o multiculturalismo, direitos humanos, cristandade e a paz nos estádios e acabou convencendo Zelão que, a essas alturas estava mais preocupado em não chegar atrasado. Reclamou que só tinha macho no pedaço e perguntou por que a Rosinha Tanajura não veio também. Responderam que ela virou freira, entrou para o convento. Incrédulo, ajeitou como pôde os 14 torcedores dentro da Kombi. Para infelicidade sua, o açougueiro palmeirense ficou justamente do seu lado, entre os dois, a alavanca de trocar marchas. Ligou o rádio para ouvir as últimas notícias do timão e foi uma chiadeira geral, ninguém queria ouvir falar de futebol. Fizeram uma votação e Zelão foi obrigado a colocar na Rádio Eldorado e dirigir o caminho todo ouvindo música clássica. Para descontrair um pouco, puxou conversa com o palmeirense que estava lendo um livro e ele quis saber de que se tratava.

    – É “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde...

    – Doria Gay? – perguntou Zelão e tomou uma vaia geral – Fala de quê esse livro?

    – É sobre um jovem que se torna amante de si mesmo e da arte abstrata e pura, e que em  nome de inanidades sociais, insensibiliza, diagnóstica e se autodesculpa. Oscar Wilde foi um escritor irlandês, um dândi do século XIX.

“Um Bambi”, pensou ele mais precavido, “devia ser São Paulino”. Achou melhor parar por aí a conversa. O resto da viagem seguiu em silêncio até chegar à tão esperada Arena Corinthians. Seu coração pulsava acelerado, não sabia o que dizer. Alaor Tatuagem passou por ele com um livro na mão, na capa um baita de um bigodudo.

    – Esse aí eu conheço, é o Rivelino, é a biografia dele?

    – Não, maninho, que é isso? Lê aqui ó: Quando Nietzsche chorou. Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX. Já leu alguma coisa dele?

    – Meu irmão, eu só leio Placar, Lance e Gazeta Esportiva! Eu sou espada, cara!

Deixou o brutamontes falando sozinho e mais que depressa juntou suas coisas, botou a trava na Kombi e entrou no estádio. Faltavam dez minutos para iniciar a partida e o público mal dava para encher o estádio do Juventus. “Não tem problema, o que eu mais quero é que o Coringão arrase os porco, só pra salvar o dia”. Mas, do jeito que o jogo ia não sairia do 0 x 0. Desanimado ele olhava para a sua torcida e para a do Palmeiras e a visão era desoladora. Um grupinho jogava xadrez, nem aí com o jogo, muitos liam e um corintiano dançava balé com uma palmeirense em plena arquibancada. Alguns, mais atrevidos, escalaram o painel eletrônico e colocaram um enorme laço rosa para chamar atenção para a campanha da Aids. Zelão estava aturdido, completamente desolado, só perguntando o que ainda faltava acontecer. A resposta veio aos 44 minutos do segundo tempo: gol do Palmeiras! “Se esse açougueiro palmeirense começar a gritar eu mato ele”. Para surpresa sua o palmeirense acendeu três varetas de incenso e ficou completamente mudo, em posição de yoga. Zelão olhou para a pequena torcida palmeirense e nada de gritos nem de fogos, apenas uma faixa com a seguinte inscrição: “nossa solidariedade ao sofrido povo corintiano”.

    – Aí é demais, só pode ser um pesadelo! É um pesadelo! Isso é um pesadelo!...

Acordou assustado com a mulher fazendo mil reclamações por ele não deixar ninguém dormir justo na véspera da inauguração do estádio do Corinthians.

    – Parece até que você não está querendo ir, Zelão...


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