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segunda-feira, 14 de março de 2016

A escrava que não era Isaura ou a Isaura que não era escrava?


A foto ao lado viralizou na internet. Foi postada por mais de uma fonte sob a alegação de ser uma imagem emblemática da manifestação coxinha do dia 13. Fiz um comentário ontem. Na hora em que comentei ela estava subindo no ranking, com mais de dois mil comentários e doze mil compartilhamentos. Virou um debate ao vivo no Facebook. Imaginem o teor dos comentários! Polêmicas à parte, deixo aqui minha opinião. Nem sempre uma imagem vale mais que mil palavras, principalmente quando ela é utilizada para tentar reforçar uma ideia pré-concebida, um pré-julgamento, um preconceito às avessas. 

Olhando para a foto despido de ideias pré-concebidas, não existem nela evidências concretas de que são dois patrões desalmados que vão para a manifestação e obrigam a babá a empurrar o carrinho de bebê num domingo quando poderia estar em casa descansando. Chegou-se ao ponto de declararem que os patrões estavam obrigando a babá a trabalhar num domingo numa manifestação contra o  partido ou governo responsável por tê-los obrigado a pagar o décimo terceiro da babá. Pré-julgamento puro, justamente o que alegam estar acontecendo com Lula; preconceito puro, justamente o que alegam estar sofrendo Lula, um pobre nordestino que venceu na vida e desagradou as elites que não suportam ver isso acontecer, como se Lula fosse o primeiro pobre a vencer na vida. Não vou nem discutir aqui o conceito de elites para não fugir do tema principal, a emblemática foto da escrava babá negra sendo explorada pelo tirânico casal branco das elites.

Muita gente fala sobre a exploração das empregadas domésticas pelas patroas sem nunca ter sido patroa, muito menos empregada. Muita gente palpita sobre essa relação sem nunca a ter vivenciado. Quando fazem isso, correm o risco de exacerbar um, ou os dois, papéis. Consideram a patroa exploradora e a empregada explorada e vice-versa. Quem conhece essa relação, entretanto, sabe que isso é de um simplismo absoluto. Outro erro, considerar que as patroas são todas bem de vida, nadando em dinheiro e desumanidade porque, além de explorar a babá, não exercem inteiramente o papel de mães ao relegar os filhos aos cuidados de uma estranha. Nada mais distante da realidade. Com o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho cresceu também a necessidade da contratação de empregadas domésticas e babás para cuidar da casa e dos filhos enquanto elas estão trabalhando. Aí já acontece o primeiro erro, achar que só a empregada é trabalhadora, desconsiderando a situação da patroa que também está lutando pela sobrevivência, ainda mais na recessão que estamos atravessando. Não é essa a situação do casal da foto pois são empresários. Aí vem o segundo erro: achar que empresário não é povo (desde que não seja empresário amigo do Lula), que não são vítimas também da falência da nossa economia. Vi a defesa do rapaz no Facebook. Ele tem quatro empregados em casa, paga todos dentro das regras trabalhistas, a babá trabalha regularmente aos domingos e recebe a remuneração adequada para isso, tendo toda a liberdade para continuar trabalhando ou não como babá e que não existe nenhum problema de relacionamento entre eles.

Quem já utilizou serviços de babás ou já foi babá sabe que é bastante corriqueiro o trabalho de fim de semana. Quem é babá ou cuidadora de idosos sabe que, financeiramente, é mais compensador trabalhar aos domingos e folgar durante um dia da semana. Mesma situação vivem os que trabalham em lojas, hotéis, transporte coletivo, aeroportos e uma série de atividades, cujo maior exemplo são os jogadores de futebol, onde trabalhar nos de fins de semana é a regra é não a exceção. Trabalho escravo? Será que o Faustão, o Neymar e o Silvio Santos concordam?


Outra alegação diz respeito à cor da babá e ao branco que ela veste. Comecemos pelo mais simples. O branco nada mais é do que a cor do uniforme. Como tem muita gente vendo preconceito até no uso do uniforme, é bom saber que para a empregada o uso do uniforme é muito mais econômico e prático. Também nunca vi jogador de futebol ou outro esporte reclamar do uso do uniforme no trabalho.

Agora o mais delicado: a cor da babá. Se esses patrões fossem realmente preconceituosos assumidos, provavelmente a babá seria branca, não necessariamente de olhos azuis ou verdes, simplesmente branca. Existe preconceito no Brasil? Lógico, não só racial, existe preconceito de todos os tipos, inclusive uma forma preconceituosa de tratar o preconceito. Quem tem o preconceito aqui alegado jamais deixaria uma negra colocar as mãos no seus filhinhos brancos.

Outro erro: achar que numa manifestação como a de ontem vá existir unidade de discurso ou coerência do começo ao fim da avenida. Um grupelho que prega a volta dos militares, dois ou três políticos, um governador, um candidato derrotado na última eleição e outras aberrações representam muito pouco e não podem ser usados para desqualificar a manifestação que foi uma das maiores dos últimos tempos. Só o PT é corrupto? Claro que não, se há uma coisa que não existe na política são anjos e inocentes. O PT não inventou a corrupção e não é o único que a utiliza; porém, ele e a sua base aliada são governo federal, têm toda a máquina administrativa nas mãos, faz todas as indicações de diretorias em estatais e é o núcleo da Lava-Jato. Mas o PT vive se fazendo de vítima, de perseguido pelas elites, pela mídia golpista, de ser o único partido na mira da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República. Tanto não é verdade que o primeiro político a ser indiciado será o Eduardo Cunha, do PMDB, além de carregar o mensalão nas costas de seus guerreiros do povo brasileiro. o PT e o Lula não deram até agora nenhuma resposta convincente sobre as acusações gravíssimas de que são alvos. Lula presta depoimento na PF e dá 100 "não sei" como resposta. Ou ele é muito esperto ou é muito burro porque não sabe de nada que acontece em volta dele, nem o que diz respeito aos filhos. 

Passada a manifestação, estamos na expectativa de ter Lula ocupando um ministério. Não aceitou de imediato talvez por ainda estar pensando como proteger o resto da família. Enquanto isso, ficam tentando desqualificar as manifestações de ontem com argumentos rasteiros como o de dizer que foram às ruas apenas os que não votaram na Dilma, uma elite branca. Por acaso um presidente governa apenas para quem votou nele e branco não é povo? 

Ah, passando hoje pela estação Paraíso, vi ele, um vira-lata coxinha! Por favor não vão dizer que o carroceiro obrigou seu cachorro escravo a usar a bandeira na manifestação, ou que foi algum empresário da mídia que golpista que decorou a carroça dele...






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