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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Solidariedade sem fronteiras

Planejei escrever este artigo na semana passada, mas fui abatido por uma violenta gripe e, desde então, estou aprisionado dentro do meu lar. Cama quentinha, chazinho de limão com gengibre, fármacos variados, carinho da família, não tenho do que me queixar. Pena que do lado de fora do meu lar o mundo não seja tão cor-de-rosa.

Finalizei minha postagem anterior perguntando se devemos ficar alheios e contemplativos diante das consequências humanitárias de conflitos na Síria, no Iraque, na África e respondi dizendo que não e, ao mesmo tempo, perguntei: como colaborar?

Uma das possíveis respostas está estampada no trabalho desenvolvido pela organização Médicos Sem Fronteiras. Caso você não ainda não conheça o trabalho voluntário desenvolvido por esses abnegados seres humanos, demasiadamente humanos, vale ressaltar quatro deles:

Sudão do Sul

Dezenas de milhares de pessoas estão refugiadas em um acampamento próximo a Bentiu, num dos diversos campos de "Proteção aos Civis" administrados pela missão da ONU no Sudão do Sul (UNMISS), estruturado espontaneamente após a violência ter tomado conta do país em dezembro. 

Localizado em um dos maiores pântanos do mundo, durante boa parte de agosto, as pessoas viveram em meio à água contaminada com esgoto até a altura dos joelhos. Muitos dormiam em pé, com seus filhos nos braços. Aqueles que se aventuraram do lado de fora do acampamento arriscavam-se, podendo ser vítimas de violência e estupro por parte de homens armados. 

República Democrática do Congo

A epidemia de Ebola que foi declarada em agosto, na província de Equateur, ainda não foi controlada. As equipes de resposta, incluindo 50 profissionais da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), estão trabalhando em meio a condições muito difíceis devido à falta de estradas na região, à pouca informação das comunidades locais sobre a doença e o risco de não tratar aqueles que podem ter estado em contato com o vírus. Dois centros de tratamento foram estabelecidos; um em Lokolia, com 40 leitos, e um em Boende, com 10 leitos. 

Libéria

A psicóloga Ane Bjøru Fjeldsæter, de 31 anos, ficou um mês trabalhando em Monróvia, na Libéria, com a organização internacional Médicos Sem Fronteiras. O país é o mais afetado pela epidemia do Ebola, com 1.677 óbitos dos 3.280 casos registrados (até 24 de setembro). Moradora de Trondheim, na Noruega, ela conta em depoimento uma das experiências que mais a marcaram durante a estadia na região afetada pelo vírus. 
Antes de atuar na Libéria, Ane trabalhou em um campo de refugiados do Sudão do Sul e atendeu pacientes com Ebola em Serra Leoa. Sobre a epidemia, ela disse sentir que "apagava um incêndio florestal com uma pistola d´água". Ela considera o seu trabalho importante porque "ajuda as pessoas isoladas a se sentirem menos sozinhas". Leia, abaixo, um trecho do seu depoimento:

A Libéria está dividida por uma cerca dupla laranja. Ela foi construída para manter a doença sob controle, para nos separar (os saudáveis, os privilegiados) deles (os doentes, os necessitados). Construímos a cerca para nos sentirmos menos mortais, e a fizemos com o nobre propósito da barreira sanitária. Patrick está no interior da cerca; eu, do lado de fora. Eu o vejo todos os dias e nós sorrimos e acenamos um para o outro. Ele é apenas uma criança, mas está brincando com meninos cinco vezes mais velhos, como se estivesse tentando compensar o fato de ser jovem demais para morrer. Eles jogam dama e pôquer, quando têm energia, e escutam a BBC África pelo rádio que eu trouxe um dia na minha roupa de "invasora espacial". Patrick tem um sorriso torto, tímido, e um hematoma perto do olho direito. Acaba de perder sua mãe, mas seu pai está com ele neste lugar horrível. Todo dia eu digo a mim mesma: Ane, não perca seu coração para esta criança que logo não estará mais entre os vivos. Ele está aqui por uma semana e, então, terá partido para sempre. Como você vai fazer o seu trabalho quando ele se for? Você não sabe com o que está lidando? "Isso é coisa do Ebola", como dizem no rádio. Taxa de mortalidade de 90%. As pessoas que estão daquele lado da cerca não voltam para este lado. Você sabe que é perigoso se aproximar. Digo isso a mim mesma todos os dias e nunca ouço. É impossível não olhar para o sorriso torto dele quando eu chego ao trabalho pela manhã. É impossível não notar as pequenas mudanças diárias em seus níveis de energia. Não resisto em acenar para ele ou verificar seu rosto e seu prontuário médico por qualquer indicação, qualquer uma que me permita ter a esperança de que ele vai melhorar. Tudo isso me permite ter esperança de que vamos jogar pôquer juntos um dia, sem todo o incômodo de eu ter que usar máscara, óculos de proteção e luvas duplas. 

Gaza

Já faz quase quatro anos que Liliana Andrade, 39 anos, dedica suas férias ao trabalho humanitário com o Médicos Sem Fronteiras (MSF). A anestesista participou de projetos em países como Paquistão, República Democrática do Congo, Haiti e Sudão do Sul. O trabalho em meio a um dos conflitos mais sangrentos da atualidade, foi completamente diferente de tudo o que conhecia, tanto profissional como pessoalmente. "Os ferimentos de vítimas de bombardeios são lesões muito diferentes das que já havia tratado. Acumulam-se grandes áreas do corpo queimadas, fraturas expostas, esmagamento de membros, traumatismos. Acontece tudo de uma vez", conta. 

Na sua primeira visita a Gaza, a situação no país não era boa, mas pairava uma relativa tranquilidade no ar, e as equipes de MSF, assim como de outras organizações humanitárias, tinham liberdade para transitarem pela região. Desta vez, a história foi outra. A anestesista vivenciou um misto de emoções durante seus 55 dias no projeto, momentos de medo durante madrugadas ao som de bombas e explosões, ansiedade pela espera do próximo cessar-fogo e felicidade plena após o estabelecimento do cessar-fogo que se estende até o presente momento, sem prazo determinado para acabar. "Todo mundo chorou. Ficamos muito emocionados por estarmos ali, naquele momento. Você consegue ver o que é a felicidade de um povo. Não é qualquer comemoração; é a vida deles que está em jogo", afirma Liliana. 

Depois de tudo isso, você vai perguntar: e então, como faço para ajudar? Entre no site do Médicos Sem Fronteira - www.msf.org - e escolha a sua forma de doação. Eu, por exemplo, faço uma doação mensal de R$ 60,00 e me sinto muito feliz em poder ajudar financeiramente para manter uma organização que ainda me faz ter esperanças no ser humano. Faça você também a sua parte! O mundo não precisa ser cor-de-rosa, mas podemos ajudá-lo a não ser tão tenebroso. 



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