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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Reflexões pós-urnas - parte 2

Dando continuidade a estas reflexões pós-urnas, baseada no livro Por que perdemos nossos ideias?, de Leonardo Zoccaratto Ferreira, vamos tratar de um tema caro a todo cidadão: a democracia. Leonardo dedica um capítulo a ela, intitulado Odiosa Democracia. Aviso de antemão que não tem nada a ver com a ridícula passeata contra a Dilma e pró-ditadura, realizada na semana passada na avenida Paulista. Aliás, ela só foi possível graças à democracia e, como diria Vicente Matheus: a democracia é uma faca de dois legumes. Vamos lá, lembrando que o texto em itálico é do Leonardo e os grifos meus: 

De neblina em neblina os tiranos convencem a maioria da legitimidade dos seus atos, tecendo, como um aracnídeo ardiloso, ideais que blindam seus interesses, suas pulsões. A neblina em alta hoje é a democracia, nova estúpida forma de dominação a que devemos aos modernos racionais e livres.  O seu único mérito como modelo de governo é o saber como nenhum outro esconder quem manda de fato nas sociedades, criando uma cortina feita de sonhos e ilusões onde até as melhores mentes já se perderam, talvez embriagadas pela superioridade da tal ação desinteressada.  

A questão da democracia é simples. Se fôssemos como os modernos nos pintaram, com vontade e tudo mais que a este ponto você já decorou, funcionaria maravilhosamente bem. Mas a questão é perceber que seu florescimento nas comunidades europeias somente significou que outro grupo assumia o poder, em detrimento do anterior. De maneira nenhuma este modelo pode realizar os anseios a que se propõe de igualdade, fraternidade e liberdade, porque eles mesmos são a antítese do que o Homem tem como primordial. Fica claro a mim que estas palavras têm um poder mais eficiente como fumaça do que efetivo, já que na prática o que temos é o que sempre teremos: Alguns mandam, muitos outros obedecem

A diferença principal que me faz repulsar este modelo com grande força é que quando éramos governados por monarcas sabíamos quem estava dando as ordens, quem estava comandando o jogo até certo ponto. Qualquer governo ditatorial mostra as caras. Sabíamos identificar com mais clareza quem eram os beneficiados do sistema e quem estava condenado à escravidão. Na democracia estes tiranos escondem-se por trás das sombras da impessoalidade, do estado, da burocracia, dos cargos públicos. Como antes, há agentes que dão as cartas a sua maneira, mas agora com muita dificuldade conseguimos enxergá-los.

Podemos perceber este viés sempre que o sistema como um todo é, por qualquer razão, ameaçado. Logo aparecerão os senhores feudais saídos das sombras e farão o possível, inclusive passando por cima dos tais preceitos democráticos, para reestabelecer o controle, um controle que é muito mais virtual, por assim dizer, do que espacial. A moda na democracia não é meter a borracha, é controlar consciências. Lapidar uma geração antes que esta ganhe maturidade é muito mais eficiente do que aforça física
  
Qual é o problema com tudo isto? O problema é perceber o nível de aceitação que os contemporâneos despendem a esta tal democracia. Será que não chegou o momento de começarmos a varrer todo este entulho deixado pelos modernos como ideal de salvação do mundo? Ainda temos que acreditar neste ideal mentiroso da ação desinteressada, da bondade humana, da competência pensante, da vontade racional? Se é absurdo, por que permanecemos construindo um mundo a esta imagem e semelhança? Como podemos ainda culpar o Homem por esta parafernália toda não estar funcionando como achávamos que funcionaria?

Parece-me que o problema das instituições reside no fato delas dependerem para seu funcionamento de um Homem que nunca existiu. O Homem racional capaz de transcender seus impulsos egoístas em nome da sociedade e do bem público são ótimos contos de fadas e talvez nem as crianças mais acreditem nessa história. Porque nós, adultos, acreditaríamos? Porque o Homem só abre mão de algo por expectativa de interesse ou quando é coagido; por que um poderoso iria abrir mão do seu poder? A crença de que possamos eleger alguém que cuide dos nossos interesses é uma das maiores bobagens já feitas e demonstra suas falhas todos os dias

O político só é capaz de representar a si mesmo e os mecanismos políticos não permitem um controle efetivo por parte dos cidadãos, de modo que o sistema representativo não só é uma aberração como também uma inutilidade. E isto falando apenas no plano do discurso, porque acho mais realista a hipótese da democracia ser a forma pela qual os poderosos continuam no poder, a máquina escravocrata por excelência, a maneira de fingir dar uma mão para salvar o braço. Enfim, temos que buscar adequar o sistema ao Homem interesseiro, e não o contrário.

Duas coisas me deixam extremamente aborrecido neste tema: primeiro a característica única de desresponsabilizar os atores políticos, escondidos por traz dos seus cargos e do próprio sistema. Esta herança moderna é nefasta. Parte-se do pressuposto que o Homem é capaz de uma ação desinteressada para se construir um sistema que depende de uma vontade que só existe na cabeça de alguns homens. E quando as coisas saem erradas, não há quem culpar, não há responsáveis, o sistema político torna os vilões invisíveis, pois sempre poder-se-á alegar problemas com a burocracia e o famoso conflito de funções tão característico deste modelo. O governador joga a culpa no presidente que joga a culpa no tribunal que joga a culpa no legislativo, a responsabilidade se dilui, todos, em pouco tempo, esquecem-se, livram-se do problema, e todos continuam felizes com seus cargos. Em um governo monarca, por exemplo, se as coisas não acontecem todos já sabem quem é o culpado, o chefe maior, aquele que tem o poder para mexer em tudo. Em qualquer empresa uma das regras básicas de funcionamento é localizar a responsabilidade. No governo democrático ninguém é responsável por nada, porque ninguém tem interesse em cuidar de nada que não diga respeito ao que é seu e te importe. Por isto todo governo deste tipo tende a virar uma zona, pelo menos com questões que importam à plebe, pois basta um dos dominantes estar ameaçado para as responsabilidades surgirem ninguém sabe da onde e resolver o problema, usando a força, o poder econômico ou qualquer meio, chutando eventuais valores democráticos pro espaço.

A segunda característica de causar calafrios e que até certo ponto se associa com o ponto acima é a demora na tomada de decisões. É impressionante como o governo democrático tende a parecer mais com um elefante que anda com cautela em uma loja de cristais do que com um poder responsável pela administração. A lentidão só é quebrada quando de alguma forma existe um interesse por parte dos atores sociais dominantes no processo que então, de forma ditatorial como só poderiam ser, pressionam e fazem com que os trâmites corram com velocidade, atropelando qualquer regra republicana no caminho e mostrando como é importante apreciarmos o sistema político na prática, e não tendo como referência um ideal sem correspondências com nossa humanidade.

É claro que eu, sendo brasileiro, não poderia deixar de lado o papel da mídia neste esquema todo. Você quer vomitar e não consegue? Sugiro que ligue a televisão. Podridão, mal cheiro, náusea, é tudo que conseguirá destes sanguessugas microfonados. Todos que estão na grande mídia são ou coniventes com a safadeza alheia, ou são eles próprios os safados. Muito pior que imaginavam os mágicos modernos, os meios de comunicação são verdadeiros bisturis nas mãos dos tiranos republicanos, nutrindo apenas um real interesse: manter o poder concentrado nas mãos de quem sempre esteve. De fato toda grande rede de televisão precisa de um bom lavatório para tirar o sangue das mãos de seus personagens.

Creio que algumas coisas têm que ser resgatadas. Não importa a forma política, o chefe de qualquer coisa deve ter responsabilidade. O poder não pode de maneira alguma ser dividido em três, principalmente quando estes se transformam em centenas de representantes. Um chefe deve chefiar, senão não é chefe. E isto significa tomar decisões soberanamente em relação a qualquer outro poder e assumir as responsabilidades. Não digo que isto fará o líder decidir em nome do povo ou do bem comum, porque ele só pode falar pelos seus interesses. Mas pelo menos ficaria mais claro quais interesses devemos observar quando fôssemos, por exemplo, votar. Se sei que o candidato não terá limitações institucionais, terá plenos poderes neste sentido, o número de desculpas que ele poderá usar diminuem consideravelmente, facilitando o controle e a fiscalização do que vem sendo executado. Isto só é possível quando entendemos o Homem como ser que deseja, e não como ser que pensa racionalmente, com vontade e capacidade de agir sem querer, em nome do público.

Não estou de forma alguma propondo uma volta a antigos modelos. Não precisamos de reis, precisamos do estado talhado ao Homem interesseiro. O primeiro passo seria entender que a divisão de poderes não tem sentido algum. Não podemos esperar organização de algo assim, e sim conflito de interesses que apenas beneficia aqueles que não precisam da ação direta do Estado.

Bom, acho que o que foi dito acima já dá margem a muita discussão. Toda discussão é salutar, desde que os envolvidos não se considerem os donos da verdade nem os santos protetores da humanidade. Como essa discussão será feita cabe a cada um de vocês escolher. Sugiro a leitura do livro, mas advertindo novamente que é um livro incômodo e provocador. É gratuito e pode ser baixado no endereço abaixo:

http://escola-de-filosofia, webnode.com/textos-e-livros/meus-livros/

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