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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A face humana

Comecei a assistir Narcos no último sábado juntamente com meu filho. Somos de gerações diferentes, eu com cinquenta e nove e ele com dezoito anos. Gerações diferentes, expectativas diferentes. Pablo Escobar é um personagem novo para meu filho. Para mim, no entanto, é um velho conhecido, muito antes de ele virar personagem na pele de Wagner Moura. Estudei jornalismo de 1980 a 1984, período em que Pablo Escobar já tinha construído o seu império do narcotráfico e também consolidado sua imagem de Robin Hood dos pobres da Colômbia. Vivíamos ainda uma época em que a palavra idealismo tinha um sentido muito forte, principalmente para a juventude. Meu filho é estudante de engenharia e faz parte de uma geração que tem dificuldades em entender o conceito de idealismo, o que não quer dizer que sejam egoístas.

Antes da estreia de Narcos, li e ouvi diversos comentários a respeito da intenção de José Padilha em mostrar uma face mais humana do Pablo Escobar vivido por Wagner Moura. Confesso que isso reduziu o meu interesse na série pela simples razão de que não conseguiria, por mais que tentasse, enxergar a face humana num assassino contumaz. Traficante, por si só, não tem nada de humano. Tentar encontrar humanidade em um dos maiores, senão o maior traficante da história seria um exercício de estupidez, hipocrisia, insensibilidade ou desconhecimento voluntário das desgraças patrocinadas pelo narcotráfico. No domingo retrasado li uma crítica no Caderno 2, do Estadão, cuja conclusão era que tanto Padilha quanto Wagner Moura falham na tentativa de mostrar um Pablo Escobar mais humano. Isso me motivou.

Ontem, vimos o sétimo episódio. Meu filho estava excitado com o ritmo da narrativa e chocado com as cenas de violência. Desabafou: assim fica difícil torcer para os traficantes! Mas você queria mesmo torcer para eles?, perguntei.

Faço agora uma pausa para divagações. Quando eu era adolescente, li um livro chamado "O cabeleira", do escritor Franklin Távora. O livro conta a história de José de Gomes, um dos primeiros cangaceiros de Pernambuco. Cabeleira aterroriza a província de Pernambuco em 1776, mas quando reencontra Luísa, foge com ela e começa a se reformar, apesar de ainda, por instinto, tentar se defender violentamente.  O livro me marcou muito porque acompanhei toda a trajetória do cangaceiro até a sua morte num cerco policial. Chorei pela sua morte assim como torcera por ele em toda a sua trajetória, sem nenhum conflito interno. Cabeleira, apesar de criminoso, nem em sonho se aproximava de um Pablo Escobar. .

Breaking Bad foi a melhor série que assistimos. O químico e cozinheiro de metanfetamina, Walter White começa bonzinho e se transforma completamente depois de sentir o poder conferido pela droga que só ele consegue produzir. Difícil para um jovem de hoje não passar a maioria dos episódios torcendo por ele, até ser sacudido por um choque de realidade ao se dar conta do quanto ele destruiu uma infinidade de famílias, principalmente a dele. Isso provoca uma reviravolta na mente do espectador que vê seu herói transformado em vilão. Achei extremamente positivo meu filho ter mudado sua posição frente ao herói que virou vilão. Mesmo tendo Walter se transformado obsessivamente em Heinsenberg, é possível enxergar a tal face humana nele. Assim como o Cabeleira, ele está a quilômetros de distância de Pablo Escobar. Por quê?

Como imaginar uma face humana em quem é responsável pela morte de quase dois mil policiais, uma infinidade de juízes, políticos, jornalistas e reféns inocentes? Como considerar humano alguém que mata friamente só para garantir o sucesso do seu negócio? Um negócio que chegou a render incríveis noventa e seis milhões de dólares por dia? Tanto dinheiro que não dava tempo de "lavar", tinha até de ser enterrado e distribuído aos pobres e assim construir a sua imagem de Robin Hood. Como enxergar humanidade em uma pessoa que alicia um rapaz pobre com mulher e filho recém-nascido a embarcar num avião e detonar, sem saber, um explosivo que provoca a morte de mais de cem pessoas apenas para matar um candidato à presidência que na última hora não embarcou no avião? Depois disso, ainda mandar a matar a jovem viúva e até o bebê, salvo na última hora pelo agente do DEA, o americano que narra a história. Nenhum diretor ou ator tem o poder de transformar um assassino cruel e frio num ser humano à parte dos seus atos. A não ser que falte com a verdade. 

Isso me leva a outra pergunta: o que significa ter uma face humana? Crescemos ouvindo que mostrar humanidade é ter compaixão ou solidariedade em relação ao próximo. Causas humanitárias são aquelas voltadas para aliviar o sofrimento do próximo. Ser humano significa ser bom? Ora, a história está repleta de exemplos da maldade humana. O homem deixou até  aqui um legado de atrocidades inimagináveis nas infinidades de guerras que ele produziu e continua produzindo. É possível olhar para o continente africano e não enxergar a maldade humana? É possível colocar uma venda sobre o holocausto, os genocídios dos países comunistas, o quanto se matou e se mata ainda em nome de Deus? Que animal pode se equiparar ao homem em maldade? Quantos milhões de migrantes perambulam pela Europa fugindo de guerras e de perseguições religiosas e caem nas mãos de traficantes de gente que ganham dinheiro explorando a miséria humana? Pense bem. Será que Padilha e Wagner Moura falharam mesmo em dar uma face humana para Pablo Escobar? 

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