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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Das "feras do Saldanha" aos heróis das ruas


foto O Estado de São Paulo - 21/06/2013
Há 43 anos eu e milhões de brasileiros vibrávamos com a seleção canarinho nos campos do México. Paralelo a isso, o país vivia um momento político delicado, auge da ditadura militar com manifestações, atentados, prisões e desaparecimento de militantes contrários à ditadura. Tinha 13 anos e vivia alheio a esses fatos, como milhões de brasileiros a minha empolgação e o meu foco de vida estava nos maravilhosos jogos da seleção brasileira nas jogadas estonteantes de Pelé, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Gérson, Clodoaldo e todos aqueles craques da bola, as “feras do Saldanha” recebidas de herança por um Zagallo ainda jovem. Era comum sermos tachados de “alienados” e eu, como um digno “alienado mirim”, não tinha a mínima noção do que isso significava. E como poderia um garoto pobre e sonhador, amante de futebol, num bairro afastado de São Bernardo do Campo saber o que se passava no seu país e no mundo? Os precários meios de comunicação - comparados aos atuais -, limitavam-se ao rádio e à televisão, a jornais e revistas eu praticamente não tinha acesso, mesmo que tivesse, a censura da época não daria a menor chance de esclarecimentos para minha cabecinha recheada de “Avante Brasil”.

A final contra a Itália foi e ainda é um momento marcante na minha vida. Assim que o jogo acabou e o Brasil se sagrou tricampeão mundial, o céu já estava colorido de balões, nunca vi tanto balão na minha vida! Aquilo significava a fantasia tornada realidade, a possibilidade de conquistar o mundo pelos pés daqueles seres mágicos, cujo maior deles era o nosso rei Pelé. Para mim o Brasil não era uma ditadura, era uma aristocracia com rei e súditos. Na minha visão de criança – naquela época ainda éramos crianças com 13 anos – o mundo era perfeito e nada podia ser contestado. Levei tempo para sentir na pele que a realidade era bem diferente.

Hoje vejo uma situação bastante semelhante e, paradoxalmente, muito diferente daquela época. As semelhanças estão no fato de estar ocorrendo um torneio mundial de futebol com a nossa seleção buscando retomar seus caminhos de glórias e as manifestações nas ruas, agora com muito mais presença popular e num regime democrático. A grande diferença é que hoje não dependemos mais dos meios tradicionais de comunicação, a internet e as redes sociais são o carro-chefe de informação e mobilização da sociedade, tudo é instantâneo. O país virou uma grande mesa redonda onde seus problemas são debatidos sem mediadores tradicionais e sem fronteiras, pois não importa onde se encontre cada brasileiro, no Brasil ou no Ceilão, se tiver um computador e uma conexão, está aqui do nosso lado.


Meus heróis daquela época já se mostraram em carne e osso, desceram do Olimpo, são seres humanos como todos nós, cheios de qualidades e defeitos. O rei daquela época também sentiu isso na pele quando tentou “fazer a cabeça do povo” apoiado na sua imagem de rei eterno. É humano, demasiado humano. Retratou-se. Assim como alguns governantes e órgãos de imprensa, viu que o povo não é mais o mesmo, entende? O povo está deixando de ser massa de manobra, é o início de um caminho cujo destino ainda não sabemos qual será, mas temos a convicção de que é, mais do que nunca, necessário segui-lo.

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