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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Novos rumos


Todo mundo já deve saber que existem movimentos intensos de migrações no mundo, mas, talvez o que a maioria das pessoas não saiba é que esses movimentos estão deixando de ter como destino as regiões mais ricas do planeta.  

Quer um exemplo? o Acre tem sido a porta principal de entrada de milhares de haitianos que buscam no Brasil oportunidades de emprego e de melhoria de vida. Outro dia, encontrei um grupo deles numa fila em uma agência do Banco do Brasil aqui perto de casa. Estavam acompanhados por uma assistente social que mal falava portunhol e nada de inglês, a funcionária do banco tampouco falava espanhol ou inglês. Vieram a trabalho e estavam tentando abrir uma conta bancária. Vi que um deles era o único que falava espanhol e inglês e, por isso, era o interlocutor do grupo e tábua da salvação da assistente social. Perguntei se ele precisava de ajuda. Ele agradeceu e disse que estava tudo bem, já tinha cadastrado a conta dele e estava ajudando os amigos a fazerem o mesmo. 

As estimativas são de que mais de 20.000 haitianos tenham entrado no Brasil, de 2012 a meados de 2014. A cidade acreana de Brasileia vem registrando também a chegada de africanos, vindos principalmente do Senegal, além de imigrantes de outras nacionalidades. 

Muita gente talvez ainda não saiba que existem "coiotes" no Brasil, ou seja, pessoas que ganham dinheiro conduzindo grupos de imigrantes clandestinos através das fronteiras. Muitos haitianos arriscam a vida em viagens de milhares de quilômetros por barcos ou aviões e, depois, por caminhões, até chegar ao território brasileiro. Recentemente, houve um atrito entre o governo do Acre e o de São Paulo a respeito das levas de imigrantes haitianos que estão deixando o Acre rumo à capital paulista. 

Se você gostou do assunto, aconselho a visitar o site do Almanaque Abril (www.almanaqueabril.com.br) e consultar o excelente trabalho Novos Rumos. Você verá, por exemplo, que o total de migrantes internacionais no mundo chegou a 231,5 milhões, segundo a ONU. Esse número engloba qualquer pessoa que viva em um país diferente daquele em que nasceu, mesmo que sua ida tenha ocorrido há décadas. Algumas das principais rotas de migração mudaram para países em desenvolvimento, como Brasil, México ou Catar.

Entre 1990 e 2000, sete dos dez maiores destinos de migração eram países desenvolvidos, mas, de 2010 a 2013, a situação se inverteu, com os países em desenvolvimento ocupando sete posições na lista. 

Apesar de a principal motivação migratória ser econômica, violências e guerras causam deslocamentos forçados. Pessoas são obrigadas a deixar seus países para escapar de uma perseguição religiosa ou política, de uma guerra, de violações a seus direitos humanos ou de calamidades naturais, como terremotos. As pessoas que migram nessas condições são chamadas genericamente de "deslocadas". 

                      Refugiados líbios rumo à Tunísia

A guerra na Síria e o avanço do Estado Islâmico, por exemplo, causam milhares de vítimas e provocam deslocamentos forçados e, nem todos os países estão dispostos a receber esse contingente de seres humanos largados à própria sorte. Conflitos na África também são outra fonte inesgotável de lucro para os desumanos e desgraças para os seres humanos.  Infelizmente, grande parte desses seres humanos é composta por crianças e mulheres. Além dos horrores da guerra e da violência, dos quais tentam fugir, rumam ao desconhecido sem ter a certeza se chegarão ao destino esperado e, se lá chegando, serão bem recebidos ou terão de enfrentar os rigores da lei de imigração, a xenofobia, o preconceito, o desemprego e a total falta de solidariedade.

Se este artigo tivesse um fundo musical, poderia ser utilizada a música Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento; receio, porém, que ela jamais possa abarcar o caldeirão de sentimentos que esses movimentos migratórios estão provocando mundo afora. 

Devemos ficar alheios e contemplativos? Acho que não, mas como colaborar? Uma das formas, é ajudando a ONG Médicos sem Fronteiras, que falarei no próximo artigo. 







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